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04/06/08
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Gianni Ratto
-"Hipocritando"
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"Teatro de Arena", de Izaías Almada, e "Hipocritando",
de Gianni Ratto, recuperam em forma de depoimentos a dramaturgia moderna
no Brasil
Sílvia Fernandes
especial para a Folha
Vistos sob certo ângulo,
"Hipocritando", de Gianni Ratto, e "Teatro de Arena", de Izaías Almada,
são depoimentos sobre o teatro moderno. No caso de Almada, o testemunho
de época é literal, pois o ator recorre à narrativa e à memória de
alguns parceiros do Arena para recuperar, via história oral, o cotidiano
da companhia que revolucionou o teatro paulista em 1958, com "Eles Não
Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri.
A estréia marca o período de
inflexão rumo ao nacionalismo e o impulso para o drama urbano e
proletário do Seminário de Dramaturgia, que o autor do livro não
acompanha de perto. É convidado para uma substituição em "Arena Conta
Zumbi", de Boal e Guarnieri, em 1965, e permanece no grupo até 1969, a
tempo de participar da montagem de "O Inspetor Geral", de Gogól, em
1966, e reorganizar, pouco antes da prisão política, as experiências do
Núcleo 2. A natureza combativa de sua atuação é suficiente para
justificar a retomada de um tema tratado por historiadores como Sábato
Magaldi e Maria Thereza Vargas, participantes do seminário, que Almada
não inclui entre os entrevistados. Para a seleção dos depoimentos,
recorre à periodização proposta por Boal.
Destaca representantes das
diversas etapas do Arena, da "fotografia" aos musicais, e orienta os
testemunhos para o resgate de uma espécie de história da vida privada,
feita de recordações de quem conviveu no dia-a-dia da [rua] Teodoro
Baima [em São Paulo]. Talvez a proposta do autor seja ambiciosa para uma
amostragem restrita, que não contempla depoimentos imprescindíveis, como
o de Myriam Muniz, e registra apenas um relato breve de Boal, além de
transcrever uma entrevista de Guarnieri datada de 1968. Com um
conhecimento abrangente da trajetória do grupo, esses artistas teriam
condições de contribuir para uma rede de memórias que ampliasse a
história cotidiana do teatro.
Por outro lado, algumas
participações são modelares, como a de Chico de Assis, que alia fatos
episódicos à reflexão crítica ao retomar, por exemplo, uma apresentação
de "Eles Não Usam Black-Tie" no sindicato de metalúrgicos, sublinhando a
discordância dos operários com as posições do grupo. O mesmo vale para
os depoimentos de Vera Gertel, David José e a primorosa intervenção de
Décio de Almeida Prado, a quem o autor solicita um panorama cultural da
fase anterior ao Arena, o que acaba inviabilizando um enfoque específico
da companhia. Também o livro de Gianni Ratto -"Hipocritando"- se
assemelha a um registro de oralidade, como se um professor não
convencional se dirigisse a atores em formação para falar um pouco sobre
a arte de interpretar e muito sobre a "mentira da criatividade", usando
como fio condutor do argumento o "hypocrités", não apenas o
ator/fingidor grego, mas todo aquele para quem a metamorfose é ofício.
Maiêutica
O impulso metafórico que
norteia as reflexões desse homem de teatro total, admirador de Gordon
Craig, parceiro de Giorgio Strehler no Piccolo Teatro, de Milão, diretor
e cenógrafo de criações memoráveis como "O Mambembe", de Arthur Azevedo,
e "Gota d'Água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, resulta numa maiêutica
tencionada por suas qualidades maiores.
A erudição, o agudo senso
intuitivo e a exímia leitura da imagem permitem-lhe contrapor idéias a
uma iconografia que envolve o ator numa teia de manifestações artísticas
e naturais, criando vínculos insuspeitos. Ao unir o auto-retrato de Van
Gogh a uma estatueta do 3º milênio a.C, na sugestão do diálogo secreto
do artista com as coisas, ou relacionar a criação do ator à devoração
dos filhos de Saturno, Gianni Ratto esboça uma cenografia de idéias, em
que a figura expõe o tema e o ator é apenas um "leitmotiv" de
sensibilização humana.
É interessante constatar como
esse viés humanista, ao tangenciar a teoria da cultura, aproxima certas
passagens do livro de alguns tratados de antropologia teatral, tanto
pelo olhar etnológico sobre o ator quanto pelo esforço de reconciliar o
sensível e o inteligível, colocando o símbolo acima do conceito e
escapando, assim, às categorias tradicionais de análise da
interpretação.
Se alguns operadores ainda
persistem, como a equivalência, a antítese, a tensão, a máscara, a
gestualidade, a memória, a mimese, o jogo e até mesmo a situação
dramática, é apenas como parte de um substrato comum que o autor
reconhece nas formas de expressão humanas e associa a elementos
socioculturais e até mesmo naturais, esfumando a oposição entre natureza
e cultura, que a antropologia teatral se esforça tanto por refutar.
Por outro lado, o cultivo da
técnica corporal, tão comum nos treinamentos de Eugênio Barba, por
exemplo, não encontra a menor ressonância no livro de Ratto, para quem
ela traz prejuízo à criatividade. Outras palavras-chave do teatro
contemporâneo também são alvo de crítica, a começar pelo dramaturgismo,
"uma adaptação que não aceita suas limitações", ou a escritura do
espetáculo, um conceito com "cheiro de elitismo".
De qualquer forma, o que
prevalece na cartografia de "Hipocritando" não é a polêmica, mas a
afinidade entre o artista plástico e o ator, pois "ambos conduzem ao
espetáculo, ao quadro e à escultura". Usando o mote como tema e método,
Gianni Ratto se aproxima dos autores de incunábulos que tanto admira,
revelando-se, como eles, um mestre em aliar idéias e formas. Também
neste caso a resultante é uma pequena obra de arte.
Sílvia Fernandes é professora de história do
teatro na Escola de Comunicações e Artes da USP e autora de "Memória e
Invenção" (Perspectiva).
Teatro de Arena
160 págs., R$ 29,00 de Izaías Almada. Ed. Boitempo (r. Euclides de
Andrade, 27, CEP 05030-030, São Paulo, SP, tel. 0/ xx/11/ 3872-6869).
Hipocritando
144 págs., R$ 80,00 de Gianni Ratto. Ed. Bem-Te-Vi (av. Presidente
Wilson, 231, 10º andar, CEP 20030-021, Rio de Janeiro, RJ, tel. 0/
xx/21/3804-8678).
(©
Mais/Folha de S.
Paulo)
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