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Abandonado, Moravia se
vingou escrevendo 'O Desprezo', que seria adaptado por Godard
JOSÉ
NÊUMANNE
Uma das fofocas mais intrigantes do universo
literário do século 20 é a que circula nos meios cult sobre dois dos maiores escritores
da história recente da Itália. Alberto Moravia, o autor de Os Indiferentes, foi casado
com Elsa Morante (História). O casal conviveu no epicentro de um terremoto de vaidades: a
crítica italiana não conseguia se entender sobre quem seria o maior escritor italiano da
época - se ele ou ela. O casamento ruiu, é claro, sob o peso de seus egos, da intriga
cortesã literária e da impossibilidade de saber quem de fato era maior (talvez só
Nelson Rodrigues resolvesse o assunto, mas ele não foi chamado para arbitrá-lo, até
porque não era italiano: lembram-se de que, quando Dias Gomes foi escolhido melhor
dramaturgo do Brasil, ele, que também disputava o galardão, comentou, ácido: "Mas
ele não é o melhor dramaturgo nem na casa dele", referindo-se a Janete Clair?). E,
mesmo Nelson não tendo sido chamado para arbitrar, a separação do casal foi puramente
rodriguiana: Elsa Morante saiu de casa para viver com outro, um amigo do casal, bonito,
nobre, rico e também um artista maior, o cineasta Luchino Visconti. O detalhe bizarro da
separação é que Visconti era tudo isso - e também homossexual.
À vingança do marido trocado por um amigo
que nem gostar de mulher gostava a literatura italiana em particular e a mundial em geral
deve um texto primoroso: o romance O Desprezo. Com seu estilo elegante e escorreito, o
autor de A Romana descreve o momento impreciso em que uma relação de amor entre um homem
e uma mulher se acaba, aquele ponto de inflexão em que a admiração da qual surgiu a
paixão e que motivou o amor se torna uma sensação quase histérica de repulsa. O enredo
é simples: uma jovem e bela datilógrafa sente que o marido, um escritor respeitado, a
está praticamente oferecendo a um produtor de cinema que o contratara para salvar uma
adaptação da Odisséia do naufrágio e sente que o tédio em que sua relação a dois
começava a mergulhar vai se esvaindo num nojo incontrolável. A vingança de Moravia é
implacável: Elsa Morante, que saíra de sua cama para a de um gay, continuava viva e
brilhante, mas a protagonista do romance que ele criou é morta. O prosador recorreu à
ficção para realizar o impulso de todo marido traído: a eliminação física da
adúltera e de seu parceiro e, melhor ainda, sem nenhuma conseqüência traumática para
sua própria vida, o que teria sido fatal se ele tivesse resolvido fazer o que imaginara
realmente: prisão, condenação, opróbrio. Interessante é que o protagonista masculino
se sai muito mal e quem termina como heroína é a mulher imolada.
Em 1964, em pleno auge da nouvelle vague, o
diretor francês Jean-Luc Godard, que virou o cinema de pernas para o ar com Acossado,
aceitou dirigir uma adaptação do romance para a tela. A tarefa era complicadíssima: os
textos de Moravia não propiciam a ação cinematográfica, pois são reflexivos, mais
insinuando estados de espírito do que relatando peripécias. E não seria fácil adaptar
para o cinema a transformação sutil da admiração na paixão, da paixão no tédio e do
tédio na rejeição, ponto alto do texto de Moravia.
Godard, o mesmo que faria gato e sapato da
narrativa linear com seu discursivo A Chinesa, contudo, conseguiu fazê-lo recorrendo a
alguns truques aparentemente simples: música, abundante trilha sonora em volume muitas
vezes se sobrepondo aos diálogos; takes de estátuas gregas se aproveitando da
adaptação do épico de Homero (e o filme dentro do filme foi dirigido por ninguém menos
que o alemão Fritz Lang, diretor do superclássico M, o Vampiro de Dusseldorf); e a
beleza natural e irrepetível da natureza das curvas de Brigitte Bardot em seu momento de
maior esplendor. A seqüência inicial em que a datilógrafa Camille cobra do marido
escritor (Michel Piccoli) uma declaração de paixão por cada parte de sua anatomia é um
insuperável momento de graça e leveza na história da arte que se diz ser a sétima. A
presença de Jack Palance, o temível bandidão de tantos westerns da predileção dos
diretores franceses da turma do Cahiers du Cinéma, no papel do produtor sedutor, é outro
golpe de mestre de Godard, que conseguiu com a soma de todos esses atributos o que parecia
impossível: o raro caso em que o espectador sai do cinema sem ter certeza de que o livro,
uma obra-prima da literatura, seria melhor do que a adaptação cinematográfica, ou não.
Com cópia nova providenciada pela Pandora, o
raro filme linear (com começo, meio e fim) de Godard está em cartaz em São Paulo (no
Top Cine, na Paulista). E não é de todo improvável que ainda se encontre em alguma
livraria (ou em último caso num sebo competente) uma versão razoável em português do
romance de Moravia. A inútil tentativa de saber qual é o melhor - se o livro ou se o
filme - será de muito bom alvitre para o leitor e espectador de bom gosto.
José Nêumanne, jornalista e escritor, é
editorialista do 'Jornal da Tarde'
(©
O Estado de S. Paulo) |