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04/06/08
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Nada consta: Johnny e Alejandro, filhos de Ortiz, não
são citados nas sentenças da Justiça italiana |
Processo que apura
lavagem de dinheiro do tráfico de drogas por organizações mafiosas chega
ao fim na Itália e não incrimina empresários do jogo no Brasil
Eduardo Marini – Roma (Itália)
Colaborou: Mário Simas Filho
Há quase um mês, uma polêmica
se alastra pelo Brasil: o governo acertou ou não ao editar a medida
provisória que determina o fechamento dos bingos e proíbe as máquinas de
jogos eletrônicos em todo o País? Os que condenam a decisão do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva argumentam com números fortes,
capazes de se transformar em superpoderosos numa nação cuja maior
preocupação é o desemprego. Afirmam que as 1,1 mil casas de bingo no
Brasil movimentam R$ 5 bilhões por ano e são responsáveis por cerca de
120 mil postos de trabalho diretos e outros 200 mil indiretos. Do outro
lado, os defensores do fim da jogatina usam argumentos pesados. Alegam
que boa parte dos proprietários das casas lava dinheiro do tráfico de
drogas, está ligada às máfias internacionais e é mestre nas artes de
sonegar impostos e de remeter irregularmente divisas para o Exterior.
O combustível para a maior parte
dessas acusações vem dos processos judiciais italianos números 15020/96R
e 17974/97R, gerados pela Operazione Malocchio (operação mau-olhado),
uma série de investigações comandada pela Direção Investigativa
Antimáfia (DIA) contra associações ligadas ao tráfico de drogas e à
lavagem de dinheiro. Esses processos deram origem a várias cartas
rogatórias distribuídas pelo mundo, entre elas uma que pousou na Justiça
brasileira no final de 1998. No caso do Brasil, o objetivo era descobrir
se havia participação intencional na lavagem de dinheiro por meio da
jogatina de empresários instalados no País, particularmente do espanhol
Alejandro de Ortiz Fernandez e de seus filhos brasileiros Alejandro de
Viveiros e Johnny Viveiros Ortiz. Isso porque a família, que importava
máquinas de jogos eletrônicos da Espanha com autorização do governo,
teve como sócios o siciliano Lillo Rosario Lauricella, o calabrês Julian
Filippeddu e seu irmão François, nascido na Córsega. Os três faziam
parte de uma associação liderada pelo mafioso Fausto Pellegrinetti, que,
segundo as investigações da Operazione Malocchio, arrecadou US$ 40
milhões com atividades ilegais. Deste total, US$ 10 milhões vieram parar
no Brasil, aplicados na compra de cerca de 35 mil máquinas de jogos.
Durante oito dias, entre 1º e
8 de março, a reportagem de ISTOÉ percorreu tribunais italianos para
saber o desfecho desses dois processos. Para isso, contou com a
assessoria de um dos mais conceituados escritórios de advocacia do país,
de Paulo José da Costa Jr. e de seu filho Fernando José da Costa. O
primeiro, 79 anos, é professor titular de direito penal da Universidade
de São Paulo (USP), professor livre-docente da Universidade de Roma,
doutor honoris causa pela Universidade Católica Portuguesa, diretor das
Faculdades Integradas de Guarulhos (FIG) e cidadão italiano nomeado por
méritos pelo atual governo. Escreveu 52 livros, 42 deles jurídicos.
Fernando segue o caminho do pai. Aos 30 anos, é mestre em direito penal
e professor da Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap.
Sentenças – A
primeira sentença, um calhamaço de 280 páginas divulgado em 9 de março
de 2001, condena 58 pessoas a penas variadas. Entre elas não há nenhum
empresário instalado no Brasil. A segunda decisão, proferida pelo
Tribunal de Apelação de Roma em 14 de junho de 2002, aumenta algumas
penas e diminui outras. De novo, nenhum empresário em atividade no
Brasil é mencionado. No dia 6 de fevereiro último, a Justiça italiana
publicou o acórdão do Tribunal de Cassação, a mais alta corte de Justiça
da península. Foi a sentença de terceira e última instância para os dois
processos instaurados pelo procurador Pietro Saviotti, também signatário
da carta rogatória enviada ao Brasil. Com as três sentenças na mão, os
advogados brasileiros fizeram uma varredura em cartórios e na
Procuradoria da República italianos para descobrir se havia alguma outra
investigação em curso envolvendo os três empresários da família Ortiz.
Depois de três dias de peregrinação, juntaram nove atestados, todos
negativos. “Todas as instâncias foram rastreadas e nada consta contra a
família na Itália”, assegura Costa Jr.
Além das
sentenças e das certidões negativas, Fernando e Costa Jr. fizeram uma
petição ao procurador Pietro Saviotti pedindo informações sobre a
situação da família Ortiz. De próprio punho, Saviotti fez o seguinte
despacho: “Visto quanto consta no registro geral desta Procuradoria,
confirmo que: Os senhores Ortiz acima identificados não foram objeto de
investigação dos processos supracitados.” Questionado por Costa Jr.
sobre o que responderia se a Procuradoria brasileira o consultasse sobre
a carta rogatória enviada por ele em 1998, disse: “Responderei que não
tenho mais interesse.”
De próprio punho –
A Kroll Associates, uma das mais conceituadas empresas particulares de
investigação e consultoria de risco do mundo,
fez nos últimos dias uma pesquisa sobre Ortiz e seus dois filhos na
Itália e em outros países da Europa. A resposta, em inglês, foi feita em
dois tópicos curtos. “Não foi revelado nada que possa indicar que esses
indivíduos se envolveram em atividades controversas na Itália” e “não há
nada que sugira que eles tivessem, em algum momento, atraído a atenção
das autoridades italianas por conexões com atividades criminais de
qualquer tipo ou possam ter se associado a qualquer organização
criminosa na Itália”. No Brasil, os Ortiz foram investigados pela
Polícia Federal no inquérito número 12-0005, aberto em 12 de fevereiro
de 1999 e encerrado no dia 6 de agosto de 2002. Nada foi encontrado
sobre lavagem de dinheiro ou evasão de divisas. As pesquisas acharam
apenas uma dívida fiscal de R$ 1,789 milhão, contraída entre 1995 e
1999, que está sendo paga parceladamente pelo Programa de Recuperação
Fiscal do governo.
O procurador responde
Pietro Saviotti
atuou, do início ao fim, como procurador dos processos gerados pelas
investigações da Operazione Malocchio (operação mau-olhado). Foi ele
quem solicitou as cartas rogatórias distribuídas para vários países,
entre eles o Brasil. Quase oito anos depois, com o julgamento encerrado
em última instância, Saviotti, em resposta a uma petição apresentada
pelo advogado Paulo José da Costa Jr., escreve de próprio punho: “Os
senhores Ortiz não foram objeto de investigação dos processos
supracitados.” Em seguida, questionado sobre o que responderia, caso
autoridades brasileiras o consultassem a respeito da carta rogatória
enviada ao Brasil em 1998, disse: “Responderei que não tenho mais
interesse.”
Cuidado com as fotos
O italiano
Angiolo Pellegrini adora carros antigos, se rende com facilidade a uma
conversa, mas costuma fugir de fotos. “Por favor, esqueça”, pediu, com
voz baixa, mas firme, ao ver a câmera no prédio romano da UCSI, a
divisão de segurança institucional dos carabinieri italianos, comandada
por ele. “Tomo conta de gente muito importante, italiana ou estrangeira.
Não é bom para o meu trabalho”, explicou. Nos anos 90, o então coronel
liderou a Operazione Malocchio (mau-olhado), que revelou como uma
associação formada por integrantes da N’drangheta, calabresa, e Camorra,
da Campania, arrecadou US$ 40 milhões com o tráfico de drogas e
distribuiu o dinheiro por vários países, entre eles o Brasil. Há certo
sentido na cautela. Numa das fotos dessa reportagem, feita em 1984 no
Rio de Janeiro, ele aparece entre os juízes italianos Paolo Borselino e
Giovanni Falconi, que combateram e foram mortos pela máfia. Pellegrini
cuidou da segurança dos dois. “Dos que aparecem na foto, apenas eu e
outro policial estamos vivos. Os outros foram assassinados”, revela. Na
sexta-feira 5, livre dos flashes, ele, hoje general, detalhou a
operação.
ISTOÉ – Como atuava a associação?
Angiolo Pellegrini – O dinheiro da venda de droga colombiana
era esquentado em contas suíças e, depois, alimentava uma diversificada
e bem estruturada rede de negócios.
ISTOÉ – Quais os países envolvidos?
Pellegrini – A partir da França, eles trabalhavam com
especulação imobiliária na Ilha de Cavallo, na Córsega. Da Síria e de
Santo Domingo, importavam frutas exóticas. No Panamá e na Itália, além
das frutas, negociavam metais. Na Áustria e na Holanda, eram operações
comerciais. Bancos da Flórida (EUA) e paraísos fiscais
em ilhas do Canal da Mancha, na Grã-Bretanha, serviam para girar parte
dos recursos, dificultando o rastreamento. A Espanha era
usada como base para mafiosos do grupo procurados pela Justiça italiana
e para negócios de catering, o fornecimento de refeições
para grandes grupos.
ISTOÉ – E o Brasil?
Pellegrini – Eles movimentaram US$ 40 milhões. Desse total, US$
10 milhões foram investidos em 35 mil máquinas de jogos eletrônicos no
Brasil pelo grupo de Lillo Rosario Lauricella.
ISTOÉ – Os parceiros brasileiros conheciam a origem do
dinheiro?
Pellegrini – As investigações não deram base para afirmar isso.
(©
ISTO É)
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