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Gianni Ratto descortina ofício do ator

04/06/08

Gianni Ratto

Encenador italiano completa 50 anos no país e lança "Hipocritando", livro que mescla crônica e "dicas" para iniciantes

VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

   Primeiro, Gianni Ratto esquadrinhou suas memórias entre a geografia afetiva de Milão, cidade italiana onde nasceu, e a São Paulo onde está radicado há meio século. Depois, discorreu sobre a evolução do espaço cênico no teatro e na ópera. No terceiro livro, encontrou atalho para a crônica, gênero que parece impregnar toda a sua escrita.

   Agora, ele se propõe a descortinar o ofício do ator para iniciantes. Em se tratando de Ratto, isso não implica manual ou método. Ao contrário, mostra um dos artistas e pensadores mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo, com o lançamento de seu "Hipocritando - Fragmentos e Páginas Soltas".

   O título é carregado daquele estranhamento típico da metáfora, a figura de linguagem que vai pontuar todo o volume e convidar o leitor a se aventurar pelo caminho do autoconhecimento.

   Para esse processo, que ele espera dirigido à sensibilização do jovem interlocutor (e aqui não quer dizer de idade, mas de espírito), lhe apraz o recurso da crônica, "inevitavelmente elaborada, mas sem fazer uso de técnica literária".

   À palavra -"instrumento preciosíssimo, mas também muito importante porque seu ponto de chegada é a poesia"- Ratto interpõe ilustrações.

   De largada, há a foto de um orangotango a dividir a capa com o termo "Hipocritando" (na Grécia Antiga, o ator era chamado de "hipokrités", fingidor).

   "O que me toca nesta imagem, em profundidade mesmo, é a doçura imperativa da beleza desses olhos. Como não ficar emocionado quando nosso espírito nos leva a este encontro em que é impossível separar a dimensão humana da dor do animal?", escreve.

   O livro se propõe exatamente a descobrir, por meio da metáfora, valores que não são declarados, mas que são propostos indiretamente com ilustrações.

   Em "A Mochila do Mascate" (Hucitec), ele concluía: "A topografia do meu rosto é na realidade o mapa de novos percursos e, lá no fundo, bem no fundo, um horizonte está amanhecendo". No "Antitratado de Cenografia" (Senac) dizia: "Os horizontes estão abertos: é só querer chegar lá".

   Quem acompanha as narrativas do autor, depara com esses horizontes mais próximos em "Hipocritando". Mas ainda horizontes a serem desbravados com o tempo e a vontade de cada um.
"Se você tem a lucidez e o prazer de existir, a descoberta vem como uma provocação militante", afirma Ratto.

   Ele pertence à leva de diretores estrangeiros que aportou no Brasil entre os anos 40 e 50, como o polonês Zbigniew Ziembinski (1908-78), o italiano Adolfo Celi (1918-86) e o belga Maurice Vaneau, que também pretende escrever um livro (leia abaixo).

   Ratto segue criando, quer no departamento de teatro da secretaria municipal da Cultura em São Paulo, quer na produção recente "Novas Diretrizes em Tempo de Paz" (iluminação).

   A simbologia, que lhe é tão cara, está presente até no lançamento de "Hipocritando". A noite de autógrafos acontece hoje, no Museu de Arte de São Paulo, o Masp onde o encenador trabalhou em 1954, no departamento de teatro do espaço de Pietro Maria Bardi.

   Veio para o Brasil naquele mesmo ano, a convite da atriz Maria Della Costa, que inaugurava seu teatro. Deixou para trás a formação e cerca de sete anos no Piccolo Teatro di Milano, o primeiro teatro estável da Itália, onde atuou ao lado de diretores como Giorgio Strehler e Paolo Grassi.

   O hiato de 50 anos entre o 4º Centenário e os 450 anos de São Paulo, mais o retrospecto do artista na Itália serão focados no documentário "Gianni Ratto", dirigido por Antonia Ratto, sua filha, e Gabriela Greeb. Ainda em busca de recursos para finalização, o filme captou imagens de Ratto em Milão, Gênova, Florença, Rio e Angra dos Reis. Além do próprio, deram já depoimentos Dario Fo, Fernanda Montenegro, Maria Della Costa e Millôr Fernandes.

HIPOCRITANDO - FRAGMENTOS E PÁGINAS SOLTAS - De: Gianni Ratto. Editora: Bem-Te-Vi. Quanto: R$ 80.

(© Folha de S. Paulo)


TRECHOS

"Teatro é o poder da palavra que enche o vazio de um galpão poeirento, iluminando-o pela beleza da interpretação."

"O ator criador, sua capacidade interpretativa, é algo que será sempre generosamente repetitivo (como o momento do amor), tal um objeto que, iluminado por focos, sempre diferenciados, poderá assumir os aspectos polivalentes identificáveis por alguém que podemos considerar "O Espectador"."

"Façam perguntas, mas não esperem respostas, pois a vida se encarregará de respondê-las. A vida é um oceano sem limites, profundos e translúcido como o pensamento. Seu horizonte tangencia todo o saber do homem, a transparência de suas águas permite ler o que os poetas cantaram e criaram: palavras, pedras, sons e movimentos."

GIANNI RATTO
no livro "Hipocritando"

(© Folha de S. Paulo)

Para saber mais sobre este assunto (arquivo ItaliaOggi):

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