O início do novo
milênio não está favorável para os modernos impérios romanos. Uma série
de crises nos maiores grupos econômicos da Itália, alguns considerados
verdadeiros símbolos do ressurgimento do país, está abalando a confiança
dos investidores e ameaça a poupança de milhões de italianos, já
duramente afetada pelo calote argentino.
O escândalo
financeiro da Parmalat é apenas o último em uma seqüência de ataques
que, a exemplo das invasões bárbaras da antiguidade, põem em risco as
estruturas do moderno capitalismo italiano. Os problemas começam já na
liderança do país. O primeiro-ministro Silvio Berlusconi, no cargo
desde junho de 2001, é o principal acionista da Mediaset, maior grupo
de comunicação privado da Itália e dono das emissoras de TV Canale 5,
Italia 1 e Retequattro.
Com isso,
Berlusconi, que em última instância também comanda a rede de TV
estatal RAI, com mais três das maiores emissoras do país, tem sob seu
controle mais de 90% da audiência italiana. Na sexta-feira, o
primeiro-ministro conseguiu aprovar na Câmara dos Deputados decreto
para evitar ser obrigado a transformar um de seus canais privados em
emissora via satélite, o que significaria abrir mão de cerca de US$
450 milhões anuais em receitas publicitárias. O projeto seguiu para o
Senado local, onde deve ser aprovado esta semana.
O conflito
de interesses também marca as dificuldades financeiras da Fiat, maior
grupo industrial da Itália. No fim de 2002, pressionada por altas
dívidas e um prejuízo que atingiu 4,2 bilhões de euros (cerca de US$ 5
bilhões) apenas naquele ano, a empresa lançou ambicioso plano de
reestruturação que previa 12,3 mil demissões e o fechamento de várias
fábricas no país até 2006. Para piorar, em janeiro de 2003 faleceu
Giovanni Agnelli, patriarca da família fundadora da companhia.
Além disso,
a Fiat começou a se desfazer de diversos ativos, como a divisão
aeroespacial FiatAvio, para levantar recursos para resgatar sua
unidade automobilística, que perdia espaço no próprio mercado
italiano. Coração do grupo e fonte de grande parte das perdas, a Fiat
Auto estava ameaçada de ser tomada pela rival americana General
Motors, que em 2000 comprou 20% da montadora por US$ 2,4 bilhões.
Os planos,
aparentemente, estão dando certo, não sem antes uma ajudinha do
governo, que no início do ano passado lançou programa de incentivo às
compras de carros novos. No mês passado, a Fiat Auto conseguiu voltar
a responder por mais de 30% das vendas de veículos na Itália, enquanto
os custos caíram 1 bilhão de euros em 2003 graças aos cortes de
empregos.
Ainda antes
da crise na Parmalat, outra grande empresa do setor alimentício
italiano, a Cirio, também teve de se refugiar de seus credores na
Justiça. Em novembro de 2002, a empresa foi responsável pelo primeiro
calote de títulos corporativos da Itália, no valor de 150 milhões de
euros, e em outubro passado, com dívidas de 1,27 bilhão de euros, teve
sua insolvência e liquidação decretada por um tribunal de falências do
país. No início deste mês, Sergio Cragnotti, ex-presidente da empresa,
foi preso em razão de processo criminal sobre a quebra da companhia.
O caso da
Parmalat, porém, é considerado ainda mais grave. Estima-se que as
dívidas da empresa, também em processo de falência, ultrapassem os 14
bilhões de euros e que ela tenha acobertado prejuízos da ordem de 400
milhões de euros anuais desde o início dos anos 90. Além disso, o
alcance mundial do grupo, com operações que vão do Brasil à China, deu
ainda mais visibilidade ao escândalo, que até agora resultou nas
prisões do fundador Calisto Tanzi e de dois de seus filhos - Stefano e
Francesca -, além de mais de uma dezena de ex-executivos do grupo.
Os italianos
são os investidores estrangeiros que compraram o maior volume de
papéis do governo argentino - cerca de 14 bilhões de euros - e lutam
para que o país melhore sua oferta de honrar só 25% do débito.
Aproximadamente 450 mil italianos possuem títulos argentinos, que até
às vésperas do calote eram vendidos pelos bancos locais como opções
seguras e de rentabilidade maior que papéis similares da Itália.
A essa
briga, soma-se agora a disputa para receber o dinheiro aplicado nas
duas maiores indústrias alimentícias do país. No caso da Parmalat, são
pelo menos 70 mil os poupadores italianos que detêm títulos da dívida
da empresa num total de cerca de 1,9 bilhão de euros. No sábado, um
grupo de investidores institucionais com 300 milhões de euros desses
papéis abriu processo em um tribunal de Roma para forçar o ministro da
Indústria, Antonio Marzano, e o interventor Enrico Bondi a ouvirem sua
posição antes da apresentação dos planos de reestruturação da empresa
e do débito que Bondi deve fazer até o fim deste mês.
Já no caso
da Cirio, são pelo menos 30 mil investidores italianos com cerca de
1,27 bilhão de euros em papéis da dívida da empresa.