O maestro italiano Enio Morricone conta que aos 75 anos já sabe dizer
não e recusa projeto milionário com Quentin Tarantino
James McNair
The Independent
Para entrevistar Ennio Morricone tive que seguir o protocolo: ele
insiste em ser chamado de maestro. Como um italiano de 75 anos e o
maior compositor de trilha sonora de filme vivo, ele é mais merecedor
do epíteto do que outros. A grandeza de seu apartamento em Roma, uma
construção do século 17, com candelabros de cristal e uma bela vista
para a praça da cidade, estão em plena harmonia com o modo como gosta
de ser chamado.
Ao tocar a campainha da porta de sua casa, uma
decepção. Nada de ''Ay-ee ay-ee ah!'', como na trilha de Três
homens em conflito (1966), uma de suas contribuições mais famosas.
Só um toque simples e comum, como em qualquer outra casa. Depois da
entrada nada triunfal, fomos levados a um homem baixo e levemente
abatido, trajado com um casaco de lã azul e usando óculos com aro de
tartaruga.
O maestro acenou com a cabeça, depois deu um
tapinha na antiga carruagem onde estava sentado. Foi um sinal para que
a bela e loira Roberta, nossa tradutora, se juntasse a ele.
Criador de mais de 400 trilhas sonoras - a mais
recente pode ser ouvida no filme O retorno do talentoso Ripley,
de Liliana Cavani, que estréia no Rio semana que vem -, Morricone
nasceu na Roma de Mussolini, em 1928. Ele começou a compor aos 6 anos
e aos 12 já estudava música no Conservatório de Santa Cecília. Sua
primeira composição foi realizada em 1961 para o filme O fascista,
de Luciano Salce. Mas foi com a música para um western spaghetti
(Três homens em conflito), do seu colega de colégio Sergio
Leone, que ele começou a se projetar.
O encontro da dupla foi impulsionado pelo
lançamento de Arena concerto, um álbum que reuniu alguns de
seus melhores trabalhos. Muitas dessas canções foram gravadas ao redor
da imensa Arena de Verona, com Morricone à frente de 90
instrumentistas e de um coro com 100 vozes.
Com seus grandes olhos castanhos fixados num ponto
distante, ele me contou que admira Stockhausen, Monteverdi e
Stravinsky.
- Eu gosto que ele tenha se inspirado na música
popular - comenta Morricone sobre o modernista russo.
- Se eu aprendi com Stravinsky? Claro. Mas nenhum
compositor, nem Stravinsky ou Bach, inventou a música. Um constrói
sobre o que o outro já compôs anteriormente, utilizando novos recursos
disponíveis.
Nós falamos da sua composição para Por um
punhado de dólares (1964), sobre os sinos de igreja, os estalos
das chicotadas e o som de locomotivas das guitarras - recurso sonoro
feito por Allesandro Allesandroni, também responsável pela melodia da
música principal do filme de Leone.
De acordo com a agradável vibração musical de
Allesandroni, eu me aventurei a dizer que o assobio é uma arte que
está morrendo. Hoje só sabem assobiar aqueles que já passaram dos 50.
- Você está se iludindo. Allesandroni era
praticamente um jovem quando gravou Por um punhado de dólares.
Talvez haja uma carência de talentosos assobiadores na Inglaterra. O
clima é tão frio que ninguém se sente feliz o bastante para assobiar -
brincou.
O trabalho do maestro com Leone representa uma
parte preciosa de seus anos de composição.
Apesar de trabalhar com iconoclastas italianos como
Pasolini e Zeffirelli, ou com os pesos pesados de Hollywood, como
Oliver Stone e Warren Beatty, Morricone sempre presenteou os diretores
com simpáticas canções. Mas é mais fácil lembrarmos de sua obra por
seu admirável coral e por suas composições que rodaram o mundo, como a
trilha de A missão (1986), de Roland Joffe, que lhe valeu uma
de suas quatro indicações ao Oscar - que nunca recebeu. Perdeu o
prêmio para Por volta da meia-noite, de Bertrand Tavernier.
Embora tenha se sentido injustiçado, Moricone diz que a derrota não
foi importante:
- Simplesmente quero continuar expressando minhas
idéias. Outras pessoas vêem o momento da criatividade como algo
mágico, mas não é. Essa é apenas uma visão romântica. Para mim, é
simples. Você tem que ser como um pintor que sabe as armas do seu
pincel. No final, é resultado de técnica e experiência. Se você sabe
como fazer seu trabalho, você terá resultado.
Em alguns momentos da entrevista, o maestro
demonstrou certa impaciência. Compreensível, em função da idade
avançada. Ele pediu café para todos na sala, menos para mim. Levantava
os olhos quando achava minhas perguntas particularmente ridículas.
Isso deve ter acontecido umas três ou quatro vezes.
- Fiquei acordado até muito tarde ontem à noite -
disse, como se desculpando.
Por alguns instantes, entendi o comentário como
algum tipo de apologia, mas, em seguida, ele quis saber quantas
questões eu ainda tinha para formular.
Morricone podia estar cansado com as perguntas, mas
ainda teve energia de sobra para acariciar os cabelos de Roberta. E
gentilmente espetar o braço dela com um palito de dente após um
sorriso malicioso nos lábios. Mas nossa tradutora não ficou quieta e
perguntou:
- Você gostaria de um pouco do meu café?
Quando não está ocupado com suas gravações no
estúdio, em Roma, Morricone gosta de curtir um cinema e um pouco de
ginástica em casa. Ele é perdedor insistente do xadrez no computador e
ainda joga com o filho Giovanni, que normalmente ganha.
Falta de tempo, então, não parece ser o problema.
Mas será que ele já pensou em quantas horas gastou se dedicando à
música? Ou se gastou tempo suficiente com ela?
- Eu me sinto tranqüilo quanto a isso. As coisas
costumavam ser bem mais frenéticas. Hoje eu já digo não para muitas
coisas e posso pensar com calma no meu trabalho. Claro que é preciso
desafios para que se continue vivendo. Mas se não der tempo ou se não
conseguir realizar todas as minhas ambições, não tem problema, não vou
sofrer por isso. Hoje, só faço o que posso - confessou.
E sobre Quentin Tarantino e Kill Bill? O
diretor americano se ofendeu quando Morricone recusou sua oferta
milionária para compor trilhas para seus novos filmes?
- Antes de tudo, eu não falei com ele diretamente.
Então, não acho que tenha ficado ofendido. Apenas fui convidado para
compor dois ou três minutos de música para Kill Bill. Achei
estranha uma oferta tão alta para apenas três minutos, então recusei.
No fim, Tarantino chamou outro compositor que imita meu estilo. Ele
queria uma composição no estilo Morricone e conseguiu.
Talvez fosse insensato terminar a entrevista
perguntando que música ele gostaria que tocassem em seu funeral. Mesmo
assim, perguntei, da maneira mais delicada que consegui.
- Eu acho importante que outra pessoa escolha a
música. Aliás, eu quero ter um funeral secreto. Não quero ninguém
presente além da minha família. Quando o funeral tiver acabado, aí sim
todos podem ficar sabendo da minha morte. Essa é a maneira de não
perturbar ninguém e de ninguém ter que gastar dinheiro com flores -
respondeu.
Ao me desculpar por terminar a entrevista de
maneira tão sombria, o maestro respondeu com um sorriso:
- Sem problemas. O importante é que chegamos à sua
última pergunta.