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Barroco de verdade

04/06/08

No sentido horário: Gian Lorenzo Bernini, Nudo accademico; Giovanni Battista Gaulli, La Giustizia; Luca Giordano, Bozzetto della visione di S. Idelfonso di Toledo e Diego Velázquez, Ritratto della Regina Marianna d'Austria

Para entender o sentido, hoje desvirtuado, da palavra, uma exposição mostra a força de Bernini, Velásquez e Luca Giordano

Por Elisa Byington

   Imprevisível destino o da palavra barroco. Nasceu na língua portuguesa para designar a pérola irregular, doente e deformada. Mas passou a ser usada na França do século XVIII para marcar distância e exprimir desprezo em relação a um passado próximo, caracterizado por uma linguagem artística de formas exageradas, excessivas, irracionais, apelativas. Parece ter sido entre os joalheiros franceses que o substantivo virou adjetivo e passou a designar fenômenos artísticos: primeiro, no campo da música, depois, na arquitetura e, finalmente, nas artes visuais.

   Inicialmente, não era considerado um estilo, mas somente uma degeneração da arte renascentista. Mas o termo pejorativo fez sucesso e cresceu de maneira incontida, alargando seu domínio semântico e envolvendo as coisas mais disparatadas, para além dos confins de tempo e espaço. Aos poucos, foi transformando seu significado e com freqüência conseguiu mudá-lo de negativo em positivo.

   No Brasil dos anos recentes, virou símbolo da nossa híbrida identidade cultural, uma espécie de síntese distintiva das nossas qualidades mestiças, quase sinônimo de carnaval e do nosso gosto pela festa, pelo exagero, pelo efêmero.

   Mas o barroco propriamente dito, enquanto existiu, não era barroco. A sua linguagem artística havia surgido em Roma nas primeiras décadas do século XVII por meio das criações de artistas como Bernini, Borromini, Algardi, Lanfranco e Pietro da Cortona, e os estrangeiros Rubens e Velásquez, que estudavam e trabalhavam na Itália. O ilusionismo e a teatralidade das novas formas eram alimentados pelo ambiente otimista da Igreja triunfante nos embates da Contra-Reforma.

    A nova estética visava, acima de tudo, a maravilhar e a envolver o espectador. E, assim, não obstante a grande admiração pela arte clássica, os artistas ousaram ultrapassar a medida tradicional, com formas sinuosas e gestos largos no intuito de integrar o espectador, forçá-lo a uma participação emotiva na contemplação das imagens representadas.

   As artes uniam esforços e quase se fundiam em uma só visando a aumentar o ilusionismo de suas criações e materializavam em imagens os mistérios da fé. A arquitetura se arqueava em formas envolventes, as estátuas de mármore pareciam vivas, macias, o estuque parecia nuvem, a pintura parecia feita de seda e veludos. A essas composições Bernini dava o nome de bel composto. E nas capelas projetadas por ele podia-se assistir a uma santa em êxtase como em um teatro, na cena iluminada por uma fonte de luz invisível ao público, efeito que aumentava a sensação de sobrenatural.

   Para nós, brasileiros, foi a linguagem da colonização e da catequese: envolvente e eficaz no seu proselitismo.

   A exposição que acaba de ser inaugurada em Roma com o título Velásquez, Bernini, Luca Giordano. As Cortes do Barroco aborda o período final do barroco europeu, que coincide com sua máxima expansão. É o período marcado pelo papado de Inocêncio X (1645-55) e Alessandro VII (1655-67), pelas cortes dos Habsburgo em Madri e Viena de Felipe IV (1650-65) e Carlos II (1665-1700), e pela corte de Luís XIV em Versalhes (1643-1715), considerada modelo paradigmático.

   “Ainda que os grandes artistas do barroco tenham vivido na primeira metade do século, foi na segunda metade que se consolidou sua linguagem artística nas várias interpretações e desdobramentos”, diz Francesco Checa Cremades, curador da mostra.

   As cortes barrocas formam um mundo uniforme e plural ao mesmo tempo – diz Cremades. A intenção da exposição é identificar as características comuns da linguagem figurativa da “sociedade cortesã”, por meio do confronto da pluralidade de soluções adotadas pelos diferentes ambientes. Este é um momento crucial na consolidação da linguagem que seria adotada pelo Estado Moderno.

   Trata-se de uma ocasião de viagens, em que a corte, os artistas e as obras de arte viajam de um lado para o outro. Velásquez vem a Roma e faz o retrato de Inocêncio X em 1650, Bernini vai a Paris em 1665 a chamado do Rei-Sol, Luca Giordano, pintor napolitano, vai trabalhar em Madri depois de ter servido os Médici em Florença. Padre Pozzo, o jesuíta matemático responsável pelas vertiginosas perspectivas no teto da Igreja de Santo Inácio, em Roma, vai para a corte de Viena. É um momento particular, em que a elaboração da linguagem do poder passa através das artes.

   A questão da organização da Academia Francesa, em colaboração com a Academia de Roma, ocupa pessoalmente Colbert e Luís XIV. Este último, segundo testemunhas, teria se dirigido aos membros da sua Petite Academie com as seguintes palavras: “Eu vos confio o que tenho de mais precioso no mundo: a minha glória”.

   Ainda que tenham sido inventados no Renascimento, data dessa época a grande difusão dos retratos dos soberanos, que passam a ornar os ambientes mais diferentes, e o apogeu de gêneros como os bustos e as estátuas eqüestres, assim como das medalhas comemorativas, das tapeçarias e das gravuras como maneira de divulgar o fasto das comemorações de corte. É moda colecionar e as obras de arte são oferecidas como presentes diplomáticos nas muitas viagens que caracterizam o período. Todos elementos da linguagem que até hoje identifica os rituais do poder.
A iniciativa da exposição partiu dos espanhóis e sua primeira edição foi feita no Palácio Real, em Madri. A montagem romana, de grande sobriedade e beleza, acabou ficando muito diferente. Sobretudo devido ao acréscimo de algumas peças extraordinárias de Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), exibidas pela primeira vez ao público internacional. A seção dedicada ao artista mais longevo e genial do barroco procurou mostrar que, apesar do lado exterior, a arte de Bernini nascia de um sentimento religioso profundamente interiorizado; que sua obra serviu às necessidades propagandísticas do papado, mas não se confundiu com esta, como diz no catálogo Claudio Strinati.

   Exposta pela primeira vez, a estátua do Cristo Salvador, sua última obra, deixada por Bernini em herança para a rainha Cristina da Suécia, mecenas e amiga do artista, que a deixou ao papa Inocêncio XI, depois da própria morte. Trata-se de uma montanha de mármore de potência impressionante, esculpida por Bernini aos 80 anos, só recentemente identificada em um corredor da Igreja de São Sebastião fuori mura, em Roma. Dessa obra derradeira eram conhecidos os desenhos preparatórios, as medidas e as características do pedestal, dados que tornam inequívoca a atual descoberta.

   Além do Salvador, a seção traz outras imagens cristológicas distantes do triunfalismo da doutrina oficial. Quadros feitos para devoção pessoal do artista – Bernini era escultor e arquiteto, mas sempre pintou para si próprio –, com Cristo solitário e humano, onde fica também evidente sua meditação sobre as luzes e as sombras do Caravaggio.

   Outra preciosidade em exibição é o modelo em argila com folhas de ouro da célebre Fontana dei Fiumi, monumental chafariz com a alegoria dos quatro rios da terra, que ocupa o centro da Piazza Navona, em Roma. A espetacular realização berniniana, coroada por um obelisco, verdadeiro emblema do barroco, pode ser apreciada em todas as nuances pensadas por seu criador, na miniatura de pouco mais de 1 metro, provavelmente a mesma submetida pelo artista ao papa Inocêncio X, em 1648. O pontífice, que nutria pouca simpatia pelo artista preferido de seu antecessor, teria dito ao aprová-la: “Quem não quer construir obras de Bernini é melhor não vê-las”.

   No modelo, a realização das várias esculturas é completamente diferente do monumento de pedra que se vê na Piazza Navona. Nele, a imagem do tatu que identifica as terras brasileiras, sob o imberbe rio da Prata que derrama moedas, é minuciosamente descrita. Nada a ver com a transfiguração monstruosa da tradução final, realizada por um escultor menor.

(© Carta Capital)

Velázquez, Bernini, Luca Giordano. Le Corti del Barocco. A Roma fino al 2/05/2004
 

   La vita di corte esercita sempre un certo fascino e aver modo di affacciarsi nelle sontuose dimore che furono di papi e imperatori è innegabilmente un piacevolissimo tuffo nel passato.
L'occasione viene offerta a Roma dalla mostra Velázquez, Bernini, Luca Giordano. Le Corti del Barocco. Vi si raccontano le caratteristiche comuni del linguaggio figurativo della "società cortigiana" nell'Europa della seconda metà del Seicento in alcuni ambienti scelti come rappresentativi di quest'epoca: la Roma papale di Innocenzo X (1644-1665) e Alessandro VII (1655-1667), le corti asburgiche di Madrid e Vienna con Filippo IV (1650-1665) e Carlo II (1661-1700), la corte di Luigi XIV (1643-1715) a Versailles.

   Alla creazione e alla diffusione di uno stile, di un linguaggio comune tra le corti europee, contribuirono - come la mostra documenta con ricchezza - i viaggi degli artisti di corte, il gusto per il collezionismo dei grandi personaggi, le donazione di opere d'arte a fini diplomatici, i grandi arazzi celebrativi e, in generale, la comune passione per l'arte.

   Il percorso espositivo comprende oltre 170 opere provenienti da 77 enti prestatori tra musei italiani ed esteri e collezioni pubbliche e private. Filo conduttore dell'esposizione sono i celebrati artisti di corte - con le opere di Velázquez, di Bernini e di Luca Giordano oltre che di Maratta, Baciccio, padre Pozzo e di grandi artisti spagnoli come Juan Carreno de Miranda e Bautista Martinez del Mazo, per citarne solo alcuni. In mostra veri capolavori - la maggior parte dei quali mai esposti a Roma - che andavano a costituire, nel loro insieme, il grande e complesso sistema decorativo dei palazzi del potere barocco di cui si hanno modo di vedere non solo i quadri e le sculture, ma anche le acqueforti, le medaglie e i ritratti equestri, le incisioni, i disegni relativi alle feste e alle celebrazioni pubbliche, i famosi arazzi delle Manifactures des Gobelins e celebri pezzi d'arredo.

   Particolarmente sorprendente è la sezione dedicata alla Corte Pontificia, integrata, rispetto al progetto originale, dal professor Claudio Strinati - Soprintendente Speciale per il Polo Museale di Roma - con la collaborazione dell'architetto Francesco Petrucci, Conservatore del Palazzo Chigi in Ariccia. La mostra dedica, infatti, una sezione specifica all'opera multiforme dell'ultimo Bernini, artista fondamentalmente pubblico, legato alla corte di papa Innocenzo X e alla produzione di opere urbanistiche di carattere scenografico, ma, allo stesso tempo, con una forte vena intimista qui messa a fuoco attraverso una serie di lavori - quasi del tutto sconosciuti - di carattere profondamente spirituale.

   Accanto ai tre bozzetti in terracotta e ad un olio su carta quali studi preliminari alla realizzazione della Fontana dei Fiumi di Piazza Navona, si avrà modo di confrontare alcune delle più belle produzioni a carattere religioso dell'artista: il Christo Ligato, mai esposto, due sorprendenti tele rappresentanti il Christus Patiens e il Cristo Deposto, il bellissimo Crocifisso dell'Escurial e il bronzo, inedito anch'esso, del Cristo morto coronato di spine, oltre ai due busti del Salvatore conservati rispettivamente nella cattedrale di Sées (Francia) e nel convento di San Sebastiano Fuori le Mura a Roma, quest'ultimo solo recentemente attribuito e riconosciuto come ultima opera dell'artista ormai ottantenne.  

A cura di Fernando Checa Cremades
Scuderie del Quirinale, via XXIV maggio 16, Roma
Dal 13 febbraio al 2 maggio 2004
ORARIO: da domenica a giovedì 10.00-20.00; venerdì e sabato 10.00-22.30 (l'ingresso è consentito fino a un'ora prima dell'orario di chiusura)
INGRESSO: intero € 9,00, ridotto € 6,00
riduzioni e visite guidate per gruppi e scolaresche con prenotazione obbligatoria
SERVIZI: libreria, caffetteria, guardaroba, laboratorio d'arte
audioguida in italiano e in inglese (singola € 4,00; doppia € 6,00); visite guidate individuali in italiano sabato e domenica (10.30/12.00/16.30/18.00 euro 4,00); visite guidate su prenotazione obbligatoria per gruppi e scolaresche
INFORMAZIONI: tel. 06.696270
www.scuderiequirinale.it
per prenotazioni, visite guidate e laboratorio d'arte tel. 06 39967500;
www.pierreci.it
Per approfondimenti sull'attività del laboratorio d'arte:
didattica@scuderiequirinale.it
CATALOGO: Skira

(© ONART.it)

 

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