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04/06/08
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Eleonora Duse
retratada por M. Gordigiani (1830-1909) |
Capital européia da cultura encena memórias da
imigração na América
MÁRVIO DOS ANJOS
DA REDAÇÃO
Gênova é a partida. O Brasil,
um dos destinos. No ano em que a cidade portuária italiana vive seu
mandato de capital européia da cultura, a imigração é tema, e o país
surge como um lugar que inspirou sonhos e tragédias num espetáculo
teatral.
Em 1904, um transatlântico sai
do porto genovês levando pela segunda vez ao Brasil a atriz Eleonora
Duse (1858-1924), àquela altura plenamente realizada.
Na terceiríssima classe,
porém, embarcam tragédias pessoais de gente que tenta começar tudo de
novo, sonhando com um Eldorado "onde até a água do mar é boa para
beber".
Assim é "Partenze"
("Partidas"), peça escrita pelas italianas Alessandra Vannucci e Laura
Sicignano, que a cia. italiana Teatro Cargo montará de 8 a 31 de julho,
dentro da programação da capital européia da cultura de 2004.
No espetáculo são contadas
histórias de imigrações dos séculos 19 e 20, catalisadas pela viagem da
"divina" Duse em 1904, segundo Alessandra Vannucci, 33, em entrevista à
Folha, por telefone, de Natal, onde passa férias.
"A figura de Duse se tornou
interessante para nós; sabe-se que ela está no navio, embora ninguém a
veja durante o espetáculo. Ela funciona como uma alegoria da América:
mítica, misteriosa, inacessível", diz Vannucci.
O cerne da peça não está na
história, mas nas histórias; costuradas cartas de imigrantes que foram a
países como Brasil, Argentina, Estados Unidos, Canadá etc.
"Pesquisamos por um ano no
Arquivo da Memória Popular, em parceria com a Universidade de Gênova, e
encontramos cartas vindas de vários países. Há muito material originário
do Brasil", diz a dramaturga. "No século 19, o país era para os
imigrantes a terra das riquezas proverbiais, o que os Estados Unidos só
se tornariam no século 20. Além disso, o Brasil foi precoce ao receber
imigrantes italianos, pois já financiava a viagem deles em 1830."
Hoje são conhecidas as
histórias de sucesso, mas a frustração era constante. Vannucci recorda a
história de um vêneto chamado Bartolo, que partiu para o Brasil com a
mulher e oito filhos e surge em carta próxima a 1860.
"Durante a viagem, ele perdeu
cinco das crianças, e escreveu ao patrão pedindo-lhe por favor que o
acolhesse de volta", afirma a dramaturga. "Nessas cartas, o que há
muitas vezes em cada partida é uma sensação de "despartida". O sujeito
abandona a terra, mas a lembrança dela é tudo o que ele tem. Muitos
acabam carregando consigo essa nostalgia, o que os faz reconstruir a
terra em outro lugar, como se vê nas colônias italianas no Sul do
Brasil."
"Tu-per-tu"
Para recriar a atmosfera da
terceira classe do transatlântico, o espetáculo é montado num espaço
industrial desativado num píer de Porto Petroli, sem cadeiras. Os
espectadores chegam de barco ao local e são obrigados a "embarcar" e
interagir com os atores.
Segundo Vannucci, as histórias
dos personagens são apresentadas em "tu-per-tu"; literalmente,
cara-a-cara. Em torno de cada ator, formam-se pequenos núcleos
simultâneos, de um a quatro espectadores.
"Há cenas em que o ator dita
uma carta para o espectador escrever, porque os personagens são na
maioria analfabetos ou falam em seus dialetos particulares, às vezes
incompreensíveis."
Na metade que lhe cabe de
"Partenze", Vannucci reconhece a influência de experiências teatrais que
teve no Brasil, onde também trabalha com teatro há sete anos -formada em
dramaturgia pela Universidade de Bolonha, fez mestrado em direção
teatral na Uni-Rio e participou de montagens nacionais de Giordano Bruno
e Dario Fo.
"Essa técnica do "tu-per-tu" é
algo que venho desenvolvendo porque me interessa essa dramaturgia que
aproxima o público e que tem a ver com a forma de atuar do ator
brasileiro, mais expansiva."
E esses laços com o Brasil
devem se estreitar ainda mais; a dramaturga acena com um possível
"embarque" de "Partenze" rumo ao Rio de Janeiro. "Nós já temos o apoio
do Instituto Italiano de Cultura do Rio, o que nos dá a expectativa de
encenar a peça lá no primeiro semestre de 2005", afirma.
(©
Folha de S. Paulo)
Alegoria do Brasil encenada na Itália
SÃO
PAULO - Gênova é a partida. O Brasil, um dos destinos. No ano em que a
cidade portuária italiana vive seu mandato de capital européia da
cultura, a imigração é tema, e o País surge como um lugar que inspirou
sonhos e tragédias num espetáculo teatral. Em 1904, um transatlântico
sai do porto genovês levando pela segunda vez ao Brasil a atriz Eleonora
Duse (1858-1924), àquela altura plenamente realizada. Na terceiríssima
classe, porém, embarcam tragédias pessoais de gente que tenta começar
tudo de novo, em sonhando com um Eldorado "onde até a água do mar é boa
para beber".
Assim é Partenze (Partidas), peça
escrita pelas italianas Alessandra Vannucci e Laura Sicignano, que a
cia. italiana Teatro Cargo montará de 8 a 31 de julho, dentro da
programação da capital européia da cultura de 2004.
No espetáculo são contadas histórias de
imigrações dos séculos 19 e 20, catalisadas pela viagem da divina Duse
em 1904. O cerne da peça não está na história, mas nas histórias;
costurada cartas de imigrantes que foram a países como Brasil,
Argentina, Estados Unidos, Canadá etc.
"No século 19, o país era para os
imigrantes a terra das riquezas proverbiais, o que os Estados Unidos só
se tornariam no século 20. Além disso, o Brasil foi precoce ao receber
imigrantes italianos, pois já financiava a viagem deles em 1830",
explica Alessandra Vannucci.
Para recriar a atmosfera da terceira
classe do transatlântico, o espetáculo é montado num espaço industrial
desativado num píer de Porto Petroli, sem cadeiras. Os espectadores
chegam de barco ao local e são obrigados a embarcar e interagir com os
atores. Segundo Vannucci, as histórias dos personagens são apresentadas
em tu-per-tu; literalmente, cara-a-cara. Em torno de cada ator,
formam-se pequenos núcleos simultâneos, de um a quatro espectadores.
(©
Pernambuco.com)
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