Equipe internacional e multidisciplinar vai a campo
na Itália para mostrar como viveram os antecessores dos romanos
JOHN NOBLE
WILFORD
The New York Times
FILADÉLFIA Os romanos se ufanavam de
seus mitos de fundação. Enéias, um fugitivo da Tróia caída, ancorou na foz do Rio
Tibre e ali, sobre as colinas do Lácio, reacendeu a chama da grandeza troiana. Rômulo e
Remo, os filhos gêmeos de Marte e de uma beleza adormecida, foram amamentados por uma
loba e cresceram para fundar a cidade destinada à grandeza.
Na realidade, os romanos devem muito mais do
que jamais admitiram a seus predecessores e ex-inimigos na península italiana: os
etruscos. Eles eram conhecidos como Rasenna e Tusci, ou Etrusci, pelos romanos, cujos
historiadores geralmente os ignoravam ou os diminuíam.
Restou aos modernos arqueólogos e
historiadores de arte a tarefa de retirar alguns desses véus do tempo da cultura etrusca
e devolver a esse povo enigmático seu lugar próprio na história pré-romana.
Os etruscos, que ocuparam grande parte do
Centro-Norte da Itália no primeiro milênio antes de Cristo, faziam comércio nos lugares
mais distantes, em toda a região do Mediterrâneo. Sua prosperidade e seu gosto pelo luxo
sustentaram uma longa rede comercial, que ia do Norte até o Mar Báltico, no caso do
comércio do âmbar, extremamente apreciado. Segundo especulam alguns especialistas, isso
pode ser a causa da migração para a Escandinávia de um nome masculino comum entre os
etruscos, Lars.
Mas houve algo de importância mais duradoura:
os etruscos foram um canal para a introdução da cultura grega e do panteão dos deuses
gregos entre os romanos. Os etruscos desenvolveram uma versão do alfabeto grego, um passo
que influenciou as letras romanas e posteriormente as do norte da Europa.
Eles construíram as primeiras cidades na
Itália, quando as colinas de Roma eram ainda terrenos baldios e apenas promessas. E sua
influência aparece em obras posteriores de arquitetura e engenharia dos romanos .
Se os etruscos foram outrora considerados uma
sociedade perdida, os estudiosos afirmaram em um recente simpósio na
Universidade da Pensilvânia, que eles estão sendo agora descobertos em novas
escavações e através de um exame mais minucioso dos artefatos encontrados durante o
século passado.
Exposição O simpósio, chamado
Os Etruscos Revelados: Novas Perspectivas a Respeito da Itália Pré-Romana, foi realizado
para coincidir com a abertura de uma nova galeria de antiguidades etruscas no Museu de
Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia.
Agora estamos sentindo a confiança de
que realmente conhecemos os etruscos e de que sabemos em que eles acreditavam e o que
faziam, disse Jean M. Turfa, arqueólogo do Bryn Mawr College, que foi o organizador
do encontro. Podemos começar a investigá-los como um verdadeiro povo.
P. Grewgory Warden, um perito em arqueologia
etrusca da Universidade Metodista do Sul, disse que essa mudança consistiu num
afastamento da quase total dependência de provas baseadas em tumbas, por mais
esplêndidas que sejam, em favor de escavações sistemáticas da região onde esse povo
viveu.
As ruínas de assentamentos e cidades estão
revelando a paisagem social , desde cabanas até casas e palácios, disse
Warden. Em alguns lugares próximos de cidades como Florença, Bolonha, Perugia e Pisa, os
escavadores estão descobrindo restos de paredes de fortificações, oficinas de artesãos
e olarias para produção de tijolos e peças, templos e traçados de ruas.
Stephan Steingraber, do Instituto
Arqueológico Alemão de Roma, descreveu provas de um planejamento urbano considerável.
Algumas cidades eram constituídas de zonas separadas para moradores, indústria e
edifícios públicos. As estradas tinham sulcos pavimentados com pedras, como trilhos.
Esta investigação, realizada por várias
equipes de especialistas internacionais, está apenas começando, diz Steingraber, mas já
ficou claro que os assentamentos etruscos começaram a evoluir, a partir de conjuntos de
cabanas cobertas de sapé ou de colmo, para casas retangulares com cobertura de telhas e
alicerces de pedra e depois para a formação de verdadeiras cidades já no século 7.º
antes de Cristo.
Sofisticação Annette Rathje,
da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, disse que as escavações no sítio
arqueológico chamado Murlo, numa colina ao sul de Siena, revelaram provas cada vez mais
evidentes de um assentamento em larga escala e de arte monumental, inclusive frisos
audaciosos e algumas das mais antigas terracotas arquitetônicas na Itália.
A cidade antiga tinha uma impressionante
acrópole e um edifício enorme, o maior da Itália antes do século 6 a.C. que
parecia ter muitas estruturas menores em torno de um pátio. Segundo Rathje, talvez fosse
o palácio de uma família dominante. Warden dirige as pesquisas no sítio arqueológico
Poggio Colla, 35 quilômetros a nordeste de Florença. A equipe explorou um muro bem
definido da cidade, um amplo cemitério e um templo, especialmente raro.
Segundo Warden, as escavações proporcionaram
nova maneira de entender mais profundamente a sociedade estratificada dos etruscos
a elite rica controlava grande população de escravos e servos. As pessoas viveram em
Reggio Colla desde o século 7.º até o século 2 a.C., que constitui o período quase
total da história etrusca conhecida.
Ninguém sabe quando os etruscos foram para a
Itália nem de onde. Eles falavam uma língua diferente de qualquer outra européia
conhecida, que sobrevive apenas em poucas inscrições sepulcrais.
Os ancestrais dos etruscos podem ter cruzado
os Alpes provenientes do norte ou podem ter vivido tanto tempo onde estavam que suas
origens eram de pouca importância. Apesar disso, os costumes e tradições foram uma
mescla de costumes de outros povos, possivelmente provenientes da Ásia Menor (atual
Turquia) e particularmente da Grécia. Aristóteles escreveu a respeito de uma aliança
comercial assinada entre etruscos e cartagineses.
O número de palavras etruscas emprestadas dos
gregos indica muitos contatos entre os dois povos. Cenas da mitologia grega são pintadas
em peças de arte etrusca. Os etruscos eram colecionadores de tudo o que era dos
gregos, disse a arqueóloga Irene B. Romano, uma das curadoras da mostra do museu na
Pensilvânia. Eles e os gregos faziam comércio, lutavam e se conheciam muito
bem.
Expansão A presença etrusca na
Itália se registrou durante grande parte do primeiro milênio antes de Cristo e teve seu
apogeu nos séculos 6.º e 5.º a.C. Seu domínio se estendeu bem além de seu centro na
Toscana. Desde o Rio Tibre, no sul, até o Arno, no norte, o poderio e a cultura dos
etruscos tiveram grande influência. Em certas épocas, seu alcance se estendeu ao vale do
Rio Pó e ao Mar Adriático e, no sul, até Pompéia.
Baseados na arte das tumbas, os arqueólogos
concluíram que as mulheres tinham um status muito elevado na sociedade etrusca, em
comparação com gregos e romanos. As pinturas mostravam mulheres saboreando alimentos e
dançando em festas. Pintavam também mulheres dirigindo suas próprias carruagens. As
inscrições revelavam que as mulheres podiam possuir ou herdar bens e às vezes dirigiam
suas empresas, como oficinas de cerâmica.
Larissa Bonfante, professora de história
clássica na Universidade de Nova York, disse que, ao contrário das romanas, as etruscas
tinham nomes próprios. As filhas do rei romano Servius Tullius, por exemplo, eram ambas
conhecidas apenas como Tullia. Mas os etruscos, tanto homens quanto mulheres, tinham três
nomes: um prenome, seguido pelo nome da família do pai e da da mãe.
Apesar de toda a sua arte e agricultura, de
sua refinada metalurgia e de seu comércio, o poderio etrusco e seu controle sobre a
península italiana começaram a declinar nos séculos 5.º e 4.º a.C. Estou
absolutamente convencido de que uma das principais razões pelas quais eles não foram
bem-sucedidos a longo prazo foi porque sua sociedade era estática, não mudava com o
tempo, disse Warden.
Os estudiosos aprenderam que a civilização
etrusca era governada como uma federação meio frouxa de 12, ou talvez 14,
cidades-Estado, cada uma delas controlada por oligarquias dos ricos e guiadas pelos
deuses.
O filósofo Sêneca, no século 1.º a.C.,
pode ter encontrado uma explicação para a incapacidade dos etruscos de cuidar de si
próprios e de mudar.
Escreveu Sêneca: Esta é a diferença
entre os romanos e os etruscos. Nós acreditamos que o raio é causado pelas nuvens que
colidem entre si, enquanto eles acreditam que as nuvens colidem para criar o relâmpago.
Como eles atribuem tudo aos deuses, são levados a crer não que os acontecimentos têm
sentido porque aconteceram, mas que aconteceram para expressar um sentido.
Desde sua arte até sua cerâmica, afirmam os
especialistas, existem fortes evidências de que a cultura etrusca era inflexível em face
do crescimento populacional, dos reveses comerciais e das ameaças de vizinhos em
expansão.
Era um ambiente sufocante, uma espécie
de teocracia sem mobilidade social, resumiu Warden.
(© O
Estado de S. Paulo) |