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Um homem de sorte canta a sua última ópera

04/06/08

Luciano Pavarotti

   O melhor de todos viveu os momentos mais difíceis de sua carreira ao dizer adeus. Por 11 minutos, Luciano Pavarotti foi coberto por “bravos” depois de sua apresentação, na noite de sábado, da ópera “Tosca”, no Metropolitan, em Nova York.

   Foi a última noite deste tenor de 68 anos que, depois de 43 cantando, resolveu se despedir dos palcos. Ele levantou os braços e acenou para a multidão. Ele juntou as mãos e inclinou a cabeça em tributo a seus fãs. Ele pôs a mão no peito, na altura do coração, e mandou beijos.

   Seu rosto, ainda marcado por sangue cenográfico perto do olho direito, estava cheio de emoção. No Metropolitan foi pendurado um enorme cartaz com os dizeres “Nós amamos você, Luciano” (“We love you Luciano”) em vermelho, tendo no lugar do “o”, em “love”, um grande coração desenhado.

   As ovações poderiam ter ido mais longe. Elas pararam apenas porque o pesado Pavarotti parecia estar tendo problemas ao andar em frente à cortina dourada. Ele voltou quatro vezes para receber os aplausos sozinho, mais duas com a soprano Carol Vaness e outras três com todo o elenco, incluindo o regente James Levine, que empurrou Pavarotti para a frente da cortina para mais uma leva de aplausos depois que todos os outros tinham deixado o palco.

   Por toda a noite, Pavarotti pareceu ter que lutar consigo mesmo para manter a emoção sob controle.

   Foram 35 segundos de ovação quando ele entrou pela primeira vez em cena no primeiro ato. Sua voz pareceu presa em sua primeira ária, “Recondita armonia”, que mal foi audível em alguns momentos, e ele manteve os olhos fechados quase todo o tempo.

   A sua grande ária no terceiro ato, “E lucevan le stelle”, foi seguida por mais dois minutos de ovação enquanto alguns flashes pipocavam pelo auditório onde é proibido fazer fotografias. Ele chegou a sair do personagem para acenar para a multidão.

   Foi a maior despedida que ocupou o Metropolitan desde que o soprano Leonie Rysanek disse adeus em janeiro de 1996. E, de certa maneira, foi parecida com a ária final de Leontyne Price na ópera “Aída”, em janeiro de 1985 — apesar de a performance não ter sido das melhores, só o fato de a cantora estar lá tornou a noite marcante. A presença de Pavarotti era o espetáculo.

O tenor precisou de ajuda para entrar e sair do palco

   Especialmente para a ocasião, o Metropolitan incluiu no programa 20 páginas que detalhavam a carreira do tenor, que fez 379 performances na companhia desde a sua estréia com “La Bohême”, em novembro de 1968.

   Questionado, na última sexta-feira, sobre por que está deixando o mundo da ópera — ele ainda planeja concertos até o seu 70 aniversário, que vai comemorar no dia 12 de outubro de 2005 — Pavarotti disse: “Acho que é a hora”. Em entrevista de dois anos atrás, ele foi mais falante: “Saberei quando minha voz estiver pronta para se aposentar e não irei além disso”. Pela performance do último sábado, a última de uma série de três, a voz de Pavarotti está pronta para a aposentadoria.

   Ele só conseguia manter sua voz inteira quando estava abaixo da metade do seu registro. Quando estava acima, ele perdia poder e fôlego. Precisava de ajuda para entrar e sair do palco e bebeu vários copos de água em cena para manter a garganta molhada.

   Mas o Metropolitan sabia que isso poderia acontecer. A última performance de Pavarotti no teatro que foi digna de nota foi durante a temporada da ópera “Turandot”, em 1998. Mas ele continuou, mostrando que um Pavarotti, mesmo abaixo do que poderia ser, ainda era melhor do que a maioria dos cantores.

   Depois da apresentação de sábado, em uma recepção, Pavarotti sentou numa cadeira e agradeceu a ajuda dos integrantes da companhia e dos amigos. Ele segurava uma bengala e andava lentamente quando voltou para o seu quarto de hotel. Seu rosto estava cheio tanto de satisfação quanto de resignação.

   Nascido em Modena, na Itália, ele percorreu um longo caminho desde sua estréia profissional, como o Rodolfo de “La Bohême”, de Puccini, ainda na Itália, em abril de 1961. Depois da “Tosca” no Metropolitan, sua última participação numa ópera completa, ele vai começar uma turnê de despedida em todo o mundo e planeja se aposentar dos palcos no fim de 2005.

   — Tenho uma vida cheia e feliz — disse Pavarotti na sexta-feira passada. — Todas as manhãs, agradeço a Deus por isso. Sou um homem de sorte.

(© O Globo)

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