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04/06/08
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O escritor Antonio Tabucchi |
Italiano comenta a passagem do tempo e faz referência
a Proust em "Está Ficando Tarde Demais"
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Que livro resulta da mente de
um escritor quando ela está ocupada em pensar nos seguintes assuntos: o
suicídio por intoxicação com gás do grande contista iraniano da primeira
metade do século 20, Sadeq Hedayat, os estudos do cientista italiano
Andréa Cisalpino sobre a circulação do sangue no corpo humano, a função
do neurotransmissor serotonina na psique das pessoas, o limite da
suportabilidade da dor e a lembrança de antigas amigas?
No caso de Antonio Tabucchi,
uma coleção de cartas fictícias masculinas dirigidas a mulheres com o
relato de experiências espirituais e emocionadas no passado e no
presente. "Está Ficando Tarde Demais", escrito entre 1995 e 2001 e agora
publicado no Brasil, é mais uma pérola delicada e valiosa que se soma ao
conjunto do trabalho desse autor de 61 anos que é um dos mais complexos
e importantes de sua geração.
Os pequenos contos epistolares
desse volume não relatam necessariamente uma história. Tabucchi é
escritor da espécie de Proust e Musil, em que o enredo funciona apenas
como um acessório para a discussão de idéias importantes sobre a
condição humana. Existe uma trama, é verdade, mas ela apenas sustenta
uma discussão filosófica entre autor e leitor.
O tema da passagem do tempo
está presente em vários dos capítulos do livro, como indica o próprio
título. Há referências explícitas e reverenciais a Proust aqui e ali. Os
truques e artimanhas da memória são comentados com sutileza,
profundidade e contida emoção: "...o passado, ele também, é feito de
momentos, e cada momento é como um minúsculo grãozinho que escapa.
Retê-lo, em si e por si, seria fácil, mas juntá-lo aos demais é
impossível. Em suma: lógica nenhuma".
Tabucchi é cidadão da Itália,
mas tem uma ligação muito íntima com a língua portuguesa, na qual já
escreveu alguns de seus livros. O mais famoso de todos (porque nele se
baseou o último filme da vida de Marcello Mastroianni), "Afirma
Pereira", é ambientado em Lisboa.
"Aquela imagem tocou a memória
de um Eu tão distante no tempo (e portanto tão distante de Mim que
olhava para a fotografia) que me levou a considerar a possibilidade de
atribuir a memória daquela imagem a um Mim que de mim fosse só aparência
ou ectoplasma perdido no tempo. Enfim, praticamente um desconhecido que
escrevia uma carta."
Assim são as cartas de "Está
Ficando Tarde Demais". São como relatos de alguém que já não é,
despertado por algum elemento deflagrador da memória autêntica. Trata-se
de uma revisita e de uma ampliação dos conceitos básicos de "Em Busca do
Tempo Perdido". Além das madeleines, há outros estopins para o que
Proust considerava a vivência espiritualmente mais elevada, que nos
transporta a "só uma concentração na recordação mais escondida, aquela
que nos fez feliz no passado e que gostaríamos que fosse a nossa vida
futura, admitindo que ela exista, só aquele ponto ali nada mais".
Carlos Eduardo Lins da Silva, 51, jornalista, é
diretor da Patri Relações Governamentais e Políticas Públicas Está
Ficando Tarde Demais
Autor: Antonio Tabucchi
Editora: Rocco
Quanto: R$ 27,50 (196 págs.)
(© Folha de S.
Paulo)
Saiba mais sobre Antonio Tabucchi
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