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04/06/08
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Toni
d'Urso
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Os atores
Renzo Lovisolo e Silvia Rubes, em "O Zurro do Asno" |
Dirigidos por Roberto Bacci, atores italianos
encampam, em português, história inspirada em "O Idiota", do escritor
russo
PEDRO IVO DUBRA
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Seria leviano empregar -a
história não nos permitiria- o advérbio ultimamente para demarcar a
sempiterna presença italiana no palco paulistano. Procede, todavia, a
sensação de que os aportes teatrais da Bota têm por aqui aumentado nos
últimos tempos.
No mesmo mês em que a atriz
Ilaria Drago, conterrânea de Adolfo Celi, Gianni Ratto e tantos outros
migrantes historicamente fundamentais para o teatro brasileiro,
apresentou "Joana d'Arc -Anotações de Viagem" e em que o ator paraense
Cacá Carvalho reestreou, após turnê pela Itália, "A Poltrona Escura",
inicia temporada no Sesc Belenzinho "Il Raglio dell'Asino", inspirada em
"O Idiota", de Dostoiévski (1821-81).
A montagem, da Fondazione
Pontedera Teatro, recebeu o nome de "O Zurro do Asno" no Brasil. A
direção é do pisano Roberto Bacci, 54, parceiro de Carvalho em "O Homem
com a Flor na Boca" e "La Poltrona Scura" (denominação da peça no outro
lado do Atlântico), entre outras empreitadas. Cacá Carvalho e Bacci se
aproximaram no fim dos anos 80.
A conseqüência mais recente da
parceria é a Casa Laboratório para as Artes do Teatro, espaço destinado
à formação de atores e produtores. O processo seletivo para a
constituição de um núcleo brasileiro da fundação está em curso.
"O Zurro do Asno", por sua
vez, traz uma novidade: a décima montagem da Pontedera no país será
inteiramente falada em português. Os atores estudaram o idioma e mostram
a saga de um forasteiro que tenta despertar os convivas de um baile do
torpor.
Roberto Bacci gosta de
transpor a literatura para o palco. E aponta por que prefere o
expediente da adaptação à encenação da peça pronta. "Num grande romance,
podemos procurar perguntas que não estão tão evidentes. Há ainda a
possibilidade de traduzir um contexto que, no romance, normalmente
existe. No texto dramático, ele está reduzido às falas."
O ZURRO DO ASNO. Dramaturgia: Roberto Bacci e
Stefano Geraci. Direção: Roberto Bacci. Com: Compagnia Laboratorio di
Pontedera (Elena Ciardella, Marco de Liso, Andrea Fiorentini, Renzo
Lovisolo, Silvia Pasello, Silvia Rubes e Tazio Torrini). Onde: Sesc
Belenzinho - teatro (av. Álvaro Ramos, 915, Quarta Parada, São Paulo,
tel. 0/xx/ 11/6602-3700). Quando: estréia hoje, às 19h30; de qui. a
dom., às 19h30; até 4/4. 80 min. 12 anos. Quanto: R$ 20.
(©
Folha de S. Paulo)
Peça de grupo italiano retrata
falência do homem
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Drama encenado
pela Compagnia Laboratorio di Pontedera |
Grupo italiano encena a peça O Zurro do
Asno, inspirada em O Idiota, de Dostoievski, que estréia
nesta quinta no Sesc Belenzinho
São
Paulo - Em O Idiota, o escritor
russo Fiodor Dostoievski tentou criar um ser absolutamente bom, capaz de
encaminhar o próprio destino e de buscar alternativas para sua salvação.
Foi com tal fio condutor que o diretor italiano Roberto Bacci criou o
espetáculo O Zurro do Asno, que estréia hoje no Sesc Belenzinho.
"Busquei traduzir em ação teatral a essência do drama criado por
Dostoievski, que é basicamente a falência do homem", comenta Bacci, que
comanda a Compagnia Laboratorio di Pontedera.
São todos italianos que, há
dias e com a precisa assistência do ator Cacá Carvalho, vêm ensaiando o
texto em português para facilitar o acompanhamento do público - por
precaução, um programa descrevendo todas as cenas será preparado. "A
língua não será barreira para mostrar como o texto de Dostoievski nos
ajuda a observar, do lado de dentro, as inúmeras paixões que atravessam
nossa vida."
A peça conta a história de um
jovem e solitário estrangeiro que, em uma certa manhã, escuta o zurro de
um asno em uma praça. O som desajeitado e perturbador o convence a tomar
o caminho de volta de sua terra natal, a Rússia. Antes, porém, ele
participa de um baile de aniversário em que duas famílias vivem uma
dolorosa trama de intrigas. "O espetáculo é muito dramático, sendo até
violento em seu final", comenta Bacci. "O texto tem a coragem de tocar
fundo em certos assuntos importantes."
De fato, tão logo o
estrangeiro comenta com os convidados do baile sobre a revelação
provocada pelo zurro, eles decidem animar a festa realizando, como
brincadeira, o casamento do mais bondoso casal da noite. Transformado em
"asno", o visitante é disputado em um ritual macabro e faz com que a
memória de vidas esquecidas venha à tona, enquanto os outros personagens
zombam de seu próprio sofrimento com imitações.
"Acredito que o espetáculo
poderá chocar algumas pessoas, especialmente pelos insultos irados que
os convidados acabam trocando", comenta o diretor, valendo-se das
apresentações já realizadas em Pontedera, durante dois meses - de São
Paulo, O Zurro do Asno segue para Colômbia, Rússia, Dinamarca,
Polônia, Suécia e Israel.
Apesar das profundas reflexões
que incentiva, a peça é, ao mesmo tempo, muito dinâmica. O grande
desafio enfrentado por Roberto Bacci e seu parceiro na dramaturgia,
Stefano Geraci, foi não dar um encaminhamento literário à adaptação, mas
preservar sua essência filosófica adaptada às necessidades teatrais. "Há
uma frase essencial, que representa o legado do mundo russo: ´A beleza
salvará o mundo.´ Não se trata de uma visão estética, como seria do
ponto de vista de um ocidental, mas de uma pureza, uma ingenuidade que
comprovasse a existência de um homem absolutamente bondoso."
Bacci trabalhou durante nove
meses na adaptação do texto, ao lado de Geraci, e todo o espetáculo se
passa durante o aniversário de um dos personagens. "O zurro que o
estrangeiro ouve reacende sua consciência e acaba ajudando na sua volta
à Rússia", comenta Bacci que, antes do texto de Dostoievski, trabalhou
na adaptação de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. "Não diria que
um texto me levou ao outro, mas ambos oferecem questões fundamentais
sobre a existência humana."
A presença da Fondazione
Pontedera no Brasil criou vários projetos. De espetáculos a workshops
para atores, passando por conferências e programas de cultura teatral,
em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Santo André e
Rio de Janeiro. Também se destaca a colaboração com o Sesc de São Paulo
e os convites para artistas brasileiros que se apresentaram na Itália.
(Ubiratan
Brasil)
(©
Folha de S. Paulo)
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Pontedera Teatro
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