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Impérios modernos em queda

04/06/08

 

Série de crises nos maiores grupos econômicos da Itália abala confiança no país

Cesar Baima

   O início do novo milênio não está favorável para os modernos impérios romanos. Uma série de crises nos maiores grupos econômicos da Itália, alguns considerados verdadeiros símbolos do ressurgimento do país, está abalando a confiança dos investidores e ameaça a poupança de milhões de italianos, já duramente afetada pelo calote argentino.

   O escândalo financeiro da Parmalat é apenas o último em uma seqüência de ataques que, a exemplo das invasões bárbaras da antiguidade, põem em risco as estruturas do moderno capitalismo italiano. Os problemas começam já na liderança do país. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi, no cargo desde junho de 2001, é o principal acionista da Mediaset, maior grupo de comunicação privado da Itália e dono das emissoras de TV Canale 5, Italia 1 e Retequattro.

   Com isso, Berlusconi, que em última instância também comanda a rede de TV estatal RAI, com mais três das maiores emissoras do país, tem sob seu controle mais de 90% da audiência italiana. Na sexta-feira, o primeiro-ministro conseguiu aprovar na Câmara dos Deputados decreto para evitar ser obrigado a transformar um de seus canais privados em emissora via satélite, o que significaria abrir mão de cerca de US$ 450 milhões anuais em receitas publicitárias. O projeto seguiu para o Senado local, onde deve ser aprovado esta semana.

   O conflito de interesses também marca as dificuldades financeiras da Fiat, maior grupo industrial da Itália. No fim de 2002, pressionada por altas dívidas e um prejuízo que atingiu 4,2 bilhões de euros (cerca de US$ 5 bilhões) apenas naquele ano, a empresa lançou ambicioso plano de reestruturação que previa 12,3 mil demissões e o fechamento de várias fábricas no país até 2006. Para piorar, em janeiro de 2003 faleceu Giovanni Agnelli, patriarca da família fundadora da companhia.

   Além disso, a Fiat começou a se desfazer de diversos ativos, como a divisão aeroespacial FiatAvio, para levantar recursos para resgatar sua unidade automobilística, que perdia espaço no próprio mercado italiano. Coração do grupo e fonte de grande parte das perdas, a Fiat Auto estava ameaçada de ser tomada pela rival americana General Motors, que em 2000 comprou 20% da montadora por US$ 2,4 bilhões.

   Os planos, aparentemente, estão dando certo, não sem antes uma ajudinha do governo, que no início do ano passado lançou programa de incentivo às compras de carros novos. No mês passado, a Fiat Auto conseguiu voltar a responder por mais de 30% das vendas de veículos na Itália, enquanto os custos caíram 1 bilhão de euros em 2003 graças aos cortes de empregos.

   Ainda antes da crise na Parmalat, outra grande empresa do setor alimentício italiano, a Cirio, também teve de se refugiar de seus credores na Justiça. Em novembro de 2002, a empresa foi responsável pelo primeiro calote de títulos corporativos da Itália, no valor de 150 milhões de euros, e em outubro passado, com dívidas de 1,27 bilhão de euros, teve sua insolvência e liquidação decretada por um tribunal de falências do país. No início deste mês, Sergio Cragnotti, ex-presidente da empresa, foi preso em razão de processo criminal sobre a quebra da companhia.

   O caso da Parmalat, porém, é considerado ainda mais grave. Estima-se que as dívidas da empresa, também em processo de falência, ultrapassem os 14 bilhões de euros e que ela tenha acobertado prejuízos da ordem de 400 milhões de euros anuais desde o início dos anos 90. Além disso, o alcance mundial do grupo, com operações que vão do Brasil à China, deu ainda mais visibilidade ao escândalo, que até agora resultou nas prisões do fundador Calisto Tanzi e de dois de seus filhos - Stefano e Francesca -, além de mais de uma dezena de ex-executivos do grupo.

(© JB Online)


Investidores acumulam prejuízos

   Já traumatizados com o calote da dívida pública da Argentina na virada de 2001 para 2002, os italianos acumulam ainda mais prejuízos com as quebras da Cirio e da Parmalat, numa ameaça às poupanças - e aposentadorias - de milhões de habitantes do país. Sem contar as perdas com as desvalorizações das ações das duas empresas e de diversos bancos acusados de, no mínimo, negligência com relação às fraudes, os investidores dos país têm em mãos micos que chegam a 17 bilhões de euros na soma dos três casos.

   Os italianos são os investidores estrangeiros que compraram o maior volume de papéis do governo argentino - cerca de 14 bilhões de euros - e lutam para que o país melhore sua oferta de honrar só 25% do débito. Aproximadamente 450 mil italianos possuem títulos argentinos, que até às vésperas do calote eram vendidos pelos bancos locais como opções seguras e de rentabilidade maior que papéis similares da Itália.

   A essa briga, soma-se agora a disputa para receber o dinheiro aplicado nas duas maiores indústrias alimentícias do país. No caso da Parmalat, são pelo menos 70 mil os poupadores italianos que detêm títulos da dívida da empresa num total de cerca de 1,9 bilhão de euros. No sábado, um grupo de investidores institucionais com 300 milhões de euros desses papéis abriu processo em um tribunal de Roma para forçar o ministro da Indústria, Antonio Marzano, e o interventor Enrico Bondi a ouvirem sua posição antes da apresentação dos planos de reestruturação da empresa e do débito que Bondi deve fazer até o fim deste mês.

   Já no caso da Cirio, são pelo menos 30 mil investidores italianos com cerca de 1,27 bilhão de euros em papéis da dívida da empresa.

(© JB Online)

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