| Roberto Rossellini, ou a busca tenaz do
realismo |
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Autor tem quatro dos seus principais filmes lançados em caixa de DVDs
LUIZ ZANIN ORICCHIO
Não se pode viver sem Rossellini. A frase é de um
personagem do clássico de Bernardo Bertolucci, Antes da Revolução,mas poderia estar na
boca de qualquer jovem diretor - italiano ou brasileiro - que tenha resolvido fazer cinema
entre o fim dos anos 50 e começo dos 60. Esse cineasta fundamental tem quatro dos seus
principais filmes lançados em caixa pela Versátil: Roma - Cidade Aberta, Paisà,
Stromboli e Viagem à Itália.
O DVD de Roma vem com brinde especial - um documentário sobre Rossellini
produzido pela RAI, a televisão italiana. Bem informativo, traz depoimentos
interessantes, como o do filho, Renzo (ele vem ao Brasil para o CineCeará, que este ano
homenageia Rossellini), e de colegas de trabalho, como François Truffaut. O cineasta
francês (cujo universo estético não poderia ser mais distante do de Rossellini) fala
uma coisa engraçada, porém cheia de verdade, que ele diz ter ouvido de Eric Rohmer:
"A grande força de Rossellini vem da sua absoluta falta de imaginação."
Claro, é uma frase de efeito. Certeira, no entanto, pois Rossellini,
prossegue Truffaut, joga fora tudo o que for dispensável. Tem horror ao artifício, ao
penduricalho técnico, ao artificialismo. Faz cinema com os pés no chão, sem firulas. O
próprio Rossellini, em outra parte do documentário, declara ter ojeriza a todo aparato
midiático e mercadológico que cerca o cinema. Divas, orçamentos milionários,
badalação da imprensa, etc. - tudo isso o desagradava. Queria apenas fazer seu trabalho.
Mas "apenas" talvez não seja o termo mais adequado para definir
esses filmes em aparência tão despojados e, no fundo, bem ambiciosos. De fato, o
neo-realismo italiano foi uma das "escolas" mais marcantes da história do
cinema. Exerceu influência sobre e serviu de inspiração a todos os cinemas que
desejavam se renovar na virada dos anos 50 para os 60, como foi o caso do Cinema Novo no
Brasil. Os filmes precursores desse movimento (para muita gente a idade de ouro do cinema
brasileiro), Rio 40 Graus e Rio Zona Norte, ambos de Nelson Pereira dos Santos, são
ostensivamente tributários do neo-realismo. Além disso, outros cinemanovistas, como
Paulo Cezar Saraceni, estudaram no Centro Sperimentale di Roma, na época pólo difusor
das idéias neo-realistas.
Esse ideário no fundo era muito simples e significava filmar em
locações naturais, de preferência aos estúdios; dispensar estrelas dispendiosas e usar
no elenco gente do povo, atores não-profissionais; ater-se a temas do cotidiano, às
aflições e às esperanças da gente simples.
O momento era propício para isso. A Itália vivia a reconstrução do
pós-guerra. Superado o fascismo, acreditava-se no começo de um novo tempo. O cinema de
Rossellini procurava ajudar no processo digestivo desse passado traumático e preparava o
terreno para o que viria a seguir - isto é, aquilo que, confusamente, se pensava ser uma
sociedade mais justa. Quer dizer, foi um cinema de inclinação humanista. Em sua
intenção, digamos assim.
Na forma, era tentativa de aproximação mais cerrada com o realismo. Em
vez de libertar-se do real, buscava acercar-se dele. Como esse acercamento seria uma
tendência geral do cinema, pelo menos na visão de um crítico como André Bazin, o
neo-realismo seria progressivo e não um retorno a formas estéticas já superadas. Roma -
Cidade Aberta e Paisà são exemplos dessa disposição realista da narrativa. Aliás,
surpreendentemente, Bazin mostra como os filmes de Rossellini e colegas seriam a versão
mais perfeita, na dimensão do cinema, do romance realista norte-americano, de Dos Passos
a Hemingway.
Já em Stromboli e Viagem à Itália, Rossellini dá uma nova torção a
esse realismo. Neles, a relação da personagem (Ingrid Bergman, em ambos) com o ambiente
(a natureza e a cultura), traço constante de sua obra, ganha dimensão misteriosa. Mais
aguda, exasperada, quase metafísica. São filmes incomparáveis e que nada, ou quase
nada, sofreram com a passagem do tempo.
(© O
Estado de S. Paulo)
| Uma rigorosa demonstração |
'Teorema', de Pier Paolo Pasolini, também é lançado em cópia de DVD
Pier Paolo Pasolini (1922-1975) vem também do
veio neo-realista, mas cava seu caminho próprio. Teorema, em boa hora lançado em DVD, é
exemplo dessa obra original. Quando estreou, em 1968, parecia tão difícil de decifrar
quanto a pedra de Roseta. Hoje é cristalino, talvez até ingênuo. É que a passagem dos
anos forneceu ao espectador códigos de alegoria de que na época ele dispunha apenas
precariamente.
A história é toda uma parábola à moda
pasoliniana - meio marxista, meio cristã. Uma família muito rica recebe a visita de um
estranho e todos mudam com isso. O visitante (espécie de anjo laico da Anunciação) é
interpretado por Terence Stamp. Ele se relaciona, sexualmente, com cada um dos membros da
família: mãe, pai, filho e filha, não desprezando a empregada (Laura Betti) que,
aliás, goza do privilégio da primazia sobre os outros.
Depois que Stamp some, as pessoas tomam
caminhos diversos. O pai, um industrial de Milão, resolve doar a fábrica aos operários.
A mãe (Silvana Mangano) torna-se ninfomaníaca e caça homens pelas ruas. A filha é
atingida por uma estranha paralisia de tipo histérico. O filho resolve se expressar em
obras de qualidade duvidosa. E a empregada volta ao seu vilarejo e transforma-se em
milagreira.
Há alguma coisa de reichiano na maneira como
Pasolini se aproxima do tema.
Como Wilhelm Reich, ele parece acreditar que a
sexualidade tem poder subversivo. Aquelas pessoas, que levavam existência
"normal", perfeitamente organizada e vazia, são desestruturadas quando se
confrontam com o próprio desejo. O anjo vivido por Stamp é como um Eros moderno. Ele
desperta nas pessoas a consciência de sua própria insatisfação. Eles viviam
perfeitamente adaptados a uma vida de privações (apesar de ricos). Uma vez tendo provado
o prazer, e o perdido em seguida, se desmantelam. A mãe irá em vão tentar repetir a
experiência com outros homens - como se sabe, uma insatisfação primordial está na base
da ninfomania. O pai se despoja de tudo e, em cena simbólica, inclusive das próprias
roupas. A filha se reduz ao silêncio e o filho se expressa como o néscio que sempre foi.
Apenas a doméstica, a parte frágil da relação familiar, é tocada por algo como a
santidade.
Alberto Moravia, em texto sobre o filme,
propõe outra interpretação. Com essa pequena fábula, Pasolini teria apresentado, no
tempo ficcional de poucos dias, uma história de séculos, que seria a da
dessacralização da vida. Aqueles personagens perderam contato com Deus e afundaram no
materialismo moderno. Como se a alienação social equivalesse à dessacralização do
mundo, sendo esta um trabalho de séculos. Essa demonstração progride com o caráter
inexorável de um teorema. Daí o título dessa obra que talvez seja, do ponto de vista
formal, a mais rigorosa da filmografia de Pasolini. (L.Z.O.)
(© O
Estado de S. Paulo) |
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