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Roma, a filha da loba

Roma

CARLOS HEITOR CONY

   Não é grande a cidade. Seus palácios e vilas, suas igrejas e mármores cabem em poucos quilômetros quadrados. Andando a pé, sem pressa, pode-se ir de uma colina a outra, de São João de Latrão a São Pedro em pouco mais de uma hora. Comparada a Paris, é uma aldeia.

   Comparada a Nova York, um buraco velho, descascado e sujo. Mas nenhuma outra obra coletiva feita pela mão do homem possui a beleza e merece a glória da cidade eterna, cabeça do mundo. Todos os caminhos levam a Roma. Quem tem boca vai a Roma. Roma não se fez num dia. Roma falou, a causa acabou.

   Roma apresenta-se em sucessivas camadas. Há a Roma dos etruscos, a dos latinos, dos césares, dos papas, do "Risorgimento", a Roma fascista de Mussolini e até mesmo a Roma da "dolce vita". Tal como está, ela oferece um visual em que ainda predomina o barroco do Napolitano Gian Lorenzo Bernini. "Roma Bernini há fatta": Roma foi feita por Bernini.

   Antes de Bernini, houve a Roma de Paulo 3º, Sisto 4º, Júlio 2º e Leão 10º, a Roma renascentista que lançou o formato de cidade em seu aspecto atual. Bernini e os barrocos que o antecederam e o seguiram foram apenas os decoradores dessa estranha cidade, símbolo do paganismo e do cristianismo, da força e do direito.

   Bernini está para Roma mais ou menos como Aleijadinho está para Ouro Preto: esbarra-se em suas obras em todos os cantos, dentro e fora das igrejas, nas fontes das praças, nos museus.
Foi em Roma que o florentino Michelangelo deixou algumas de suas obras mais notáveis (o Moisés, em São Pedro in Vinculis, e uma de suas Pietàs, a mais famosa, em São Pedro). E a cidade continua dominada pela sua impressionante cúpula, que arremata e dá sentido à basílica de Bramante e Maderno.

   Andar em Roma é andar pela história. Na Fontana di Trevi, Anita Ekberg tomou o banho que se tornou um logotipo dos anos 60. No Presbitério e na abside de São João de Latrão, foram convocados concílio e cruzadas.

   Do outro lado do Tibre, a grande massa ocre da Tumba de Adriano, o imperador que desejava um mausoléu para ninguém botar defeito. Mas botaram: virou fortaleza dos papas, funcionando como guarita do vaticano, com um corredor subterrâneo -essas coisas combinavam com o clima medieval. Nas lutas do "Risorgimento", foi prisão estatal: o terceiro ato da "Tosca" tem como cenário o terraço do atual castelo de Sant'Angelo, onde Mario Caravadossi canta "E lucevan le stelle" e de onde Tosca se atira para a morte.

   Quem a vê pela primeira vez fica chocado com a agressividade do tempo, que desbotou paredes e palácios, corroeu monumentos de travertino e carrara. À noite, as lâmpadas são fracas, dão a impressão de iluminar uma imensa, uma embaciada estação ferroviária do interior. Os mais apressados ficam decepcionados e voltam para Londres, Paris ou Nova York, onde afinal encontram o que merecem.

   Repetindo César, que atravessou o Rubicão para possuir Roma, todos precisam vencer um gargalo, um obstáculo mais espiritual do que físico para dominarem a cidade. (Rubicão, na verdade, é um acidente geográfico pouco mais largo do que o rio Maracanã).

   Só depois de possuir Roma e, como um César de galochas, violentar Roma, pode o homem compreender um dos sentidos de seu destino. "Alea jacta est."

   Roma fica melhor quando nos envolvemos em seus mistérios, que ali estão abertos, expostos como fraturas da história. Ela impressionou homens refinados como Lord Byron, Goethe, Stendhal, e um provinciano como Fellini. Filha de uma loba, ou filha da deusa Rea Selva, a cidade era um pontinho no mapa do mundo antigo. Na Via dei Fiori Imperiali, entre o Coliseu e o monumento a Vittorio Emanuelle, há uma sucessão de mapas em alto-relevo. No primeiro mapa, um ponto branco assinala a aldeia que nascera de deusas e animais em conúbio com etruscos e itálicos -quem faz sucesso na vida tem origem controvertida.

   Nos mapas seguintes, o ponto branco vai crescendo, até atingir todas as terras banhadas pelo Mediterrâneo, o "mare nostrum" que era deles mesmo, romanos que brigavam pra valer, mandavam suas águias e seus centuriões para conquistar o mundo, cortavam a mão direita dos vencidos a fim de que não mais pegassem em armas contra a metrópole.
E, quando não havia guerra, inventavam combates nas arenas, leão contra cristão era um Fla x Flu que dava excelente renda.

   E as bigas tanto correram pelas vias Ápias que até foram parar no Ben Hur de Hollywood, todos já vimos esses filmes. São Cristóvão é o padroeiro dos motoristas de táxi. Em Roma, o padroeiros deles é Ben Hur.

   A cidade é um enigma: ou se decifra o monstro ou o monstro não devora ninguém; faz pior, deixando o cara vivo, mas sem entender. Os romanos sempre falam mal de tudo, o trânsito é louco, as paixões, tremendas. Daquela sacada do Palazzo Venezia, um homem gordo e calvo dizia que tinha dois bagos enormes, o papa abençoa a cidade e o mundo, "un certo cardenalle" passa em seu Fiat prateado, turistas fazem compras na Via del Corso.

   E, quando a noite cai, nas tascas do Trastevere o cameriere deixa a bandeja na mesa do freguês e canta, a língua trêmula na enorme boca, uma canção que sempre fala em chuva, em amor traído, em pernas de mulher amada, ameaçando com o seu folclórico tesão, possuir o mundo, o Sol e todas as estrelas -causa finita est.

(© Folha de S. Paulo)

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