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04/06/08
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Gianni Vattimo |
O filósofo italiano destaca o papel decisivo da
interpretação e defende que a política precisa recuperar a comunicação
direta, sem a mediação da TV
José Andrés Rojo
do "El País"
Gianni Vattimo (Turim, 1936)
reconhece que passou por todas as militâncias a que sua geração foi
chamada durante a segunda metade do século passado. Entrou no mundo da
política a partir de suas convicções católicas e foi assumindo posições
cada vez mais à esquerda, cada vez mais contestadoras. Depois fez o
caminho de volta, com uma reaproximação e uma releitura do cristianismo.
Um de seus trabalhos atuais é
o de eurodeputado pela Esquerda Republicana da Itália, mas continua
dedicado sobretudo a seus livros e suas conferências e ao ofício de
filosofar. Um ofício complicado nestes tempos em que os grandes sistemas
foram por água abaixo, mas seu ponto de partida foi justamente esse:
reivindicar o pensamento fraco, uma atitude filosófica atenta aos
diversos interesses em jogo e às variadíssimas interpretações das
coisas, para fugir dos conceitos unívocos que pretendem dar conta de
tudo.
"Não existe uma única maneira
de descrever os fatos objetivamente", comenta Vattimo, que também diz
que "a verdade das coisas depende do lugar que se ocupa na interpretação
dos eventos".
Autor de livros como "Para
Além do Sujeito" [Tempo Brasileiro] e "O Fim da Modernidade" [Martins
Fontes], Vattimo considera que, ao rebaixar as pretensões dos discursos
que acreditam numa verdade absoluta, o que faz é destacar a importância
da democracia, um sistema político baseado no confronto de diversas
alternativas, cada uma delas com sua verdade correspondente.
As mentiras dos políticos e a verdade da filosofia. Os primeiros
mentem sobre as armas de destruição em massa, que deveriam ter sido
encontradas no Iraque, o pensamento filosófico diz "adeus à verdade",
como o senhor diz. Não é um panorama muito animador.
Fiquei escandalizado com todas essas mentiras que ouvimos sobre as
armas de destruição em massa, mas elas também me fizeram refletir sobre
a questão da verdade. Num dado momento, percebi que podia estar sendo
hipócrita, que só me escandalizava porque compartilhava o repúdio da
guerra com uma grande maioria. Talvez minha atitude fosse diferente se
essas mentiras tivessem contribuído com uma boa causa. Distribuir
medicamentos contra a Aids na África, por exemplo.
Quer dizer, então, que, dependendo dos fins, algumas mentiras são
piores que outras.
O que quero dizer é que não existe uma única maneira de descrever os
fatos objetivamente e que, para aproximar-se deles, pode-se fazer uso de
muitos pontos de vista.
Parece que o sr. quer jogar a toalha.
Ao contrário. Apenas quero explicar que não existe uma verdade
objetiva que reflita a realidade em seu todo. George W. Bush e Tony
Blair não nos disseram toda a verdade; a que nos contaram é a deles. A
interpretação deles. A verdade tem mais a ver com o lugar que se ocupa
na trama social do que com uma descrição exata dos fatos.
Então a verdade que se impõe é a do mais forte.
Nos sistemas totalitários, sem dúvida. Mas nas democracias é
diferente. Nesse sentido, não existe uma verdade inquestionável,
objetiva. Por exemplo, o argumento que proclama a economia de mercado
como a melhor, a única verdadeira, já não tem validade. Não passa de uma
opção entre tantas e, como todas, discutível. Dizemos que uma coisa é
verdadeira porque partimos de premissas que nos levam a defender que
isso é assim. É o que Heidegger chamava de "abertura" ao mundo, o lugar
de onde se vêem as coisas e que condiciona as diversas interpretações.
Se a verdade não existe de maneira objetiva, ela depende de quem é
mais convincente. Nos tempos que correm, quem tem mais capacidade de
convencimento é, sem dúvida, quem mais dispõe de meios de comunicação. É
o caso de Silvio Berlusconi [premiê italiano].
Churchill dizia que a democracia é o menos ruim dos sistemas
políticos. O único remédio, portanto, é lutar democraticamente para
melhorar a democracia. Na Itália, lutou-se para limitar a propriedade
das empresas de comunicação por meio da lei de conflito de interesses.
Mas a iniciativa fracassou. Agora, será que Berlusconi conseguiu sua
maioria graças à capacidade de controlar a mídia? Não acredito. Vivemos
num momento em que ninguém mais é proletário, todos somos de classe
média. E não há capacidade de mobilização, apenas conformismo.
Como o sr. vê a situação atual, com o mundo atolado no pós-guerra do
Iraque?
A idéia de impor a democracia com a linguagem das bombas é um sonho
autoritário que só foi possível realizar num mundo em que impera uma
única superpotência. Pode parecer paradoxal, mas durante a Guerra Fria
vivíamos num cenário muito mais seguro. O custo disso era muito alto,
com a falta de liberdade nas sociedades comunistas. A chegada da
democracia a esses países, porém, não significou grande coisa. Deixaram
de viver sob um regime autoritário para depender de um monte de máfias.
Hoje não há tantas prisões, mas há mais fome. Com uma única
superpotência, basta contar com uma polícia poderosa para resolver os
problemas.
Quais seriam, então, os desafios mais relevantes num futuro imediato?
O único caminho sensato é desenvolver um mundo multipolar, com vários
poderes fortes que se equilibrem mutuamente. Um mundo em que não exista
apenas o domínio absoluto dos EUA. Europa e China, por exemplo. Há, além
disso, outro elemento que compromete a paz internacional -o terrorismo.
Quando há apenas um centro de poder, o único modo de fazer frente a seus
abusos é a luta niilista dos camicases. Enquanto houver uma única
superpotência, a ordem que se impõe é uma ordem policial.
Como combater um regime muito forte renunciando à violência?
É preciso buscar novas fórmulas para contrapor-se aos poderes atuais.
A sociedade, além disso, está desmobilizada. O próprio instrumento da
greve já é um anacronismo. Aqui voltamos àquilo que dissemos há pouco,
sobre o conformismo de uma ampla classe média, que não olha além de seus
interesses mais imediatos. E ao domínio da televisão. Precisamos ter
mais imaginação.
Imaginação e meios. Sem que se saiba o que acontece, não se age.
Antes a política era feita de casa em casa, distribuindo-se
panfletos, e não nos espaços privilegiados da TV. Há uma anedota de um
livro de ficção científica, acho que "A Guerra dos Mundos" [de H.G.
Wells], que é muito pertinente: no fim, levava a melhor quem ainda sabia
fazer contas de cabeça. Quem não necessitava de nenhum artefato. No
momento político atual, é imprescindível recuperar a comunicação direta,
pois os meios estão corrompidos. É preciso ir de casa em casa e, se
possível, com a imaginação, o entusiasmo e a liberdade dos velhos
anarquistas. (Tradução de
Sergio Molina)
(©
Folha de S. Paulo)
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