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Provocação à italiana

04/06/08

Bernardo Bertolucci

Bernardo Bertolucci volta a causar polêmica com Os Sonhadores, sucesso de bilheteria nos Estados Unidos

MARCELO BERNARDES
DE NOVA YORK

   Três décadas depois de lançar o controverso O Último Tango em Paris, o cineasta Bernardo Bertolucci volta a provocar com Os Sonhadores, sucesso de público em cartaz nos Estados Unidos e que estréia no Brasil em 15 de outubro. Mas se em 1973 o italiano (hoje com 63 anos) não teve problemas com a censura, desta vez precisou lutar contra o estúdio Fox, que pediu o corte de uma longa cena de sexo e nudez masculina.

   Os Sonhadores conta a história de um ingênuo estudante americano que se muda para Paris dias antes do levante estudantil de maio de 1968. Apaixonado por cinema, o americano fica amigo de um casal de irmãos franceses que o faz mergulhar em experiências sexuais e filosóficas. Bertolucci, que considera a primavera de 1968 'um momento mágico' da História, conversou com ÉPOCA, de seu apartamento em Roma.

ÉPOCA - Como foi maio de 1968 para o senhor?
Bernardo Bertolucci -
Eu estava em Roma, rodando o filme Partner. Pierre Clémenti, o protagonista, era francês e todo fim de semana voltava de Paris falando sobre as barricadas e o incrível espírito de liberdade. Foi uma época do desabrochar de slogans como 'É proibido proibir', 'Seja realista, peça o impossível'.

ÉPOCA - Há hoje algo remanescente daquele período?
Bertolucci -
Muita gente acredita que 1968 foi um fracasso, o que para mim é um erro histórico. O jeito de projetarmos libertariamente os relacionamentos, especialmente para as mulheres, é conseqüência de 1968.

ÉPOCA - Como o senhor se define politicamente?
Bertolucci -
Hoje, na Itália, a política não é mais a paixão nacional. Existe desilusão e decepção entre as pessoas, e é por isso que acabamos tendo essa desgraça chamada Berlusconi como primeiro-ministro. Ainda me considero uma pessoa de esquerda, mesmo que a definição hoje seja diferente da dos anos 60.

ÉPOCA - A Fox pediu que o senhor fizesse alguns cortes em seu filme. Há um retrocesso sexual nos EUA?
Bertolucci -
Embora a América tenha sido tocada pelos ventos da liberação sexual dos anos 60, com o governo Bush passou a existir uma incrível forma reacionária de puritanismo.

ÉPOCA - Basta ver o episódio envolvendo o seio de Janet Jackson, não?
Bertolucci -
Quando fui promover Os Sonhadores em Nova York, jornalistas me perguntaram sobre esse escândalo, sobre as crianças estarem vendo TV quando ela mostrou o seio. E eu disse: 'Mas qual escândalo?! As crianças são as últimas a se incomodar, porque o seio materno é a melhor lembrança que elas têm'.

ÉPOCA - Os personagens de Os Sonhadores são obcecados por cinema. Quais filmes marcaram sua vida?
Bertolucci -
A Doce Vida, de Fellini, e O Acossado, de Godard. Quis usar um clipe deste em Os Sonhadores e pedi autorização a Godard. Ele mandou a seguinte resposta: 'Faça o que quiser, use a cena que quiser, e lembre-se: não existem direitos autorais, somente beleza'. Puro Godard, uma maravilhosa atitude calvinista!

ÉPOCA - O senhor acredita que o cinema contemporâneo ainda tem o mesmo poder dos anos 60, de estimular um diálogo filosófico?
Bertolucci -
O cinema está passado por uma incrível e dramática mutação. Por causa do DVD, o cinema agora é uma experiência solitária. Na minha geração, cinemas eram catedrais onde as pessoas gostavam de ficar no escuro numa espécie de êxtase coletivo.

ÉPOCA - O que acha da nova geração de cineastas?
Bertolucci -
Sou fã de Tsai Ming-liang, Wong Kar-wai e Harmony Korine. Eles acompanham as mudanças tecnológicas, o que é fascinante.

ÉPOCA - O senhor viu algum bom filme brasileiro recentemente?
Bertolucci -
Não vi Cidade de Deus nem o novo de Hector Babenco, que é uma voz interessante. O Brasil sempre foi palco de um cinema especial, com temas próximos do povo brasileiro. A geração do Cinema Novo fez filmes incríveis. Gláuber Rocha, Cacá Diegues, Gustavo Dahl, Leon Hirszman. Sempre achei que Itália e Brasil dividem a mesma classe cinematográfica.

(© ÉPOCA)


Filmografia de Bernardo Bertolucci

Graziela Salomão

   Ousadia é uma das melhores palavras para definir o estilo do diretor italiano Bernardo Bertolucci. Com movimentos de câmera sofisticados, roteiros inteligentes e a coragem de experimentar coisas novas em suas produções, Bertolucci já conquistou o Oscar como Melhor Diretor por O Último Imperador e duas indicações a Melhor Diretor e Roteiro por O Último Tango em Paris e O Conformista, respectivamente.

   Nascido em Palma, na Itália, Bertolucci ganhou fama como poeta antes de se tornar um cineasta. Foi apenas com seu segundo filme, Antes da Revolução, que ele se destacou no cinema, já mostrando seu estilo político. Mesmo com uma perspectiva juvenil nesta produção – pois Bertolucci tinha apenas 23 anos quando foi rodado o filme -, são explícitas as implicações políticas impregnadas em sua obra. Prova disso são, também, os filmes 1900, O Confomista e O Último Imperador.

   O talento de Bertolucci foi finalmente reconhecido pela Academia de Hollywood em O Último Imperador, com o qual conquistou nove Oscars. Sua nova produção é The Dreamers, que mostra um estudante americano indo para a França no ano de 1968, período marcado pelos protestos estudantis. O jovem torna-se amigo de um casal de irmãos, com quem divide a paixão pelo cinema.

Filmografia de Bernardo Bertolucci

The Dreamers (2003)
Ten Minutes Older: The Cello (2002)
Paradiso e Inferno (1999)
12 Registi per 12 Città (1998) - Documentário
Assédio (L'Assedio, 1998)
Beleza Roubada (Stealing Beauty, 1996)
O Pequeno Buda (Little Buddha, 1993)
O Céu que nos Protege (The Sheltering Sky, 1990)
O Último Imperador (The Last Emperor, 1987)
L'Addio a Enrico Berlinguer (1984)
A Tragédia de um Homem Ridículo (Tragedy of a Ridiculous Man, 1981)
La Luna (1979)
1900 (Nineteen Hundred, 1976)
O Último Tango em Paris (Last Tango in Paris, 1972)
La Salute è Malata o I poveri Morirono Prima (1971)
A Estratégia da Aranha (La Strategia del Ragno, 1970)
O Conformista (The Conformist, 1970)
Amore e Rabbia (1969)
Partner (1968)
La Via del Petrolio (1967)
Il Canale (1966)
Antes da Revolução (Before the Revolution, 1964)
La Commare Secca (1962)

(© ÉPOCA)


 Site oficial do filme "The Dreamers", de Bernardo Bertolucci  


BERNARDO BERTOLUCCI

Nascido em Parma, Itália, em 16 de março de 1940, Bertolucci estudou na Universidade de Roma e foi assistente de direção de Pier Paolo Pasolini. É casado com a roteirista e cineasta Claire Peploe

O Último Imperador (1987) recebeu nove Oscars, entre eles os de melhor diretor e melhor roteiro. Antes disso, outros filmes seus já haviam sido indicados: melhor roteiro para O Conformista (1970) e melhor diretor e melhor ator (Marlon Brando) para O Último Tango em Paris (1972) - este, um de seus longas mais polêmicos

 Já chamou Harvey Weinstein (dono dos estúdios Miramax) de 'Saddam Hussein do cinema'. Em 1993, Weinstein tentou cortar algumas cenas de O Pequeno Buda e irritou Bertolucci


 

Filmes de Bernardo Bertolucci
Divulgação



2004 Os Sonhadores
A Paris de 1968 é cenário para a história de um americano apaixonado por cinema






 

Divulgação

 

1987 O Último Imperador
O filme mais premiado da carreira do cineasta, todo rodado na China, deu novo impulso à carreira de Bertolucci

 




 

Divulgação



1972 O Último Tango em Paris
A cena de sexo entre Marlon Brando e Maria Schneider rendeu ao diretor o rótulo de obsceno

 

Para saber mais sobre este assunto (arquivo ItaliaOggi):

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