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Mutirão cria a mais fantástica Veneza

Veneza

Cidade italiana sobe ao palco em montagem de Falabella

Rachel Almeida
Repórter do JB

   É provável que grande parte da platéia do Teatro dos Quatro, na Gávea, fique com um nó na garganta depois de assistir a uma sessão de Veneza. Não que falte humor no novo espetáculo da grife Miguel Falabella (é difícil o diretor abrir mão da comédia); mas é mesmo a emoção que guia a trajetória de cinco personagens marginalizados. Escrita em 1998 pelo argentino Jorge Accame, Veneza, que estreou esta semana, marca a segunda parceria de Cinthya Graber (produção) com Falabella (direção), responsáveis pelo longo sucesso do musical South American way.

   - Soube da existência da peça por um amigo argentino. Achei a idéia do autor fantástica e acabei indo para Buenos Aires, alguns dias depois, para conferir uma montagem local. Saí de lá com os direitos comprados - conta Cinthya.

   Livremente adaptado por Falabella, o espetáculo tem um quê dos filmes do cineasta italiano Ettore Scola, cuja temática gira em torno de questões sociais. A trama é inusitada. Dona de um prostíbulo, velha e cega, Gringa (Laura Cardoso) tem um sonho: rever Veneza antes de morrer. É na romântica cidade italiana que ela espera reencontrar o grande amor de sua vida, de quem se separou há anos.

   Comovidas com a idéia fixa da mulher, as três prostitutas que moram no lugar (vividas por Arlete Salles, Débora Olivieri e Juliana Baronni), junto com o faz-tudo Tonho (Tuca Andrada), se unem numa espécie de mutirão para criar uma Veneza fictícia dentro do prostíbulo, já que a trupe não tem dinheiro para financiar a viagem.

   - Rita [personagem de Arlete Salles] foi construída a partir da conversa que tive com uma série de prostitutas na Vila Mimosa e na Praça Tiradentes. Fiz questão de fugir da caricatura e mostrar, com respeito e carinho, a vida difícil que levam essas mulheres - observa Arlete, em impressionante forma física.

   A viagem fantástica pode até não ser sofisticada, mas com certeza é criativa. Para convencer Gringa, os amigos constroem um avião, passeiam de gôndola e chegam a criar diálogos em um italiano imaginário. O cenário é assinado pelo competente Cláudio Tovar, que transforma a sala de estar em avião e avião em gôndola usando objetos simples, como ventiladores, tampos de mesa, vassouras e por aí vai.

   Para viver a personagem cega, Laura Cardoso se inspirou em Al Pacino, que ganhou o Oscar de melhor ator em 1993 pelo filme Perfume de mulher, em que interpretou um coronel cego. Para a atriz, sonhar é fundamental.

   - Quem deixa de sonhar, deixa de viver - afirma.

(© JB Online)


A barca dos sonhos coletivos

Miguel Falabella lança mão de leveza e humor para evitar pieguice em 'Veneza'

Macksen Luiz

   Há um efeito dramático em Veneza, no Teatro dos Quatro, que faz com que a peça do argentino Jorge Accame realize um truque mágico diante do espectador. O prostíbulo que reúne quatro mulheres, a mais velha cega, desejando reencontrar antiga paixão em Veneza, parece tão estereotipado quanto tantas outras narrativas fixaram no tempo. O efeito está no desejo de Gringa em se transformar, pela impossibilidade de ser realizado, num sonho coletivo, que inclui também o faz-tudo do prostíbulo, que troca seus serviços pelos favores das moças. Os meios para que esse sonho se concretize não são apenas os improvisos materiais que tornam possível o simulacro de aviões e de gôndolas, mas o transporte onírico para o amor idílico e a paz definitiva.

   O ato de se empenhar na concretização do sonho contamina aqueles que preparam a mentira, que acabam por ser inoculados pelo sentimento de verdade. Não apenas para Gringa, que, cega, não pode ver as falsificações da realidade, mas também para as outras meninas, que se apoderam do irreal para embarcarem no sonho.

   O texto de Jorge Accame tem a virtude de envolver a platéia nesta viagem lírica, mas os seus instrumentos nem sempre são muito originais, deixando a sensação de previsibilidade na trama e de excesso de convencionalismo na ação. Sem conhecer o original fica difícil saber a extensão das mudanças que o adaptador Miguel Falabella possa ter feito no texto. Percebe-se, no entanto, que existe tendência a reforçar os aspectos de comédia, acentuando com humor o desenvolvimento da ação.

   O tratamento de grande parte do texto oscila entre o farsesco e a comicidade explícita, não encobrindo algumas cenas insatisfatórias dramaturgicamente, como a da procura de Veneza no mapa ou a do ensaio para o show.

   Aquilo que se avizinha do patético é convertido ao bem-humorado, e a tênue película realista que envolve as primeiras cenas se transformam em vinhetas farsescas sobre os sentimentos classificados. O texto apresenta as prostitutas como ''mulheres de bom coração'', tipificando cada uma como a mal humorada, mas sentimental; a durona, mas bondosa; a jovem inexperiente, mas arrebatada.

   Cada uma delas é tocada pelo sofrimento da mais velha, que, romanticamente, une todas em torno de suas fantasias. Veneza é, constantemente, ameaçada pela pieguice e pelo lirismo melodramático, e se não chega a escapar da ameaça, pelo menos sugere alguma possibilidade de projetar um universo encantatório no palco.

   O adaptador e diretor Miguel Falabella conduziu sua montagem com leveza e humor, que não deixam que os elementos mais melosos e piegas assumam precedência num texto tão marcado pela complacência com a convenção. Miguel Falabella desenha o espetáculo para que a transformação entre o real e o sonho se estabeleça através do registro de comédia.

   O recurso cenográfico para simular o avião é a figura-chave do espetáculo, que ao mesmo tempo em que diminui a carga melodramática da cena, brincando com o improvável da situação, possibilita arranhar atmosfera sugestivamente felliniana. O diretor prefere não se distanciar do apelo ao humor, talvez uma saída para driblar chavões e apelos a lágrimas fáceis.

   O cenário de Cláudio Tovar tem contribuição decisiva na montagem, já que cria, e reproduz nos figurinos, desenho fortemente centrado no espírito ''cômico'' da encenação. A construção do avião é apresentada na sua longa e engenhosa solução como a mais forte expressão desse humor. A concepção algo kitsch do visual funciona como comentário levemente crítico a uma certa estética.

   O efeito cênico do cenário é alcançado pela exacerbação desse aspecto cafona (lustres de cristal, paisagem veneziana ao fundo, fumaça), que acaba por incorporar a realidade das formas romantizadas à irrealidade do sonho.

   O elenco se afina com o espírito do espetáculo. Cristiano Gualda solta a sua boa voz na caracterização do galã latino. Juliana Baroni tem presença coadjuvante no papel da jovem prostituta. Débora Olivieri imprime marca física à sua participação. Tuca Andrade explora a ingenuidade e a malandragem do seu personagem. Arlete Salles faz com competência personagem previsível e Laura Cardoso encontra o tom entre o patético e o onírico.

(© JB Online)

Lágrima e riso numa Veneza fictícia

Veneza

Roberta Oliveira

   No meio do ensaio, Miguel Falabella sussurra:

   — Para retratar estas mulheres, eu me inspirei nos quadros de Edward Hopper, na solidão daquelas personagens — explica.

   E as mulheres de “Veneza”, peça dirigida por Falabella que acaba de estrear no Teatro dos Quatro, são realmente solitárias. Escrita pelo argentino Jorge Accamme, a peça gira em torno de Gringa (Laura Cardoso), ex-bailarina e hoje dona de um prostíbulo, que, velha e cega, recusa-se a morrer antes de voltar a Veneza e, assim, rever um antigo amor do passado a quem traiu e para quem quer pedir desculpas.

   Emocionada com a proporção deste amor, Rita (Arlete Salles), a mais antiga das prostitutas da casa, promete a Gringa que irá levá-la a Veneza, cidade que mal sabe encontrar no mapa. Entre a promessa e a sua realização há, no entanto, uma seqüência de problemas, o maior deles, a falta de dinheiro. Rita resolve, então, arquitetar um plano, com a ajuda de Madalena (Julianna Baroni), a mais nova da casa; Marta (Débora Olivieri), que não se cansa de arrumar uma encrenca; e Tonho (Tuca Andrade), um faz-tudo que só faz tudo em troca de prazeres sexuais.

   Para levar Gringa a Veneza, o quarteto apela para a imaginação: as mesas do prostíbulo viram as asas do avião; um balde, a frente; e o liqüidificador, o motor. Na chegada à cidade italiana, o avião transforma-se numa gôndola que leva o grupo a passeio por Veneza. É o momento mais divertido e terno da montagem: munida de um guia da Itália, Rita diz que a embarcação está passando pela Torre de Pisa, pelas estátuas de Michelangelo e até pelo Papa. E, por obra da imaginação, não só Gringa se convence de que está em Veneza, como os outros também.

   — O texto é emocionante, mas eu ainda quis acrescentar um pouco de humor — diz Falabella.

VENEZA Texto: Jorge Accamme. Adaptação e Direção: Miguel Falabella. Com Laura Cardoso, Arlete Salles, Tuca Andrada e outros.

Teatro dos Quatro: Shopping da Gávea, 2 andar. Rua Marquês de São Vicente 52, Gávea — 2274-9895. Qui a sáb, às 21h. Dom, às 20h. R$ 30 (qui e sex), R$ 40 (sáb) e R$ 35 (dom). 90 minutos.

(© O Globo)

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