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Cenas de uma folia à italiana

04/06/08

Lucas Van de Beuque

Cristiano Lima e Simone Spoladore aproveitam o clima de festa para criar uma atmosfera dionisíaca nas cenas de 'Dramática'

Poema escrito pelo cineasta Pier Paolo Pasolini durante visita ao Rio em 1970 inspirou a jovem diretora Ava Rocha a rodar curta-metragem em meio à multidão, no sábado de Carnaval

Alexandre Werneck

   Simone Spoladore está parada diante do bloco carnavalesco Cordão do Bola Preta, que desfilou pelas ruas do Centro do Rio sábado passado. De repente, depois de fechar seus grandes e expressivos olhos, respirar fundo e passar alguns segundos de concentração nos quais seu rosto alvo se torna uma máscara de tranqüilidade, a destoar da efervescência momesca do entorno, ela embrenha-se no meio do povo, acompanhada por... Pier Paolo Pasolini.

   A cena, claro, só é possível porque Pasolini, na verdade, é a câmera. É que o cineasta italiano, diretor de clássicos como Saló ou Os 120 dias de Sodoma e Teorema, assassinado em 1975, aos 53 anos, é o personagem central e inspirador do curta-metragem Dramática (título provisório), dirigido por Ava Rocha, filha de Glauber e irmã de Eryk Rocha.

   O filme une Pasolini e carnaval a partir da pouquíssimo conhecida história da visita que ele fez ao Rio de Janeiro, em 1970. A passagem anônima pelas ruas da cidade rendeu ao cineasta, que também era poeta, os versos de Hierarquia, um texto fortemente narrativo, publicado na Itália no livro Trasumanar e organizzar, de 1971. No poema, cheio de impressões sobre a cidade, várias delas críticas ao regime militar, o italiano chama o Brasil de sua ''terra natal''.

   - Estava escrevendo uma história sobre personagens que se encontram e se desencontram em uma cidade como o Rio de Janeiro quando, indo ao Pasolini para estudar seu cinema poético, deparei-me com o poema. Foi uma revelação - diz a diretora de 24 anos, explicando o laço entre o poema e o roteiro.

   O Jornal do Brasil acompanhou o primeiro dia das filmagens do curta, justamente o sábado de carnaval, em que a equipe aproveitou a passagem do Bola Preta para rodar as cenas em que os personagens se entregam à faceta mais dionisíaca do Rio. O grupo acabou se deparando com o maior desfile da história do bloco, com 70 mil pessoas seguindo o carro de som.

   O filme conta a história de quatro personagens, que se encontram no carnaval do Rio de Janeiro e mergulham em um dia de andanças e reflexões sobre o amor e a política, entre outros temas.

   A atriz Simone Spoladore, 24 anos, vive Poliana, uma estranha à cidade, que se encanta e se choca com seus mistérios. Ela é quem primeiro encontra Pasolini, ainda no aeroporto, e é por ele acompanhada. Simone - que há pouco tempo podia ser vista nas telas, em Desmundo, de Alain Fresnot, e se prepara para fazer Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, na versão cinematográfica feita pelo filho do dramaturgo, Jofre Rodrigues - diz que parte do seu interesse no projeto surgiu da juventude da diretora.

   - Eu queria conhecer esse pessoal que está começando agora em cinema. Ava e eu temos a mesma idade e acho que podemos aprender muito juntas. Além disso, é a minha primeira oportunidade de ser dirigida por uma mulher.

   Cristiano Lima, cria do grupo teatral Nós do Morro, vive Joaquim, o único dos personagens citados efetivamente no poema, um misto de prostituto, militante e apaixonado. Ele também se perde no meio do povo, observado pelo italiano.

   - Pasolini é um mistério para mim. Ele obriga você a olhar para o mundo de forma diferente, com um olhar crítico, político - diz o ator, que até hoje só viu dois filmes do cineasta, Saló e Decameron.

(© JB Online)


As descobertas de um casal na cidade onírica

   Os dois personagens de Dramática vivem uma história romântica, que chama a atenção para o encontro de diferenças já impressas nos atores. Ele, um carioca típico, cheio de ginga, pele escura, fala macia, tagarela; ela, com um rosto que lembra muito mais uma pintura de Boticelli do que um cartum de Lan, dançarina de balé, cheia de silêncios. Para a atriz curitibana, que teve na filmagem seu primeiro carnaval no Rio e a primeira experiência em um bloco, toda sua estrangeirice ajudou na criação dos dois personagens.

   - Trabalhamos nos ensaios para encontrar uma diferença que, na verdade, já existe. Ele é muito racional e, eu, intuitiva. No final, isso tudo acabou se misturando - explica Simone Spoladore, que diz ter adorado a experiência.

   O terceiro personagem de Dramática é interpretado pelo ator Godofredo Quincas. Trata-se de Godô, uma espécie de guerrilheiro cultural, um agitador político. É por conta dele que Poliana e Joaquim se encontram. As cenas de Godô não foram rodadas no sábado.

   O quarto personagem, claro, é Pasolini. Apesar da presença virtual do diretor, Dramática não é uma adaptação de seu poema.

   - Para mim importam as reflexões de Pasolini e não a tradução de seus versos. Quero retomar idéias, não reproduzir um olhar pasoliniano - diz Ava.

   A resposta soa até como um jogo de palavras, já que é o olhar do cineasta, e o que ele observa, o que justifica a produção do filme. Presença espiritual, o mais próximo de um ator que ele conhece em Dramática é mesmo Pedro Urano, o diretor de fotografia. Embora não tenha nenhuma fala, é um personagem de fato, em suas andanças com a câmera. Por vezes, ela é mesmo uma câmera subjetiva, aquela que dá ao espectador a impressão de ser os olhos de alguém. Em alguns momentos, vêem-se os pés do câmera, como se fossem os do próprio Pasolini andando; em outros, Poliana olha para a lente, dialogando com o cineasta com os olhos. Juntos, o casal depara-se com o Rio.

   Uma das opções estéticas mais fortes do filme foi fugir desse lugar-comum estético que é a câmera subjetiva.

   - Acho que seria até bobo, primário, fazer aquele efeito de rodar tudo em subjetiva. Pasolini é sempre a câmera, mas isso pode ser sutil, até porque, no filme, ele também se dissolve nos personagens. A Poliana, no fundo, é um pouco o Pasolini também, com seu olhar estrangeiro - diz Urano.

   Dramática é o primeiro filme de Ava Rocha. Para fazê-lo, foi necessário um esforço enorme, típico da novíssima geração. A câmera foi um empréstimo do cineasta inglês Brian Sewell. Parte do negativo - uma película nova, versão atualizada de um negativo tradicional de baixa sensibilidade - foi doada pela Kodak. Todos os equipamentos do filme foram emprestados por produtoras. Isso sem contar a equipe e os atores, que trabalharam - todos - de graça, seguindo o carnaval sem nenhuma cerimônia.

   Pois, no sábado, Poliana, Cristiano e Pasolini mergulharam de cabeça no bloco. A filmagem foi feita no meio da multidão, com os dois atores e a câmera transitando pela verdadeira multidão que se espremia nas ruas do Centro.

   - A idéia era que nós tivéssemos a experiência dos personagens, e que o público também a tivesse - explica Ava.

   Por isso, o que se vê são imagens bem de perto, que passam pela pele dos atores, pelos rostos do povo na rua, driblando-os, por vezes chocando-se, pedindo licença, interagindo.

   - O que me interessa fazer é um cinema poético, de fluxos, de deriva. Não quero fazer um cinema realista, mesmo que eu esteja tratando de questões da realidade - diz a diretora.

   Realismo, de fato, não parece ser a ordem do filme. O primeiro plano filmado de Poliana, em que ela parece perdida no meio do povão com uma expressão de quem acaba de chegar à lua, deixa isso bem claro. O mesmo em relação ao primeiríssimo plano filmado: Cristiano correndo pela Avenida Rio Branco. Em suas mãos, um pano vermelho, que ele agita como uma bandeira.

   - Tive que encontrar um outro tempo de interpretação, já que estava acostumado com um trabalho muito mais realista no teatro - diz o ator, que foi descoberto por Ava em suas apresentações da peça Burro sem rabo, no Teatro do Planetário.

   - Foi nosso grande desafio nos ensaios: fazer com que esse tom fantasioso e poético da interpretação ficasse verdadeiro - completa Simone.

   Verdade que Ava Rocha, depois do dia de filmagem, concluía ter sido alcançada:

   - O carnaval era importante por se tratar de uma situação de povo à flor da pele, desgarradora, agressiva para aqueles personagens. E isso nós conseguimos captar.

(© JB Online)


Trechos de 'Hierarquia'

Pier Paolo Pasolini, Rio de Janeiro, 1970

   "Se chego numa cidade Além do oceano Chego muitas vezes numa cidade nova, transportada pela dúvida. Convertido de um dia pro outro em peregrino De uma fé na qual não creio; representante de uma mercadoria há muito depreciada, mas é grande, sempre, uma estranha esperança - Desço do avião com o andar do culpado, O rabo entre as pernas, e uma necessidade eterna de mijar, Que me faz caminhar um tanto vergado com um sorriso incerto - Safar-se da alfândega e, muitas vezes, dos fotógrafos: administração de rotina que cada um trata como exceção. Depois o desconhecido. Quem passeia às quatro da tarde ao longo dos canteiros cheios de árvores e pelos bulevares de uma cidade desesperada onde europeus pobres vieram recriar um mundo à imagem e semelhança do deles, forçados pela pobreza a fazer de um exílio a vida? De olho no meu trabalho, nos meus deveres - Depois, nas horas vagas, Começa minha busca, como se também ela fosse uma culpa - A hierarquia está porém bem clara na minha cabeça. Não há oceano que resista. Dessa hierarquia os últimos são os velhos. Sim, os velhos, a cuja categoria começo a pertencer (...) Sim, existem alguns velhos intelectuais que na Hierarquia se colocam à altura dos michês mais bonitos os primeiros a serem encontrados nos lugares que a gente logo descobre (...) são dignos de figurar junto ao primeiro garoto do povo que se dá por mil cruzeiros em Copacabana ambos são o meu guia que segurando-me pela mão com delicadeza, a delicadeza do intelectual e a do operário (além do mais desempregado) a descoberta da invariabilidade da vida requer inteligência e amor Vista do hotel da rua Resende Rio - A ascese precisa do sexo, do caralho - Aquela portinhola do hotel onde se paga o cubículo - se olha o Rio por dentro, numa aparência da eternidade, (...)Brasil, minha terra, Terra dos meus verdadeiros amigos, Que não se ocupam de nada Ou se tornam subversivos e como santos ficam cegos..."

(© JB Online)

Para saber mais sobre este assunto (arquivo ItaliaOggi):

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