|
Fragmentos do objeto de 1,4 t teriam
o peso máximo de 120 kg; chance de atingir centro habitado é de 1 em 10.000
SALVADOR NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Um satélite científico italiano de porte
respeitável deve despencar de sua órbita no final do mês, e há uma chance razoável de
que caia no norte do Brasil.
Trata-se do Bepposax, um satélite construído
pela ASI (Agenzia Spaziale Italiana) com colaboração holandesa para o estudo, a partir
da órbita terrestre, de raios X emanados do espaço cósmico.
Com 1,4 tonelada, o satélite permitiu
observações que colaboraram no estudo dos misteriosos disparos de raios gama
("gamma ray bursts"), picos de radiação muito intensa produzidos na explosão
de estrelas muito maciças em seu estágio final de vida.
Ele foi lançado em 1996 numa órbita
equatorial com uma inclinação bastante sutil (cerca de 4). Em abril do ano passado, a
operação do satélite foi encerrada. Já na época se calculava que o artefato viria ao
chão em um ano.
Satélites em órbitas baixas são
gradativamente puxados para o chão por força do efeito que é conhecido como arrasto
atmosférico. Nas altitudes em que orbitam, a camada de ar que envolve o planeta é
extremamente rarefeita, mas ainda capaz de oferecer alguma resistência ao objeto.
Isso faz com que, gradativamente, satélites percam velocidade, encurtem suas órbitas e,
finalmente, caiam.
O Bepposax está agora girando a cerca de 280
km do chão, dando uma volta em torno da Terra a cada 89 minutos. Os italianos estimam que
ele entre na parte mais densa da atmosfera e inicie seu vôo abrasante e rápido rumo ao
chão no dia 1º de maio. As chances de ele vir abaixo entre 29 de abril e 4 de maio são
de 90%.
Análises periódicas estão sendo publicadas
na internet pela ASI. A próxima virá na sexta-feira. Ainda é cedo para estimar
exatamente onde ele vai cair, mas pode ocorrer em qualquer ponto do globo na faixa da
trajetória normal do objeto, 4,36 acima e abaixo da linha do Equador.
A faixa passa sobre os Estados de Amazonas,
Roraima, Pará, Amapá, Maranhão, Piauí e Ceará (veja mapa acima). Embora o satélite
possa em tese cair em qualquer ponto da faixa, as dimensões do Brasil fazem com que as
chances de um impacto sobre o país não sejam desprezíveis. Mas isso não é razão para
pânico, diz Marcelo Lopes de Oliveira e Souza, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais).
"A conta sobre a probabilidade de impacto
no território nacional não diz absolutamente nada. O que todo mundo considera importante
é a chance de cair numa área povoada. Essa chance é da ordem de 1 em 10.000", diz.
"E a estimativa de que possa matar alguém é de 1 em 1 trilhão."
Quando foi procurado pela Folha, Souza (especialista em detritos espaciais) já
acompanhava a queda do Bepposax, trabalhando em conjunto com a Agência Espacial
Brasileira (AEB).
Na maioria dos casos de queda de satélite,
pouca coisa resiste à reentrada na atmosfera. "O material é calcinado e muitas
vezes vitrificado", afirma Souza.
Para o Bepposax, a ASI pinta um cenário um
pouco diferente. Por ter vários elementos compostos de aço inoxidável e titânio, as
peças do satélite resistiriam mais ao penoso processo de reentrada. Segundo os
italianos, cerca de 47% da massa do objeto chegará ao chão, espalhada por uns 42
pedaços. O peso do maior pedaço pode chegar a 120 kg.
Souza diz acreditar que eles estejam
exagerando. "Acho que é possível, mas altamente improvável", afirma. Os
italianos também dizem que os restos do satélite ainda podem ser tóxicos, contaminados
com material combustível (hidrazina). Mais uma vez, Souza levanta dúvidas: "[A
informação da ASI sobre hidrazina] é lacônica e incompleta", critica.
Mesmo no pior dos cenários, o episódio em
nada lembra a reentrada da estação espacial Mir, em 2001, que ocorreu de forma
controlada e que envolvia massa cerca de dez vezes maior (135 toneladas). Na ocasião, os
russo frearam intencionalmente o complexo para derrubá-lo com segurança sobre o oceano
Pacífico.
No caso do Bepposax, Souza acha que é válido
seguir a recomendação dada a quem quer que encontre um fragmento de lixo espacial: não
tocar, não levar como suvenir. "Podem existir superfícies cortantes, vitrificadas,
nos destroços".
A AEB está mobilizada. "Já tivemos duas
reuniões de trabalho com o pessoal da Defesa Civil, da Aeronáutica e da Marinha para
tratar do assunto", diz o brigadeiro Daniel Borges, presidente em exercício da
agência na ausência do recém-empossado Luiz Bevilacqua. "Estamos notificando os
governadores dos Estados e vamos divulgar uma nota oficial amanhã [hoje]", afirmou.
"Mas é importante ressaltar que os riscos de um impacto são mínimos."
(©
Folha de S. Paulo)
Para saber mais, visite o
site da ASI |