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A pesquisadora Neyde
Veneziano conviveu durante um ano com o vencedor do Nobel de 1997
UBIRATAN BRASIL
O
performer Roberto Birindelli utilizou diversas formas de pesquisa para compor sua
atuação em Il Primo Miracolo, espetáculo-solo em cartaz no Centro Cultural São Paulo.
O mais importante foi um contato com o próprio autor do texto, o italiano Dario Fo,
vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1997. "Passamos uma tarde inteira
conversando sobre seu trabalho, o que foi muito recompensador", explica. A mesma
sensação teve a pesquisadora santista Neyde Veneziano que, durante um ano, em Milão, se
debruçou sobre a obra do autor italiano, pesquisando o acervo da Companhia Fo Rame,
acompanhando ensaios e palestras, vendo vídeos e assistindo a espetáculos. O resultado
de tamanho empenho está no livro A Cena de Dario Fo - O Exercício da Imaginação,
editado pela Códex.
Logo no início do trabalho, Neyde percebeu
que não seria fácil sintetizar o trabalho do ganhador do prêmio Nobel. "Sua
peculiar metodologia parece se basear nos antigos sistemas familiares, na ciência dos
fabuladores, no saber das coisas palpáveis, cujo discurso é fundamentalmente
antiacadêmico", escreve a pesquisadora. "Para Dario, o que importa é a
experiência concreta. Com relação aos objetos e pessoas, ele diz necessitar tocá-los
para entendê-los."
A observação de tal método produziu
importantes conclusões. Neyde Veneziano descobriu, por exemplo, que a cena é
determinante na criação do texto de Dario Fo, que prefere não se apresentar como um
dramaturgo que se nutre apenas do momento, do improviso e dos códigos do teatro
tradicional. "Seus textos são absolutamente dependentes da cena", comenta a
pesquisadora. "Para uma série de situações, ele vai sobrepor outras em cena, até
chegar à hipérbole dessas situações e do absurdo delas."
No teatro de Dario Fo, os personagens nascem
diretamente da situação, não sendo concebidos antes. "A história é, em primeira
instância, uma história e não um texto de teatro." Ao acompanhar o trabalho do
dramaturgo e de sua mulher, Franca Rame, Neyde notou que os diálogos são escritos, mas
não pelo autor profissional, mas pelo "homem de teatro".
Política - A importância de cada
palavra também tem seu peso, pois os textos de Fo têm um face política, fortemente
ligada à sua personalidade, e uma artística, renovadora e voltada ao passado.
"Durante todo meu 'estágio' na Itália,
deparei-me com um sólido e generalizado conceito, de que o empenho político de Dario e
Franca se confunde com sua forma de fazer teatro. Eles usam o teatro como poderosa arma na
batalha social."
E a estética surge coerente com esses ideais.
Fo constrói uma obra na qual se inserem manifestações populares, que surgem como
depositárias de certas técnicas específicas de criação. E, para compreender esse
trabalho, Neyde acredita que é preciso descobrir a forma como o dramaturgo se insere em
seu microcosmo.
A pesquisadora decidiu, então, narrar
cronologicamente a história de Fo para entender a essência de seu teatro que, por
extensão, é a essência do próprio livro. "Dario usou o modelo medieval e todo os
antigos para ficar moderno.
Aproveitou e roubou os truques dos velhos
atores. Incorporou a tecnologia.
Acostumou-se a jogar fora uma frase para, em
seguida, retomar a interpretação com outra fala mais forte. Não parou nunca."
O trecho final do livro, aliás, é uma feliz
tentativa de construir uma imagem do dramaturgo a partir de negativas. "Dario não se
preocupa em repetir os truques que estão funcionando. Não esconde que o improviso é
preparador. Não admite a vulgaridade, mas não nega nem rejeita a sensualidade. Não faz
gozação, não faz caricaturas, ainda que ironize o tempo todo. E não se esqueceu de rir
nos momentos mais difíceis para depois fazer deles uma peça de teatro."
A Cena de Dario Fo - O Exercício da Imaginação. De
Neyde Veneziano. Editora Códex, 232 páginas, R$ 32
(© O
Estado de S. Paulo)
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