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Berlusconi sente a pressão da mudança de clima político na Espanha

04/06/08

"Agora Berlusconi teme a Síndrome Aznar".

Por Frank Bruni
DE ROMA


   Em vários momentos críticos desde que a Itália enviou soldados para o Iraque no ano passado, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi declarou enfaticamente seu compromisso de manter os soldados lá, e o fez novamente nesta semana.

   Enquanto os eleitores espanhóis derrubavam um governo que também enviou forças armadas, Berlusconi prometeu se manter firme. Tanto seus aliados políticos quanto adversários disseram que esperam que ele mantenha sua promessa.

   Mas os analistas políticos italianos disseram que os ataques terroristas em Madri, o revés eleitoral na Espanha e a proposta de retirada dos soldados espanhóis do Iraque claramente colocaram o primeiro-ministro italiano em uma posição difícil, delicada.

   Tais eventos, eles disseram, certamente fortalecerão seus oponentes, que estão claramente tentando calcular se o apoio do primeiro-ministro à intervenção dos Estados Unidos no Iraque o torna ainda mais vulnerável do que imaginavam.

   Tais oponentes estão novamente questionando a política italiana, um desdobramento que reflete em parte o medo dos italianos de que o país possa pagar por sua aliança estreita com os Estados Unidos.

   Como resultado, disseram os analistas, Berlusconi pode se ver desafiado como nunca antes a defender a ajuda fornecida pela Itália aos Estados Unidos no Iraque.

   "Há aqui este medo de terrorismo que talvez -eu ainda não sei- poderá fortalecer o partido que deseja sair do Iraque, e este é um problema para Berlusconi", disse Renato Mannheimer, um analista político e sociólogo italiano.

   "A única sorte para Berlusconi é que seus oponentes estão muito divididos", disse Mannheimer na terça-feira.

   Esta é apenas uma dos muitos aspectos que tornam a situação política na Itália, pelo menos em termos do envolvimento do país no Iraque, mais complicada do que na Espanha.

   Assim como a Espanha, a Grã-Bretanha e a Polônia, a Itália enviou soldados para o Iraque, mas apenas após a queda de Bagdá.

   Berlusconi fez uma clara concessão à opinião pública italiana, que era na maioria esmagadora contra a guerra, ao nem mesmo pedir ao Parlamento italiano a autorização de envio de tropas no início da guerra. Quando ele buscou tal autorização em abril passado, foi para um contingente limitado, que agora é de cerca de 3 mil soldados, oficiais paramilitares e civis.

   A oposição de centro-esquerda no Parlamento se absteve de tal votação, em parte refletindo as profundas divisões internas da oposição em relação à situação. Tais divisões não desapareceram.

   Os oponentes de Berlusconi nem mesmo chegaram a alguma conclusão confiante sobre o que, precisamente, a maioria dos italianos realmente deseja que seus líderes façam.

   Após as mortes de 19 italianos em um atentado suicida em Nasiriyah, Iraque, em novembro passado, não houve nenhuma manifestação pública forte exigindo o retorno dos italianos. Mas houve muitas manifestações de desafio - de não querer capitular diante do terrorismo.

   "Não é fácil definir qual é o humor italiano", disse Lapo Pistelli, um membro de centro-esquerda do Parlamento.

   "Dentro das pessoas você freqüentemente encontra duas posições: um sentimento de que o risco para a Itália é grande e que a Itália pode ser alvo de terrorismo e, por outro lado, um forte sentimento de orgulho", disse Pistelli na terça-feira.

   Pistelli também notou que a sentimento nas eleições espanholas de domingo não ficou claro. Ele disse que o partido do primeiro-ministro José Maria Aznar talvez tenha sido punido não por apoiar os Estados Unidos no Iraque, mas por ter inicialmente atribuído a culpa pelos ataques terroristas em Madri aos separatistas bascos.

   O jornal italiano "La Repubblica" publicou na terça-feira os resultados de uma pesquisa na qual dois terços dos italianos pesquisados expressaram apoio à retirada dos soldados italianos do Iraque, na falta de uma autorização da ONU.

   O "La Repubblica" tem forte tendência de esquerda, e a apresentação da pesquisa foi um exemplo do desejo de alguns oponentes de Berlusconi de tirar proveito do momento para tentar usar sua política em relação ao Iraque contra ele.

   Uma manchete de jornal na terça-feira dizia, talvez de forma desejosa: "Agora Berlusconi teme a Síndrome Aznar".

   Tecnicamente, Berlusconi só disputará a reeleição em 2006. Mas o governo italiano tende a se desfazer muito antes do final do mandato oficial, e as eleições para o Parlamento Europeu, em junho, poderão dar ao seu partido Forza Italia uma afirmação crucial ou um golpe debilitador.

   A figura central em torno da qual os oponentes daquele partido se agruparam é Romano Prodi, o presidente da Comissão Européia, que é freqüentemente mencionado como provável candidato contra Berlusconi em 2006.

   Em uma entrevista publicada no jornal italiano "La Stampa" na segunda-feira, Prodi fez uma grave avaliação da invasão e ocupação lideradas pelos Estados Unidos no Iraque.

   "O terrorismo que esta guerra supostamente deveria deter está infinitamente mais forte agora do que há um ano", disse ele.

Tradução: George El Khouri Andolfato

(© UOL Mídia Global/The New York Times)

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