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Sonhos e conflitos nos pavilhões de Veneza

Uma visitante passa por uma escultura de Charles Ray/ Reuters

Daniela Name

   A 50ª edição da Bienal de Veneza estará aberta até o dia 2 de novembro, com o nome “Sonhos e conflitos: a ditadura do espectador”. O italiano Francesco Bonami, que trabalha no Museu de Arte Contemporânea de Chicago, é o curador desta edição, que traz mais de 70 pavilhões, com 380 artistas dos cinco continentes, espalhados por diversos pontos da cidade. Segundo os organizadores, trata-se de uma “Exibição das exibições”, que ocupa as sedes tradicionais da Bienal e incluem novos locais, principalmente na seção Interlúdios, o que torna esta a maior de todas as edições da Bienal.

Outras cidades italianas têm postos da Bienal

   A exposição também está fora dos limites de Veneza: foi criada uma conexão, batizada de “túnel”, que espalha postos da Bienal por diversas cidades italianas. O projeto veio da idéia de Bonami de ligar a arte à arquitetura.

   Segundo o curador, o grande desafio do evento este ano é usar suas características para montar um exposição que represente tudo o que se vê no mundo das artes contemporâneas. Para isso, a Bienal está dividida em projetos diferentes, cada um com suas próprias identidade e anatomia.

   A arte italiana ganha mais equilíbrio, especialmente no Giardini. Este é o espaço para as instalações, onde artistas jovens estarão exibindo seus trabalhos. O Pavilhão de Veneza será o palco do prêmio de Revelação da Bienal.

   No Museu Correr, por exemplo, que pela primeira vez colabora com o Museu Municipal de Veneza e com a Bienal, uma exposição, “Painting”, com a participação do Brasil, retrata a pintura de 1964 até hoje, com mais de 40 trabalhos de alguns dos artistas mais importantes da idade contemporânea.

   Os países da América Latina estão presentes com pavilhões nacionais e mais um do Instituto Ítalo-Latino-Americano (ILA), sediado em Roma. A participação do Brasil cresceu ainda mais em relação à última edição. Além do Pavilhão Brasileiro, organizado pela Fundação Bienal de São Paulo — que conta com exposições de Beatriz Milhazes e Rosangela Rennó, sob a curadoria de Alfons Hug — o país tem forte presença no Arsenale, a maior exposição do evento. É lá que estão obras de Cildo Meireles, Lygia Pape, Marepe, Fernanda Gomes, Rivane Neuenschwander e Alexandre da Cunha, na maior representatividade nacional na história da mostra.

   — O Brasil é hoje o país com maior presença em Veneza depois da Itália. Isso se dá não só por causa da grande força da nossa arte contemporânea, mas também por causa de um trabalho cuidadoso que estamos fazendo da imagem do país — diz Edemar Cid Ferreira, presidente da Brasil Connects, que patrocina a delegação brasileira no Arsenale.

Pintora reúne o delírio e o conflito de vários mundos

   Já Beatriz Milhazes está enviando para Veneza oito telas. As obras serão expostas tendo como fundo uma parede amarela, cor escolhida pela própria artista.

   — Minha obra tem um lado de delírio, de algo surreal e, portanto, de sonho, mas tem o conflito de mundos diferentes — diz Beatriz.

   Rosângela apresenta 16 fotos da “Série vermelha”, com antigos retratos de militares que se diluem num fundo vermelho, ensangüentado.

   — Alfons Hug escolheu esta série porque achava que seria um bom contraponto com as obras da Beatriz Milhazes — diz Rosângela, que, embora exponha pela primeira vez no Pavilhão Brasileiro, já tinha levado seus trabalhos a Veneza em 1993, em mostra paralela. — Esta série é muito pertinente dentro da Bienal porque o meu trabalho está muito ligado a temas como a violência e a questões sociais.

   Os trabalhos de Rosângela e Beatriz foram escolhidos porque, segundo Hug, também curador da próxima Bienal de São Paulo, encaixam-se perfeitamente ao conceito geral da Bienal — “Sonhos e conflitos”. Em seu texto para o catálogo, ele relaciona a obra de Rosângela ao “Inferno” e a de Beatriz ao “Paraíso” da “Divina comédia”, de Dante.

(© O Globo On Line)

Bienal de Veneza propõe visão plural da arte

A maior exposição internacional de arte contemporânea amplia espaços e fragmenta curadorias, criando um panorama multifacetado e enriquecedor; ao todo participam 265 artistas, de 64 países, e a participação brasileira é a mais numerosa dos últimos tempos

ANGÉLICA DE MORAES
Especial para o Estado

  VENEZA - A 50.ª Bienal de Veneza começa oficialmente hoje e permanece em cartaz até 2 de novembro fazendo valer sua hegemonia. Sob o título Sonho e Conflito: A Ditadura do Espectador, ela abdica da utopia de um discurso unificado (tarefa cada vez mais difícil diante do gigantismo do evento) e fraciona-se em 12 curadorias oficiais. Esta é a estratégia do curador-geral Francesco Bonami para garantir sintonia fina das artes visuais com um mundo cada vez mais atomizado e plural, fraturado por conflitos e expandido pela velocidade da informação eletrônica.

   Não linear, randômica, gigantesca, a estrutura desta bienal se estende por uma geografia urbana medieval mas aproxima-se do arcabouço mental desenvolvido pela humanidade a partir de sua crescente interação com a inteligência artificial. Assim como na navegação da internet, cada curadoria é um hipertexto que ramifica-se em um mundo de informações-obras.

   Ao todo, somados os 29 pavilhões nacionais dos Giardini e a enorme área histórica anexa, recuperada dos estaleiros da marinha, o público poderá ver trabalhos de 265 artistas de 64 países. Há um cardápio de grandes nomes, entre eles: Andrea Zittel, Olafur Eliasson, Franz Ackermann, Matthew Barney, Damien Hirst, Robert Gober, Fischli & Weiss e grupo Art & Language.

   A presença brasileira nessas curadorias oficiais é a mais numerosa dos últimos tempos. Francesco Bonami escolheu a mineira Rivane Neuenschwander para o elenco da mostra Atrasos e Revoluções, situado no pavilhão Itália dos Giardini. O curador argentino radicado em Nova York Carlos Basualdo selecionou para sua mostra A Estrutura da Sobrevivência, no Arsenale, os cariocas Alexandre da Cunha, Cildo Meireles, Fernanda Gomes e Hélio Oiticica, além do baiano Marepe. O pavilhão brasileiro apresenta a pintora carioca Beatriz Milhazes e a artista multimeios mineira Rosângela Rennó, sob curadoria de Alfons Hug.

   Embora o júri ainda não tenha divulgado todos os vencedores, já foram anunciados dois Leões de Ouro, pelo conjunto da obra, para os italianos Carol Rama e Michelangelo Pistoletto. Carol Rama, de 85 anos, é uma espécie de Louise Bourgeois mediterrânea, com uma obra irrequieta e iconoclasta que aborda a sexualidade feminina sem tabus. Pistoletto é uma das figuras centrais da arte povera, movimento de arte surgido na Itália nos anos 60 e que utiliza materiais comuns e perecíveis. Ironicamente, porém, ficou mais conhecido por suas "pinturas-espelho", com figuras humanas em tamanho natural aplicadas sobre luxuosas lâminas de aço polido.

   Mais antiga mostra periódica de artes visuais do mundo (teve início em 1895), modelo para todas as demais que se multiplicaram desde então em diversos pontos do planeta, a Bienal de Veneza atinge dimensões inéditas em sua 50.ª edição. Há 108 anos, começou ocupando apenas três mil metros quadrados do que hoje é o Pavilhão Itália. Em 2003, a Bienal alastrou-se para limites inéditos.

   Engloba em seu território não apenas os 29 pavilhões nacionais dos Giardini di Castello e as enormes edificações e áreas históricas do século 14, restauradas e adaptadas para salas expositivas nas duas bienais anteriores (Corderie, Artiglierie, Gaggiandre e Tese). Soma agora outra larga fatia, conhecida como Isolotto e Tese delle Vergine. A Bienal se estende também, como nas últimas edições, ao Museu Correr, no coração da cidade, na Piazza San Marco.

   Diante dessas dimensões desafiadoras e confrontado com o pouco tempo para organizar a bienal, Bonami escolheu o caminho da prudência, tratando de dividir as tarefas curatoriais com um time de colegas, entre eles os veteranos Hans-Ulrich Obrist e Catherine David. Bonami, um experiente curador florentino radicado nos Estados Unidos desde 1987, é curador sênior do Museu de Arte Contemporânea de Chicago e integrou o comitê curatorial da 1.ª Trienal de Yokohama (2001), ambiciosa e bem-sucedida iniciativa japonesa de ingressar no circuito principal de mostras internacionais de arte contemporânea.

   Apesar do estardalhaço da retórica de Bonami, ele não colocou em xeque a função curatorial: apenas fracionou e expandiu essa função. Não pode sequer reivindicar originalidade nessa estratégia. Há exatamente uma década, o curador-geral Achille Bonito Oliva convidou diversos curadores para organizar o Aperto, mostra paralela de arte jovem iniciada na bienal de 1993. Marketing pessoal à parte, Bonami não reivindicou uma quebra de função do curador, como alguns mais apressados concluíram, mas sim delegou funções.

   O público tem muito a ganhar com este panorama multifacetado. Por um lado, escapa de expansões por vezes abusivas de um único tema tipo guarda-chuva, que não chega a abrigar corretamente todos os envolvidos. Por outro, torna possível reflexões pontuais e concentradas sobre assuntos de relevância.

   Descontada a sociologia fundamentalista de Catherine David e sua curadoria Representações Árabes Contemporâneas (que discriminou e excluiu desse universo islâmico sua expressão mais famosa: a artista iraniana Shirin Neshat), o espectro de temas e elencos é bastante amplo e arejado, com acento especial na reflexão sobre as conseqüências do acirramento das guerras e dos conflitos Oriente-Ocidente.

   Uma das mostras com maior frescor e interesse é A Zona, curada pelo jovem crítico italiano Massimiliano Gioni, que selecionou um talentoso grupo de conterrâneos para tratar dos movimentos migratórios e do papel da Itália na geopolítica européia. É também de inspiração política o título (mas não a maioria das obras) da coletiva Clandestinos, de Bonami, no Arsenale.

   Escapa desse viés a mostra Pintura: De Rauschenberg a Murakami. Centrada na discussão das transformações ocorridas na pintura desde a arte pop até a flat painting (pintura plana) do japonês Takashi Murakami, essa mostra será apresentada em São Paulo em janeiro de 2004, na Oca do Ibirapuera.

   O conjunto de atrações visuais de Veneza 2003 completa-se com 19 mostras paralelas, com destaque para uma instalação de Ilya Kabakov na Fundazione Querini Stampalia; a Limbo Zone, com quatro artistas coreanos no Palazzo delle Prigione; e a coletiva Italian Factory (Fábrica Italiana), de jovens artistas italianos. Um caleidoscópio de imagens, sob o verão mediterrâneo.

(© O Estado de S. Paulo)


'Pittura/Painting' chega em janeiro

Brasil Connects faz acordo para trazer mostra de Veneza com 50 artistas contemporâneos

JOTABÊ MEDEIROS

  Depois dos artefatos milenares da China e do acervo da Tate Gallery, a questão da pintura contemporânea. A Brasil Connects anunciou anteontem na Itália um acordo com a mostra de artes visuais da Bienal de Veneza para trazer ao País a exposição Pittura/Painting: From Rauschenberg to Murakami - 1964-2003.

   A exposição será a cereja do bolo do aniversário de São Paulo. Será aberta no dia 25, aniversário de 450 anos da cidade, na Oca do Ibirapuera. Ela traça um painel da pintura contemporânea com obras de 50 artistas, reunidos sob a curadoria do italiano Francesco Bonami - também curador da Bienal de Veneza.

   "A idéia é organizar uma ação forte de educação em cima da arte contemporânea", disse o presidente da Brasil Connects, Edemar Cid Ferreira.

   Ele assinou o contrato com a Bienal de Veneza e agora vai em busca dos US$ 550 mil que estima gastar para instalar a exposição em janeiro, em São Paulo.

   Em Veneza, a exposição é patrocinada pela empresa Louis Vuitton em parceria com a Biennale. Cada um dos parceiros gastou US$ 150 mil na sua instalação.

   No Brasil, a mostra ainda não tem um patrocinador.

   A exposição conta um pouco do que tem sido a Bienal de Veneza nestes anos recentes. Na exposição de 1964, Robert Rauschenberg foi quem levou o prêmio de artista estrangeiro. Ali, debatia-se a crise da pintura do pós-guerra. A resposta à questão do impasse vem sendo reformulada continuamente desde então por gente como Jasper Johns, Lucio Fontana, Andy Warhol, Francesco Clemente, Jean-Michel Basquiat, Lucian Freud, Alberto Burri e Takashi Murakami - ironicamente, o artista que desenhou uma bolsa para o patrocinador, a companhia Louis Vuitton.

   Edemar Cid Ferreira também sepultou na tarde de quinta-feira com as últimas esperanças de itinerância da mostra Guerreiros de Xi'an - Tesouros da Cidade Proibida, que terminou no domingo em São Paulo. Esperava-se que ela fosse para o Paraná. "Requião (o governador do Paraná, Roberto Requião) me ligou ontem e eu passei um fax para a China, pedindo autorização ao Palace Museum.

   Mas eles negaram. Têm outros compromissos já agendados, na França e em Nova York. Na última hora, nunca dá certo."

(© O Estado de S. Paulo)

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