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Acervo montado por Cicognara
nos séculos 18 e 19 estará à disposição dos estudiosos brasileiros num programa com
apoio da Fapesp e promoção da Biblioteca Vaticana e da Universidade de Illinois
LUIZ MARQUES
Especial para o Estado
Não se trata desta vez de outra exposição
internacional, dentre as muitas que passam dois meses em museus brasileiros, não deixando
infelizmente, em termos patrimoniais, mais que um volume de catálogo.
Trata-se de um acervo que vem para ficar e
frutificar: as microfichas que reproduzem integralmente a Biblioteca Cicognara, no âmbito
de um programa de duplicação dos originais promovido conjuntamente pela Biblioteca
Vaticana, que os conserva desde 1824, e pela University of Illinois, nos Estados Unidos.
Para entendermos quanto adquirimos em termos de lastro intelectual com a aquisição desta
biblioteca pela Unicamp, graças a um Projeto Temático financiado pela Fapesp (Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é necessário uma palavra sobre Cicognara
e sua célebre biblioteca.
Ao longo do segundo semestre deste ano, os
primeiros textos serão digitalizados e passarão a estar disponíveis em rede.
Após Giorgio Vasari, no século 16, e ao lado
do abade Luigi Lanzi, seu contemporâneo, o conde Francesco Leopoldo Cicognara (1767-1834)
é um dos mestres fundadores de um inteiro campo de estudos, a História da Arte.
Historiador, "connaisseur", erudito,
polígrafo e bibliófilo, Cicognara chega aos 21 anos em Roma, onde firma sua inserção
nos círculos neoclássicos dos anos 1780, gravitantes em torno da pintora Angelica
Kauffmann (1741-1807) e das doutrinas do pintor alemão Anton Raphael Mengs (1729-1779),
assim como dos teóricos Johann J. Winckelmann (1717-1768) e Francesco Milizia
(1725-1798). Já então, Cicognara "não revela", como bem observa a
historiadora da arte Paola Barocchi, "interesses meramente eruditos pelos testemunhos
artísticos, mas a curiosidade de enquadrá-los em um amplo horizonte de cultura".
Estabelecido em Veneza em 1808, assume a
presidência da Accademia di Belle Arti di Venezia, cujo acervo ele organiza, com
espírito iluminista e jacobino, e abre ao público em 1817, transformando-o na
maravilhosa Galleria dell'Accademia. Entre 1813 e 1818, Cicognara publicou a obra que o
torna célebre, a História da Escultura desde o seu ressurgimento na Itália até o
século de Canova (6 volumes), na qual o ponto de partida, o retorno da escultura aos
modelos antigos, no século 13, era fornecido por Nicola Pisano, e o ponto de chegada, por
Canova, máxima expressão do clássico nos tempos modernos. Concebida como uma
continuação das obras de Winckelmann e Séroux d'Agincourt, a obra procurava também
explorar os vínculos entre a arte, a literatura e mesmo a história política, nela
integrando as pesquisas de Edward Gibbon (1737-1794), Charles-François Dupuis
(1742-1809), entre outros. Em seu gênero, a obra mantém-se insuperável. Tendo ainda
publicado, em 1831, um estudo sobre a impressão da gravura sobre cobre, foi convidado
pela duquesa de Parma, Marie-Louise, a criar um segundo extraordinário museu, a atual
Galleria Nazionale di Parma.
Bibliófilo - Naturalmente, o que mais
nos interessa nessa personagem é sua faceta de bibliófilo, pois Cicognara foi sobretudo
o artífice da mais importante e judiciosamente catalogada biblioteca de fontes da
história da arte e da arqueologia clássica jamais reunida até os seus dias. São quase
5 mil títulos, datados do século 14 ao início do século 19, cifra que, perto das
bibliotecas babélicas de hoje, pode parecer modesta. A questão não está contudo na
quantidade, mas no perfil dos livros aqui reunidos, que recobre praticamente todo o
patrimônio bibliográfico da tradição clássica referente às artes visuais.
Consideremos, por exemplo, tão-somente a tratadística arquitetônica. Há nesta
biblioteca 54 edições diferentes, e em geral comentadas, dos tratados de Vitrúvio,
desde um manuscrito do século 14 até sua tradução inglesa, de 1812.
Contam-se 9 edições do De re aedificatoria,
de Leon Battista Alberti, desde a editio princeps de 1485, até a tradução italiana de
1726. Há ainda 14 edições diferentes dos tratados de Andrea Palladio, desde a de 1570
até a tradução francesa de 1785. Uma mesma riqueza abrange escritos teóricos,
compêndios de história da arte, biografias de artistas, tratados de mitologia, poética,
iconografia e retratística, arquitetura efêmera e teatral, pintura, escultura, desenho,
gravura, ourivesaria, perspectiva, anatomia, numismática, inscrições, periegética,
descrição dos monumentos antigos, bibliografia, etc., etc. Numerosas obras sublinham
ainda as relações das artes visuais com a literatura, a filologia, a música, a
retórica, a teologia, a filosofia, a prática e o ensino das artes.
Em suma, a biblioteca Cicognara permite
adentrar, quase livro a livro, no conjunto de temáticas e controvérsias sobre a
imitação da natureza e da Antiguidade, bem como sobre as práticas artísticas
imperantes desde Vitrúvio e Plínio até os anos iniciais do século 19. Mais,
entretanto, que um conjunto de saberes único no mundo, a biblioteca Cicognara fornece um
modelo epistemológico, o paradigma intelectual, a tópica que organizou este saber.
O monumental Catalogo Ragionato dei libri
d'arte e d'antichità posseduti dal Conte Leopoldo Cicognara, publicado em 1821,
desempenha, para as humanidades, papel similar ao desempenhado pelo Systema Naturae de
Carl von Linné, de 1735, para a emergência da moderna taxonomia. Em outras palavras, com
Cicognara, o sistema das artes e dos estudos arqueológicos, filológicos, poéticos e
retóricos que tem por referência o legado da Antiguidade atinge sua primeira
articulação sistemática, mas também seu mais amplo perímetro.
De posse das microfichas, o Projeto da Fapesp,
intitulado A Biblioteca Cicognara e a Constituição da Tradição Clássica, transferirá
o conteúdo dessa biblioteca para suporte eletrônico, acessível em rede, de modo a
facultar o seu usufruto a um maior número de leitores. Estimula-se assim, em tese, a
ampliação das coordenadas históricas e intelectuais das pesquisas em história da arte
na universidade brasileira, ainda hoje praticamente confinada à agenda
nacional-modernista.
Luiz Marques é professor de história da arte na
Unicamp
(© O
Estado de S. Paulo) |