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Presidente italiano ratifica lei que outorga imunidade a Berlusconi

da France Presse, em Roma

   O presidente italiano, Carlo Azeglio Ciampi, ratificou a lei que outorga imunidade durante seu mandato aos cinco principais representantes do Estado.

   O primeiro efeito desta nova disposição será a suspensão do atual julgamento do chefe de governo, Silvio Berlusconi, por corrupção.

   Berlusconi, proprietário de uma das maiores holdings do país, é acusado desde março de 2000 de corrupção de magistrados durante uma operação industrial em 1985.

   Ciampi ratificou ontem o texto da nova lei aprovada na quarta-feira (18) pelo Parlamento. A disposição foi firmada depois pelo ministro da Justiça, Roberto Castelli, e transmitida ao "Diário Oficial" para sua publicação.

   Dois ex-presidentes da Itália e vários juristas colocaram em dúvida a constitucionalidade da disposição, que também provocou uma onda de indignação no país.

(© Folha Online)


REPÚBLICA DA PIZZA

   Um dos homens mais ricos de um país do Primeiro Mundo é também seu dirigente. Pesam contra ele gravíssimas acusações, que incluem lavagem de dinheiro, cumplicidade em assassinato, conexões com a Máfia, evasão de impostos e corrupção. Para evitar, porém, que o líder sofra uma condenação num momento em que ele estará em grande evidência mundial, seus aliados no Parlamento aprovam a toque de caixa uma lei que lhe confere imunidade, ainda que provisória.

   Se isso tivesse acontecido num país de Terceiro Mundo como o Brasil, o rótulo "república de bananas" lhe seria impiedosamente pespegado. Como a nação onde se deram esses extraordinários acontecimentos é rica e faz parte do Primeiro Mundo, recebe um tratamento bem mais tolerante por parte da comunidade e da mídia internacionais.

   Só que essa interpretação mais branda não é capaz de apagar o caráter escandaloso do casuísmo que o Parlamento italiano aprovou para proteger o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que também acumula o posto de magnata da mídia local.

   Seria por certo um exagero afirmar que, com a aprovação da imunidade para Berlusconi, a Itália deixa de ser um país democrático, mas, por outro lado, parece evidente que as instituições locais, em especial a Justiça, saem abaladas do episódio.

   Essa não é a única contradição envolvendo o governo de Berlusconi. Como cidadão, ele é dono de fato -recentemente, transferiu a propriedade de alguns de seus negócios a familiares- de vários jornais e de três emissoras de TV. Como chefe de governo, comanda as emissoras públicas. Isso basta para lhe dar o controle de pelo menos 90% das TVs do país. A pergunta que fica é se, sob essas condições, resta espaço para a legítima crítica, um dos pilares da democracia. O fenômeno Berlusconi revela que a riqueza material não é garantia de instituições sólidas ou escolhas políticas sábias. Isso não deixa de ser um consolo para o Brasil.

(© Editorial/Folha de S. Paulo)

Parlamento italiano vota a imunidade para Silvio Berlusconi

O Parlamento italiano aprovou o principal artigo de um projeto de lei que garante a Berlusconi a imunidade enquanto ele estiver exercendo as suas funções; a medida suspende o processo por corrupção no qual ele é réu

   O Parlamento italiano salvou, nesta quarta-feira (18/06), Silvio Berlusconi da humilhação de ser o réu principal de um processo penal durante a sua presidência da União Européia (UE), adotando em definitivo o primeiro artigo do projeto de lei que concede uma imunidade durante o seu mandato aos cinco responsáveis mais importantes das instituições do país. Os deputados ainda deviam pronunciar-se no final da tarde sobre uma emenda da oposição, e então votar o projeto de lei na sua integralidade.

   A operação foi conduzida a toque de caixa, uma vez que o projeto de lei, que fora apresentado no final de maio, já havia sido aprovado duas semanas antes pelos senadores. A perspectiva de a Itália assumir a presidência da União Européia daqui a treze dias contribuiu de maneira decisiva para convencer os aliados políticos de Silvio Berlusconi a adotarem essa disposição.

   "Eu considero uma vergonha para o nosso país a perspectiva de ver o presidente do Conselho, que deve presidir a Europa, ser obrigado a discutir sobre os seus compromissos com os membros de um tribunal", sublinhou Carlo Giovanardi, o ministro centrista encarregado das relações com o parlamento.

   A nova disposição beneficia o presidente da República, o chefe do governo e os presidentes da Câmara dos deputados, do Senado e da Corte constitucional. Ela estipula que os cinco mais altos responsáveis do Estado não poderão ser submetidos a processos de natureza penal durante o período no qual eles estiverem exercendo o seu mandato, inclusive no que se refere a ações motivadas por delitos anteriores, e que os processos em andamento serão suspensos durante esse período. Para entrar em vigor, o texto ainda precisa ser assinado pelo presidente da República, Carlo Azeglio Ciampi, e então ser promulgado no diário oficial. Este processo como um todo deve ser concluído antes de 1º de julho, quando se inicia o semestre de presidência da UE pela Itália.

   A primeira conseqüência desta medida será a suspensão dos processos nos quais Silvio Berlusconi tem sido réu. O chefe do governo, que é proprietário de um dos conglomerados mais importantes do país, vem sendo sobretudo objeto de um processo desde março de 2000 perante o tribunal de Milão, no qual ele responde à acusação de ter cometido atos visando à corrupção de magistrados por ocasião de uma operação industrial datando de 1985.

"Maquinação política"

   Já, na terça-feira (17/06), o "Cavaliere" (apelido de Berlusconi) rejeitou todas as acusações que pesam contra ele, garantindo que ele estava sendo vítima de uma maquinação política tramada por magistrados de esquerda com objetivo de prejudicar a sua reputação. A colocação entre parênteses de suas brigas judiciárias deve permitir-lhe dedicar-se às questões da Europa e, sobretudo, de resolver os contenciosos entre os seus aliados políticos internos depois das derrotas que o seu partido sofreu por ocasião das eleições locais que aconteceram entre o final de maio e o começo de junho.

   Mesmo assim, tudo indica que o semestre durante o qual ele assumirá a presidência dos conselhos da UE será muito difícil. Com efeito, novas tensões com Paris surgiram nos últimos dias em conseqüência das críticas que foram formuladas na segunda-feira pelo chefe da diplomacia francesa, Dominique de Villepin, o qual repudiou a atitude que Silvio Berlusconi tomou ao se recusar a se encontrar com o presidente palestino Iasser Arafat durante a sua recente visita a Israel. "A França perdeu uma boa oportunidade de ficar calada", respondeu-lhe, nesta terça-feira, o chefe do governo italiano.

   A proteção que está sendo outorgada pela nova lei a Silvio Berlusconi não é perene. Os seus aliados recusaram-se a restabelecer a imunidade que havia sido suprimida em 1993 pelos parlamentares e insistem no caráter suspensivo do dispositivo. O mandato de Berlusconi termina em 2006, e, a menos que ele seja reconduzido nesta função, ele voltará a ser acionável pela justiça, assim como todo cidadão, afirmaram publicamente os dirigentes da Aliança Nacional, o segundo partido da coalizão governamental, que é dirigido pelo vice-primeiro ministro, Gianfranco Fini.

   Por sua vez, a oposição italiana de centro esquerda condenou o projeto de lei sobre a imunidade, garantindo que ele é anticonstitucional. Segundo os deputados oposicionistas, este dispositivo legislativo serve exclusivamente para proteger os interesses do homem de negócios mais rico da Itália. Cerca de mil pessoas manifestaram-se nesta quarta-feira nas proximidades da Câmara dos deputados em Roma. A passeata foi organizada pelos "girotondi", os grupos de defesa da cidadania, um movimento que foi fundado, entre outros, pelo cineasta Nanni Moretti, que estava presente, e que reúne um grande número de associações.

   Entretanto, o chefe do governo italiano ainda deverá ouvir falar, e muito, do processo de Milão. No caso, ele deixou sem proteção o seu amigo e advogado de negócios, o deputado Cesare Previti, contra o qual uma pena de onze anos de prisão foi requerida. A sentença, que deve ser proferida no decorrer das próximas semanas, poderia ser considerada como uma condenação por contumácia de Silvio Berlusconi, o que vem causando preocupação junto a alguns membros de seu partido, Forza Italia. (Tradução: Jean-Yves de Neufville)

(© UOL Mídia Global/Le Monde)

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