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Bailarinos da Baixada fazem turnê pela Itália

Grupo de bailarinos do projeto Luar de Dança, criado há dez anos pela bailarina Rita Serpa   Fábio Motta/AE

Luar de Dança, que atende 800 crianças do Rio, excursiona por 6 cidades daquele País

BEATRIZ COELHO SILVA

  RIO - O sonho de todo bailarino carioca de dançar no Theatro Municipal nem passa pela cabeça dos 800 jovens do Projeto Luar de Dança, criado há dez anos pela bailarina Rita Serpa para ensinar dança e cidadania a comunidades carentes do Rio e Baixada Fluminense. Nenhum deles deve chegar ao reino das pontas, sílfides e tutus, mas 22 estão atualmente na Itália, numa turnê de 32 dias em seis cidades, apresentando duas produções, Imagens do Inconsciente - Um Tributo a Nise da Silveira, Bolero do Borel (que usa a música de Ravel para falar do cotidiano da favela carioca) e Um Grito de Raquel, que compara a sina da personagem bíblica com a infância abandonada no Brasil.

   A viagem é patrocinada, sem incentivo fiscal, pela Petroflex, ex-subsidiária da Petrobrás que fabrica borracha sintética em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense; em Cabo, município de Pernambuco, e Triunfo, no Rio Grande do Sul, e desenvolve projetos sociais em cada cidade. "Eles nos dão R$ 10 mil por mês, que paga o salário dos professores, todos ex-alunos, e o material para as aulas", explica Rita, formada na Escola Maria Olenewa, do Municipal do Rio, e com Nina Verchinina, coreógrafa russa que trouxe para cá um método semelhante ao da alemã Pina Bausch. "Vim a Caxias em 1990 visitar o frade franciscano Evaristo Spengler e ele me apresentou a um grupo de crianças para que eu lhes desse aulas. Nunca mais saí e ainda espalhei o trabalho por outras comunidades."

   O início não foi fácil. Os bancos da igreja do Jardim Primavera, bairro da periferia de Duque de Caxias, faziam as vezes da barra, fundamental nas aulas de balé. Faltou apoio das prefeituras ou do governo do Estado, compensado pelo incentivo das diretoras das escolas públicas que cedem espaço para as aulas e ensaios. Rita nunca desistiu. "Era difícil patrocínio porque todo mundo quer trabalhar com menino de rua e esses garotos têm família. O apoio de seus parentes e de suas comunidades compensa tudo", lembra Rita. "Nem todos serão bailarinos, mas aprendem a cuidar do corpo e a ter dignidade. Quem quer respeito tem de se impor e a postura adequada é meio caminho andado."

   A Petroflex comemora o retorno do investimento. "Começamos a parceria em 2001, e desde então, até a incidência de gravidez na adolescência diminuiu.

   Aqueles jovens que não tinham um rumo e um objetivo estão produzindo algo de útil para si e os outros", diz o diretor financeiro e administrativo da empresa, Luiz Carlos Lopes. "Não é um trabalho isolado, há um comitê de funcionários que decide onde e como vamos investir na área social. No caso da Rita Serpa, ela consegue multiplicar o seu trabalho e espalhá-los por outras comunidades."

   Além do núcleo pioneiro no Jardim Primavera, o Luar de Dança espalhou-se por São João do Meriti (outra cidade da Baixada Fluminense), Rio Comprido e Vila Cruzeiro, na zona norte. Rita evita o paternalismo. "Aqui todos seguem as regras, quem pode, paga mensalidade, R$ 5,00 ou R$ 10,00. Não damos nada de mão beijada", avisa ela. E, ao contrário dos bailarinos clássicos, eles dançam muito. Em praças, auditórios de escolas, salas paroquiais, onde for possível "Fazemos também dois espetáculos por ano no Teatro Municipal de Caxias, para as famílias dos bailarinos, que comparecem orgulhosas de seus filhos."

   A convivência com os frades franciscanos levou o grupo à organização não governamental italiana Noi Ragazzi del Mondo, que congrega jovens de várias nacionalidades e convidou o grupo para dançar em Roma, Marche, Trento, Castelfranco, Veneza e Bérgamo. "Eles vão como profissionais, não precisam pedir nada", comenta Rita. "Mas também ninguém usa a dança como trampolim social. Todos querem criar melhores condições de vida em suas comunidades."

   Os integrantes do grupo confirmam Rita. Deco Batista, o veterano, queria fazer teatro e acabou bailarino e coreógrafo. Sua versão para A Queda, com a música de Milton Nascimento para o filme de Ruy Guerra é elogiada desde a primeira apresentação. Ele atende outros grupos, mas não deixa o Luar de Dança. "Aqui está minha origem e tem muito trabalho a fazer", explica ele, que viajou para a Itália, coordenando o grupo. Rita completa que todos os balés são criação coletiva. "A gente pesquisa, discute e sai do jeito deles."

   Nino Douglas, de 25 anos, é outro exemplo. Ele veio levado pela irmã e ficou. Hoje dá aulas, faz outros trabalhos esporádicos, mas não pensa em deixar Caxias ou o Luar de Dança, onde sempre tem papéis de destaque, por causa de sua bela figura. Fábio Fonseca era hiperativo, vivia se machucando, e hoje, aos 24 anos, está na Intrépida Trupe, como complemento a sua formação de bailarino. Rosana Moreira, de 25 anos, protagonista de Imagens do Inconsciente, era muito tímida e se soltou na dança. Quer se profissionalizar, sem sair do Jardim Primavera. "No início, ninguém acreditava, mas hoje meus pais respeitam e dão força", conta. "O que me deixa feliz é que eles pensam em reproduzir suas próprias experiência com outras crianças", comemora Rita. "Sinto-me como uma mãe cercada dos filhos e, agora, dos netos, que são os alunos de meus alunos."

O Estado de S. Paulo)

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