A maior exposição internacional de arte
contemporânea amplia espaços e fragmenta curadorias, criando um panorama multifacetado e
enriquecedor; ao todo participam 265 artistas, de 64 países, e a participação
brasileira é a mais numerosa dos últimos tempos
ANGÉLICA DE MORAES
Especial para o Estado
VENEZA - A 50.ª Bienal de Veneza começa oficialmente hoje e permanece em cartaz
até 2 de novembro fazendo valer sua hegemonia. Sob o título Sonho e Conflito: A Ditadura
do Espectador, ela abdica da utopia de um discurso unificado (tarefa cada vez mais
difícil diante do gigantismo do evento) e fraciona-se em 12 curadorias oficiais. Esta é
a estratégia do curador-geral Francesco Bonami para garantir sintonia fina das artes
visuais com um mundo cada vez mais atomizado e plural, fraturado por conflitos e expandido
pela velocidade da informação eletrônica.
Não linear, randômica, gigantesca, a
estrutura desta bienal se estende por uma geografia urbana medieval mas aproxima-se do
arcabouço mental desenvolvido pela humanidade a partir de sua crescente interação com a
inteligência artificial. Assim como na navegação da internet, cada curadoria é um
hipertexto que ramifica-se em um mundo de informações-obras.
Ao todo, somados os 29 pavilhões nacionais
dos Giardini e a enorme área histórica anexa, recuperada dos estaleiros da marinha, o
público poderá ver trabalhos de 265 artistas de 64 países. Há um cardápio de grandes
nomes, entre eles: Andrea Zittel, Olafur Eliasson, Franz Ackermann, Matthew Barney, Damien
Hirst, Robert Gober, Fischli & Weiss e grupo Art & Language.
A presença brasileira nessas curadorias
oficiais é a mais numerosa dos últimos tempos. Francesco Bonami escolheu a mineira
Rivane Neuenschwander para o elenco da mostra Atrasos e Revoluções, situado no pavilhão
Itália dos Giardini. O curador argentino radicado em Nova York Carlos Basualdo selecionou
para sua mostra A Estrutura da Sobrevivência, no Arsenale, os cariocas Alexandre da
Cunha, Cildo Meireles, Fernanda Gomes e Hélio Oiticica, além do baiano Marepe. O
pavilhão brasileiro apresenta a pintora carioca Beatriz Milhazes e a artista multimeios
mineira Rosângela Rennó, sob curadoria de Alfons Hug.
Embora o júri ainda não tenha divulgado
todos os vencedores, já foram anunciados dois Leões de Ouro, pelo conjunto da obra, para
os italianos Carol Rama e Michelangelo Pistoletto. Carol Rama, de 85 anos, é uma espécie
de Louise Bourgeois mediterrânea, com uma obra irrequieta e iconoclasta que aborda a
sexualidade feminina sem tabus. Pistoletto é uma das figuras centrais da arte povera,
movimento de arte surgido na Itália nos anos 60 e que utiliza materiais comuns e
perecíveis. Ironicamente, porém, ficou mais conhecido por suas
"pinturas-espelho", com figuras humanas em tamanho natural aplicadas sobre
luxuosas lâminas de aço polido.
Mais antiga mostra periódica de artes visuais
do mundo (teve início em 1895), modelo para todas as demais que se multiplicaram desde
então em diversos pontos do planeta, a Bienal de Veneza atinge dimensões inéditas em
sua 50.ª edição. Há 108 anos, começou ocupando apenas três mil metros quadrados do
que hoje é o Pavilhão Itália. Em 2003, a Bienal alastrou-se para limites inéditos.
Engloba em seu território não apenas os 29
pavilhões nacionais dos Giardini di Castello e as enormes edificações e áreas
históricas do século 14, restauradas e adaptadas para salas expositivas nas duas bienais
anteriores (Corderie, Artiglierie, Gaggiandre e Tese). Soma agora outra larga fatia,
conhecida como Isolotto e Tese delle Vergine. A Bienal se estende também, como nas
últimas edições, ao Museu Correr, no coração da cidade, na Piazza San Marco.
Diante dessas dimensões desafiadoras e
confrontado com o pouco tempo para organizar a bienal, Bonami escolheu o caminho da
prudência, tratando de dividir as tarefas curatoriais com um time de colegas, entre eles
os veteranos Hans-Ulrich Obrist e Catherine David. Bonami, um experiente curador
florentino radicado nos Estados Unidos desde 1987, é curador sênior do Museu de Arte
Contemporânea de Chicago e integrou o comitê curatorial da 1.ª Trienal de Yokohama
(2001), ambiciosa e bem-sucedida iniciativa japonesa de ingressar no circuito principal de
mostras internacionais de arte contemporânea.
Apesar do estardalhaço da retórica de
Bonami, ele não colocou em xeque a função curatorial: apenas fracionou e expandiu essa
função. Não pode sequer reivindicar originalidade nessa estratégia. Há exatamente uma
década, o curador-geral Achille Bonito Oliva convidou diversos curadores para organizar o
Aperto, mostra paralela de arte jovem iniciada na bienal de 1993. Marketing pessoal à
parte, Bonami não reivindicou uma quebra de função do curador, como alguns mais
apressados concluíram, mas sim delegou funções.
O público tem muito a ganhar com este
panorama multifacetado. Por um lado, escapa de expansões por vezes abusivas de um único
tema tipo guarda-chuva, que não chega a abrigar corretamente todos os envolvidos. Por
outro, torna possível reflexões pontuais e concentradas sobre assuntos de relevância.
Descontada a sociologia fundamentalista de
Catherine David e sua curadoria Representações Árabes Contemporâneas (que discriminou
e excluiu desse universo islâmico sua expressão mais famosa: a artista iraniana Shirin
Neshat), o espectro de temas e elencos é bastante amplo e arejado, com acento especial na
reflexão sobre as conseqüências do acirramento das guerras e dos conflitos
Oriente-Ocidente.
Uma das mostras com maior frescor e interesse
é A Zona, curada pelo jovem crítico italiano Massimiliano Gioni, que selecionou um
talentoso grupo de conterrâneos para tratar dos movimentos migratórios e do papel da
Itália na geopolítica européia. É também de inspiração política o título (mas
não a maioria das obras) da coletiva Clandestinos, de Bonami, no Arsenale.
Escapa desse viés a mostra Pintura: De
Rauschenberg a Murakami. Centrada na discussão das transformações ocorridas na pintura
desde a arte pop até a flat painting (pintura plana) do japonês Takashi Murakami, essa
mostra será apresentada em São Paulo em janeiro de 2004, na Oca do Ibirapuera.
O conjunto de atrações visuais de Veneza
2003 completa-se com 19 mostras paralelas, com destaque para uma instalação de Ilya
Kabakov na Fundazione Querini Stampalia; a Limbo Zone, com quatro artistas coreanos no
Palazzo delle Prigione; e a coletiva Italian Factory (Fábrica Italiana), de jovens
artistas italianos. Um caleidoscópio de imagens, sob o verão mediterrâneo.
(©
O Estado de S. Paulo)
'Pittura/Painting' chega em janeiro
Brasil Connects faz acordo para trazer
mostra de Veneza com 50 artistas contemporâneos
JOTABÊ MEDEIROS
Depois dos artefatos milenares da China e do
acervo da Tate Gallery, a questão da pintura contemporânea. A Brasil Connects anunciou
anteontem na Itália um acordo com a mostra de artes visuais da Bienal de Veneza para
trazer ao País a exposição Pittura/Painting: From Rauschenberg to Murakami - 1964-2003.
A exposição será a cereja do bolo do
aniversário de São Paulo. Será aberta no dia 25, aniversário de 450 anos da cidade, na
Oca do Ibirapuera. Ela traça um painel da pintura contemporânea com obras de 50
artistas, reunidos sob a curadoria do italiano Francesco Bonami - também curador da
Bienal de Veneza.
"A idéia é organizar uma ação forte
de educação em cima da arte contemporânea", disse o presidente da Brasil Connects,
Edemar Cid Ferreira.
Ele assinou o contrato com a Bienal de Veneza
e agora vai em busca dos US$ 550 mil que estima gastar para instalar a exposição em
janeiro, em São Paulo.
Em Veneza, a exposição é patrocinada pela
empresa Louis Vuitton em parceria com a Biennale. Cada um dos parceiros gastou US$ 150 mil
na sua instalação.
No Brasil, a mostra ainda não tem um
patrocinador.
A exposição conta um pouco do que tem sido a
Bienal de Veneza nestes anos recentes. Na exposição de 1964, Robert Rauschenberg foi
quem levou o prêmio de artista estrangeiro. Ali, debatia-se a crise da pintura do
pós-guerra. A resposta à questão do impasse vem sendo reformulada continuamente desde
então por gente como Jasper Johns, Lucio Fontana, Andy Warhol, Francesco Clemente,
Jean-Michel Basquiat, Lucian Freud, Alberto Burri e Takashi Murakami - ironicamente, o
artista que desenhou uma bolsa para o patrocinador, a companhia Louis Vuitton.
Edemar Cid Ferreira também sepultou na tarde
de quinta-feira com as últimas esperanças de itinerância da mostra Guerreiros de Xi'an
- Tesouros da Cidade Proibida, que terminou no domingo em São Paulo. Esperava-se que ela
fosse para o Paraná. "Requião (o governador do Paraná, Roberto Requião) me ligou
ontem e eu passei um fax para a China, pedindo autorização ao Palace Museum.
Mas eles negaram. Têm outros compromissos já
agendados, na França e em Nova York. Na última hora, nunca dá certo."
(© O
Estado de S. Paulo) |