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A grande viagem da cultura

04/06/08

E La Nave Va, de Federico Fellini

Lançado em DVD pela Versátil Home Video, E La Nave Va, filme que leva ao extremo os fundamentos do cinema de Federico Fellini, traça uma genial alegoria da alta cultura e do ocaso de uma civilização

Felipe Araújo
Da Redação

   Poucas vezes Federico Fellini esteve tão em evidência nos cinemas e, principalmente, nas estantes das locadoras. Desde 2002, uma série de lançamentos em DVD e exibições de cópias restauradas vem celebrando os dez anos de morte do diretor - falecido em 1993. Quanto à telona, vários de seus filmes entraram em cartaz pelo País, incluindo Casanova de Fellini, que está reestreando em São Paulo; e o tão esperado I Clowns, que nunca havia sido exibido em nossos cinemas e percorreu parte do circuito comercial brasileiro entre o final de 2002 e meados de 2003.

   Quanto aos DVDs, houve os dois volumes da Coleção Fellini, que reuniu em duas caixas obrigatórias para os cinéfilos pérolas como Ensaio de Orquestra, As Noites de Cabíria, A Estrada da Vida, Abismo de um Sonho e Julieta dos Espíritos. Outros clássicos como Amarcord, A Doce Vida e Oito e Meio também ganharam edições digitais individuais, todas elas lançadas pela Versátil Home Video. Mas dos títulos que formam a filmografia básica do gênio de Rimini, faltava E La Nave Va (1983), considerado a última grande obra de Fellini. Não falta mais.

   Também pela Versátil, o trabalho que rendeu a Federico quatro prêmios Donatello (um dos mais importantes do cinema italiano) acaba de chegar às lojas e locadoras no formato de DVD. No disco, o filme vem em widescreen, com o idioma italiano (em vídeo, ele havia sido lançado por aqui na versão francesa) e acompanhado de muitos extras, como depoimentos do diretor, galeria de fotos e um texto sobre o cinema de Fellini, que, a despeito de sua popularidade, nunca foi uma unanimidade entre os críticos. Boa parte deles, aliás, costuma implicar (injustamente) com seus últimos trabalhos - especialmente Ginger e Fred e A Voz da Lua - e, por isso, costumam apontar E La Nave Va como a última fronteira de excelência na trajetória do cineasta. Mas o filme é bem mais que isso.

   Se Amarcord é, ao mesmo tempo, a obra-prima e o resumo fundamental do cinema felliniano, E La Nave Va leva a(s) fórmula(s) do mestre italiano ao paroxismo. Ao contar a história tragicômica do transatlântico Gloria N, que, às vésperas da primeira guerra mundial, conduz de volta à sua terra natal os restos mortais da maior cantora lírica do mundo, Fellini se utiliza - mais do que em qualquer outro filme - dos principais pressupostos de sua arte: a progressão dramática baseada na identificação do espectador com seus personagens, a produção de signos a partir da reflexão sobre a relação entre vida e espetáculo e, principalmente, o olhar simpático a pessoas e universos decadentes.

   Em I Clowns, o foco era o ocaso do mundo circense - pelo menos o mundo circense tal como Fellini conhecera em sua infância. Em Amarcord, eram as memórias da vida interiorana e prosaica de sua cidade natal que fermentavam a crônica cinematográfica. A vida melancólica e solitária do high society da Roma dos anos 50 foi o tema de A Doce Vida. Já em E La Nave Va, Fellini volta seu olhar para a débacle da chamada alta cultura. Tanto para os caprichos e obtusidades de seus protagonistas (no caso, uma risível fauna formada por cantores líricos, maestros, empresários, aristocratas e nobres) quanto para o decadentismo de um padrão de civilização que seria enterrado pela guerra.

   Primeiro filme sem a parceria com Nino Rota, responsável por boa parte da magia da maioria dos trabalhos do diretor, E La Nave Va tem a trilha sonora assinada por Luis Bacalov. E é justamente ao som de um trecho de uma peça de Tchaicovsky que Fellini cria uma de suas cenas mais famosas: o pequeno concerto na cozinha do navio, em que alguns maestros usam copos de cristal como instrumento. Inesquecível! Mas há outros momentos e personagens célebres, como o desafio entre os cantores à beira da caldeira do navio, todos ostentando seus graves e agudos diante de um público formado pelos funcionários banhados de suor e carvão. Ou o drama do rinoceronte apaixonado e doente de amor. Ou ainda a conspiração envolvendo o arquiduque de sexo indefinido e sua irmã cega.

   Há, enfim, todo um microcosmo de picuinhas e sentimentos caricaturados que, com a chegada de um grupo de refugiados sérvios ao navio, vai culminar na alegoria felliniana de um mundo em derrocada. Ao final do filme, a lente de Fellini evita o cenário e se volta contra o estúdio, escancarando aquele limite entre vida real e fantasia tão característico de suas produções. Ao ultrapassar essa fronteira, Fellini não voltou, de fato, como quer parte da crítica, a produzir obras tão geniais quanto Amarcord ou o próprio E La Nave Va. Em compensação, não transigiu em seu projeto de realizar um cinema tão fantástico quanto profundamente humano.

   Afinal, como mostra a saga tresloucada de E La Nave Va, se a cultura e o amor não podem salvar o ser humano da barbárie, servem pelo menos para tocar o nosso barco adiante.

Serviço:
E La Nave Va, de Federico Fellini. Itália, 1983. 128 minutos. Lançamento em DVD Versátil Home Vídeo. Preço Médio: R$37,50.

(© NoOlhar.com.br)

Visite o site da Fondazione Federico Fellini

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