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Claudio
Valentinetti, após seu livro sobre Cavalcanti, lança volume dedicado ao animador do
Cinema Novo
LUIZ CARLOS MERTEN
Sobrinho de Lina Bo Bardi, Claudio M.
Valentinetti nasceu em Milão, em 1949. Crítico de cinema e jornalista, tem traduzido
para o italiano grandes nomes da literatura latino-americana, como Gabriel García
Márquez, Jorge Amado, Carlos Fuentes, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão e
muitos outros. Sua ligação com o Brasil e o cinema brasileiro é particularmente forte.
Co-escreveu Alberto Cavalcanti, com Lorenzo Pellizzari, e assina agora Glauber - Um Olhar
Europeu. O livro é uma edição da Prefeitura do Rio e do Instituto Lina Bo Bardi. Já
foi lançado em Brasília. Glauber e o Cinema Novo forneceram o tema para a tese de
doutorado de Valentinetti na Universidade de Milão, em 1975. Passaram-se quase 30 anos
até o livro atual, que retoma e desenvolve, numa forma mais literária, o tema da tese.
Glauber morreu em 1981. Não houve um só
momento, ao longo destes 22 anos, em que não estivesse presente no debate cultural do
País. Valentinetti explica por que: "É um dos grandes, como Eisenstein e Luis
Buñuel. Como a deles, a obra de Glauber transcende a discussão sobre cinema para se
oferecer como algo mais rico e complexo: pertence à própria história do homem." O
livro é resultado dessa admiração. Tem prefácio de Leon Cakoff, que lembra, em
Fascinante Apostólico Glauberiano, suas duas experiências pessoais com o diretor: um
encontro no Festival de Teresópolis, em março de 1971, e um contato telefônico em 1980,
quando estavam ambos enlouquecidos - Cakoff fechando o catálogo da 4.ª Mostra
Internacional de Cinema e Glauber na mesa de montagem de A Idade da Terra, que terminou
sendo seu último filme. Cakoff lembra o autor messiânico que falava em nome do povo
brasileiro e levava o conceito da revolução no cinema ao ponto de preconizar a
realização de filmes que não dessem dinheiro para os produtores.
Pode-se criticar o título do livro de
Valentinetti, que sugere uma compilação ou uma síntese do que os europeus viram de
Glauber e escreveram sobre ele. É um olhar europeu, sim, mas o de Valentinetti, quase que
exclusivamente, por mais que ele faça referências à repercussão da obra glauberiana na
Europa. Antes dele, a francesa Silvie Pierre também escreveu sobre Glauber, expressando
um olhar europeu sobre o artista. Feita a ressalva, cabe destacar que o livro é escrito
em agradável estilo não acadêmico, sem as maçudas notas de rodapé que costumam
entravar a leitura de teses de mestrado e doutorado. De forma muito interessante,
Valentinetti contextualiza Glauber e sua obra. Mostra como ele já estava na contramão
dessa ideologia global hoje vitoriosa em todo o mundo, o que não quer dizer que não seja
contestada pelos que ainda acreditam numa sociedade mais humana, menos consumista.
Cada um dos filmes que Glauber fez no Brasil
ou no exterior merece uma análise detalhada. Esses capítulos são precedidos por outros
que tratam da situação do Brasil no começo dos anos 1960, durante a presidência de
João 'Jango' Goulart, ou que discutem a repercussão da revisão crítica do cinema
brasileiro proposta por Glauber no livro com esse título. Tropicalismo, antropofagia, a
análise do cinema brasileiro nos anos 1970, a revisão crítica do Cinema Novo, tudo
passa pelo crivo do autor. Valentinetti investiga a origem de cada filme: o discurso
antimisticismo de Barravento, a preocupação pela reforma agrária de Deus e o Diabo na
Terra do Sol, o fecho do discurso antecipado por esses dois filmes em O Dragão da Maldade
contra o Santo Guerreiro. No filme que considera o mais controvertido do autor, Terra em
Transe - na verdade, o melhor -, sua análise baseia-se em parte do poema Epitáfio de Um
Poeta, de Mário Faustino: "Tanta violência mas tanta ternura", o que parece
uma definição perfeita não só para o personagem de Paulo Martins, interpretado por
Jardel Filho, mas para o próprio Glauber.
Valentinetti gostaria que seu livro saísse em
italiano, mas não acha que isso possa ocorrer. Glauber virou um ícone na Itália graças
à sua personalidade vibrante e ao impacto que seus filmes provocaram nos festivais de
Pesaro e Porreta-Terme, quando eram vitrines da produção cinematográfica do Terceiro
Mundo e pontos de confluência dos guerrilheiros do cinema de todo o mundo. Na era global,
pós-Berlusconi, o discurso glauberiano talvez seja incômodo demais. Nisso se assemelha
ao de outro agitador cultural, Pier Paolo Pasolini. Um no Brasil, o outro na Itália,
Valentinetti acha que Glauber e Pasolini eram o que os italianos chamam de 'bascian
contrario'.
Ambos eram especialistas em ser do contra, mas
da forma mais inteligente e lúcida possível, diz o autor de Glauber - Um Olhar Europeu.
É o seu partido no livro. Glauber, como Pasolini, adorava cutucar, incomodar. "Fazem
falta (os dois) no debate cultural que hoje ocorre no mundo", conclui Valentinetti.
Glauber - Um Olhar Europeu. De Claudio M. Valentinetti.
203 páginas. R$ 35,00. Editado pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi
(©
O Estado de S. Paulo) |