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O consagrado cineasta está em São Paulo e
já acertou os detalhes do intercâmbio
LUIZ ZANIN ORICCHIO
De poucos cineastas se pode dizer que tenham
produzido alguma obra-prima - no sentido mais rigoroso do termo. O italiano Gillo
Pontecorvo dirigiu duas: Batalha de Argel e Queimada. Há muito Gillo não assina um
filme-solo: participou recentemente do projeto coletivo Um Novo Mundo É Possível.
Declara-se aposentado como diretor, mas desenvolve atividade contínua relacionada ao
cinema. Depois de comandar o Festival de Veneza durante anos, dedica-se agora à
construção de um instituto internacional para o desenvolvimento do cinema latino. Está
em São Paulo para divulgar suas idéias e, depois de ter-se reunido com o secretário
municipal de Cultura, Celso Frateschi, com o cineasta Ugo Giorgetti e com Carlos Augusto
Calil, diretor do Centro Cultural São Paulo, volta hoje para seu país. O encontro já
deu fruto. Ficaram acertadas uma mostra anual de cinema italiano em São Paulo e outra, de
cinema brasileiro, na Itália.
Isso é só o começo, espera Gillo. Conforme
disse em entrevista exclusiva ao Estado, a intenção do instituto é criar um espaço
favorável para a recepção da cultura latina, em nível mundial. Disposto e bem-humorado
aos 83 anos, Gillo Pontecorvo conversou com o Estado no saguão do hotel onde se hospeda
em São Paulo. Na entrevista falou da cruzada em favor da cultura latina e relembrou do
tempo como diretor, quando dirigiu um monstro sagrado como Marlon Brando em Queimada e
levou para casa um Leão de Ouro do Festival de Veneza-66 com Batalha de Argel.
Estado - O que o motivou a criar o Instituto para o
Desenvolvimento do Cinema e do Audiovisual dos Países Latinos?
Gillo Pontecorvo - Acho que o tempo da reclamação está
superado. Todos sabemos da quase hegemonia da produção audiovisual norte-americana no
mundo e não adianta ficar chorando. Precisamos nos mexer. Assim, resolvemos criar esse
instituto, levando em conta que existem 650 milhões de possíveis consumidores de nossas
imagens no mundo. A idéia é dar início a uma série de ações efetivas como os
prêmios que distribuímos nos grandes festivais europeus, Cannes, Veneza e Berlim, para a
melhor produção latina. Pretendemos estender essa premiação a outros festivais.
Estado - O que foi resolvido na reunião com o
secretário de Cultura de São Paulo?
Pontecorvo - Estamos de acordo quanto à idéia geral,
que é incrementar o intercâmbio de filmes entre os países. Num primeiro momento haverá
essas mostras de filmes italianos e brasileiros. Depois o fluxo cultural deverá ser
ampliado. Há um projeto interessante da Prefeitura de São Paulo que prevê a abertura de
cerca de 40 salas para exibição de filmes de empenho cultural. Haverá nelas mais
espaço para exibição dos filmes latinos vindos da Europa ou da própria América. É
bom frisar que o instituto tem vocação internacional. Não se trata de intercâmbio
apenas entre Brasil e Itália, mas entre todos os países de cultura latina, incluindo a
grande comunidade hispânica que vive nos EUA.
Estado - Vamos falar de sua carreira como cineasta.
Como foram seus primeiros filmes?
Pontecorvo - Um tanto precários, como costumam ser os
filmes de iniciação. Em A Rosa dos Ventos (1956) eu dirigi um episódio. Quem produzia
os episódios e os organizava era o grande documentarista Joris Ivens. Entre os outros
diretores havia um brasileiro, Alex Viany. No seguinte, A Grande Estrada Azul (1958), tive
de usar nomes conhecidos no elenco, como Yves Montand e Alida Valli. Alida, belíssima,
vivia a mulher de um pescador. Pouco realista, como você pode imaginar.
Estado - Mas de fato você ficou famoso por Batalha
de Argel e Queimada, que falam da luta contra o colonialismo. Por que o interesse por esse
tema?
Pontecorvo - Batalha de Argel é de 1965 e Queimada de
1969. Durante a década de 60 era um assunto que mobilizava as pessoas. Agora, note: os
dois filmes têm conteúdo comum, mas técnicas de narrativa opostas. São duas maneiras
diversas de examinar o mesmo problema, o mesmo mecanismo histórico.
Estado - Os dois certamente influenciados pelas
idéias de Frantz Fanon, não?
Pontecorvo - Claro, Fanon, que foi um pensador negro da
Martinica, teve grande influência na luta de liberação da Argélia. É natural que nos
influenciasse quando quisemos registrar o episódio.
Estado - Batalha de Argel parece tão natural quanto
um documentário bem filmado. Mesmo os atores guardam uma espontaneidade difícil de
encontrar entre profissionais.
Pontecorvo - Em Batalha de Argel trabalhei com o que
chamo de "ditadura da verdade". Tudo que não parecia verdadeiro era
imediatamente descartado. Os atores são gente do povo, argelinos interpretando os
próprios papéis, com exceção do coronel francês, um ator profissional. Quando
terminei o filme, sugeriram que eu deveria colocar um aviso dizendo que não havia
utilizado uma única cena tirada de cinejornais. Foi o maior elogio que recebi. Filmamos
muitas vezes imitando os cinejornais, com textura granulada. Sugeri ao meu fotógrafo o
uso de um negativo que simulasse esse efeito. Queria cenas de cinejornal, granuladas, mas
não medíocres como elas costumam ser.
Estado - Já Queimada é em cores, com visual muito
elaborado. Por que a diferença?
Pontecorvo - Com meu roteirista, Franco Solinas,
quisemos fazer Queimada com estética muito próxima a um romance dos anos 1800, mas com
conteúdo político. Um grande romance político. Gastamos seis meses estudando a
situação colonial daquela época e cuidamos de todos os detalhes para que o filme
tivesse verossimilhança histórica.
Estado - Mesmo que a ilha fosse fictícia...
Pontecorvo - Foi um recurso para falar do processo
colonial de uma maneira mais ampla e não circunscrita a um ou outro país.
Estado - Como colocou um ator como Marlon Brando
para contracenar com um amador como Evaristo Márquez, o líder revolucionário de
Queimada?
Pontecorvo - Eu estava procurando atores em Cartagena,
na Colômbia, e vi um homem que parecia ideal para o papel. Mas ele sumiu. Por obra do
acaso fui reencontrá-lo em sua aldeia, com menos de 40 casas e onde não havia luz
elétrica. Convidei-o para trabalhar com o maior ator do mundo, Marlon Brando. E Brando
foi muito generoso com ele, ajudando-o nas cenas mais difíceis.
Estado - Lembra de alguma?
Pontecorvo - Eu precisava de um olhar irônico de
Márquez, quando ele quer mostrar a Brando que percebeu toda a jogada em que foi metido.
Mas Márquez nem sabia o que era esse tal de olhar irônico. A solução foi filmá-lo de
cima para baixo e recomendar ao fotógrafo um certo ângulo, um brilho no olhar que
sugerisse ironia. Deu certo. Brando morria de rir e disse que Stanislavski teria se
revirado na tumba com essa técnica.
Estado - É verdade que o sr. brigou com Marlon
Brando nas filmagens?
Pontecorvo - Um dia ele esqueceu os diálogos e fiquei
enfurecido. Perguntei como isso podia acontecer a um ator como ele. Ele se sentou e disse:
"Gillo, já fiz um monte de filmes, mas ainda fico nervoso a cada vez que uma câmera
me focaliza." Em seguida, recitou todo o diálogo, sem uma falha. Mas na frente da
câmera, travava.
Estado - Seus filmes, principalmente Queimada,
fizeram sucesso. Por que o cinema político caiu de moda?
Pontecorvo - Porque as pessoas não se interessam tanto
por política como naquele tempo. Assim, os produtores, que têm de cuidar da viabilidade
comercial, hesitam, com razão, antes de produzir um filme com conteúdo político. Temem
o desinteresse do público. Aliás, acho que a indiferença em matéria de política é o
grande problema atual. Tenho esperança de que isso passará um dia.
Estado - Seus principais filmes procuram desvendar o
mecanismo do processo colonial. Muita gente achava que essa forma de dominação estava
superada, mas a invasão do Iraque não lhe parece uma ação imperialista "à
antiga"?
Pontecorvo - A dominação colonial mudou muito em sua
forma exterior, mas não em sua essência. Sua forma moderna é a democracia imperial
americana.
(© O
Estado de S. Paulo) |