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Uma história judia brota do pó italiano

Escavações em Venosa revelaram um candelabro para sete velas, o símbolo original dos judeus, esculpido numa laje encontrada em um espaço reservado para enterros

Historiadores desenterraram dezenas de sítios judaicos contendo artefatos, documentos, livros raros e manuscritos que datavam da época romana à Idade Média.

Por Andrée Brooks, de The New York Times

   Em Venosa, em meio às pastagens a cerca de 290 quilômetros ao sudeste de Roma, a poeira está se levantando. Trabalhadores escavam em meio às ruínas, embaixo da superfície de uma colina de rica vegetação. Resistentes vigas de madeira seguram uma entrada improvisada e um labirinto de corredores que acabaram de serem descobertos e levam a um antigo labirinto subterrâneo. Um arco de lâmpadas usadas em obras ilumina o caminho.

   Um arqueólogo excitado leva um visitante para uma mesa de madeira, onde está a descoberta feita na tarde anterior. É um candelabro para sete velas, o símbolo original dos judeus, esculpido numa laje encontrada em um espaço reservado para enterros. O entalhe é tão afiado e perfeito, que parece ter sido terminado ontem.

   A qualidade e a clareza prenunciam descobertas mais importantes que devem estar por vir. A catacumba é apenas um entre as dezenas de sítios, artefatos, documentos, livros raros e manuscritos judaicos que estão sendo descobertos, analisados e restaurados no sul da Itália e na Sicília.

   Este trabalho, realizado por acadêmicos e autoridades do governo, está começando a trazer à luz a história, em grande parte desconhecida, de vibrantes comunidades de judeus, desaparecidas há muito tempo, que habitaram a região desde a época romana até o final da Idade Média. Os judeus foram expulsos no século 16 do sul da Itália, conhecido como o reino de Nápoles. Poucos voltaram, mesmo depois que a proibição foi abolida, no século 18. Historiadores ligados às escavações acreditam que a catacumba pode ser a maior já encontrada na Europa Ocidental.

   Centenas de nichos já foram limpos. Os ossos foram saqueados ou enterrados de acordo com as normas dos rituais. É incrível que as inscrições nas lajes dos enterros encontradas até agora sejam quase totalmente em grego. Há pouco ou quase não há nada em hebreu. Quando este idioma é usado, as letras expressam palavras gregas ou latinas. Na época, tanto o grego como o latim eram usados naquela parte da Itália.

   Isso sugere que possa ter havido uma vida assimilada para os judeus, que devem ter vivido nos arredores de Venosa, entre os séculos 3 e 7 D.C. "Nossos judeus não viviam separados dos demais naqueles primeiros séculos", afirma Cesare Colafemmia, professor visitante de língua e literatura hebraica na Universidade da Calábria.

   Documentos indicam que o imperador Tito trouxe 5 mil cativos para a região depois da destruição do Segundo Templo, em Jerusalém, no ano 70 D.C., diz Colafemmina. No entanto, imagina-se que um número muito maior teria se estabelecido aqui antes e depois daquela época, simplesmente porque a região era um importante entreposto do comércio marítimo. E os judeus tiveram um papel vital no comércio do Mediterrâneo. Por volta do final do século 4, muitas cidades eram dominadas pelos judeus. Eles até tornaram-se líderes políticos e comunitários, afirma.

   A maioria dos acadêmicos judeus de hoje tem tido pouco interesse sobre os judeus da região, porque virtualmente nenhum deles entende os laços que eles tinham com aquele povo, disse Yom Tov Assis, professor de História Medieval Judaica na Universidade Hebraica de Jerusalém, e presidente acadêmico do Centro Internacional para o Ensino da Civilização Judaica, ligado à Universidade Hebraica.

   O descaso tem sido grande, embora alguns historiadores considerem que alguns dos judeus do sul da Itália tenham sido os ancestrais dos primeiros que se estabeleceram no norte e no leste da Europa. Com muita freqüência, diz Assis, "estudamos a história judaica apenas com base na nossa própria história de família ou baseado em algo que aconteceu conosco".

   O atual trabalho está sendo feito, em grande parte, por acadêmicos italianos que não são judeus. Eles consideram este pedaço da história como parte integral dos primórdios da história da península italiana e do comércio europeu.

   O caráter de destaque deste trabalho é confirmado pelas palavras, sempre citadas, do rabino Tam, neto de Rashi, um famoso rabino francês do século 11. "A partir de Bari, a Torá vai seguir adiante", observou o rabino Tam, parafraseando a escritura, "e a palavra de Deus de Taranto". Bari e Taranto eram portos importantes na região.

   Existem registros fascinantes desse passado. Há, por exemplo, um túmulo do século 1 D.C. em mármore travertino, que agora se encontra no subsolo do Museu Nacional Arqueológico de Nápoles, e é mais um exemplo da vibrante vida judaica que havia aqui durante o primeiro milêmio. O túmulo foi descoberto em 1996, nos depósitos do museu, por Giancarlo Lacerenza, do Instituto Oriental de Nápoles, e especialista em história do Oriente Próximo. A inscrição em latim é considerada pelos acadêmicos como a primeira prova arqueológica da saga dos cativos judeus, que estavam sendo levados pelos romanos de Jerusalém para a Itália, no final do século 1 D.C.

   Esta é a inscrição da sepultura de Claudia Aster, uma judia de 25 anos levada para a região, provavelmente quando criança, e vendida como escrava doméstica. Na inscrição está escrito: "Claudia Aster, cativa de Jerusalém. Tiberius Claudius Proculus, homem que viveu na época do império e foi liberto, cuidou deste epitáfio. Peço-lhes que assegurem, por lei, que ninguém danifique minha inscrição."

   Escrito no plural e dirigido a todos os habitantes da região, ou aos viajantes que passavam pelas redondezas, Lacerenza diz que a inscrição parecia ser um pedido bem elaborado para que a inscrição merecesse cuidados e ficasse protegida. Embora outros apelos desse tipo tenham sido encontrados em outros túmulos, é possível que Claudia não quisesse que a história esquecesse que ela e seu povo foram aprisionados. E seu mestre romano deve ter satisfeito seus desejos, possivelmente porque ele se apaixonou por ela ou se casou com ela. Lacerenza disse que Aster pode ter sido uma versão latina ou grega do nome judaico Esther. Claudia, afirmam outros historiadores, pode ter sido o nome que lhe foi dado porque ela trabalhava na casa de alguém chamado Claudius.

   Na Biblioteca Nacional de Nápoles, no majestoso Palazo Reale, parece que há um novo interesse em criar novos locais de exposição para a praticamente desconhecida coleção de antigos manuscritos e incunábulos hebraicos, que antigamente ficava guardada. Provavelmente, esta é a maior coleção do gênero, em toda a Itália. Muitos dos manuscritos foram originalmente adquiridos da Biblioteca Farnese, a biblioteca pessoal do papa Paulo III (1468-1549).

   Nápoles era um grande centro de produção de livros judaicos durante o século 15. O sul da Itália havia sido considerado um dos primeiros centros de cultura judaica na Europa, o que a transformou em um centro para esse tipo de tesouro.

   Há muitos sinais sobre os primórdios da vida judaica na Sicília, sobretudo em Siracusa, antigamente o antigo porto grego de Siracuse. Os arquivos mostram que as casas luxuosas eram de propriedade dos judeus. No antigo bairro judeu há uma piscina usada para rituais, a mikvah, dividida em cinco piscinas separadas, e não em uma única em comum, como era usual. Ela foi recentemente restaurada. Duas delas ficam escondidas dentro de alcovas particulares, que podem ter sido para aqueles que podiam se permitir a tal luxo. Mesmo assim, todas as cinco são ligadas entre si e conectadas a uma fonte comum de água corrente, tal como exigido pela lei judaica. Os arqueólogos dizem que o estilo indica haver uma origem romana ou bizantina.

   A cerca de 200 quilômetros de Siracusa, no vilarejo de Agira, em meio às montanhas, uma arca sagrada de pedra entalhada, de 1454, foi retirada de um local onde costumava existir uma sinagoga e levada para dentro de uma igreja normanda nas proximidades, para ficar conservada e ser exposta até que a sinagoga possa ser restaurada. A arca conserva rolos de pergaminho da Torá.

   Assis diz que a arca é de origem catalã, possivelmente decorada por judeus locais que fugiam da Catalunha durante as perseguições de meados do século 15. Nessa época, a Sicília também era governada por monarcas catalães, mas eles eram mais tolerantes que seus conterrâneos da Espanha. A ilha era um paraíso porque era próspera e sempre havia sido meta dos comerciantes judeus que vinham de todo o Mediterrâneo. Os acadêmicos afirmaram que uma arca tão antiga como essa é uma descoberta rara. As arcas eram normalmente feitas de madeira, e um exemplar em pedra é considerado impressionante e raro. (Tradução: Adriana Marcolini)

(© Maga.Zine/O Estado de S. Paulo)

Para saber mais sobre o judaísmo e a Itália

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