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Cena de Pai Patrão |
Marco da literatura italiana do pós-guerra, "Pai
Patrão", no qual Gavino Ledda cria um idioma próprio para contar
histórias de sua infância, será relançado com nova tradução.
Em entrevista, o escritor italiano fala sobre o processo de criação de
sua obra, do não-convencionalismo de sua escrita e do filme que levou
seu livro ao cinema
MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA
Do analfabetismo para a prosa
de vanguarda. Assim é a trajetória do escritor italiano Gavino Ledda,
64, que foi arrancado da escola pelo pai autoritário, passou a infância
como pastor de ovelhas em sua Sardenha natal e só retomou os estudos em
idade adulta.
Essa história de superação é
contada em "Pai Patrão", cuja nova tradução (a primeira foi publicada no
fim dos anos 70) a editora Berlendis & Vertecchia lança nesta Bienal do
Livro (que acontece entre os dias 15 e 25 de abril), com a presença do
autor no Salão de Idéias (dia 21 de abril, às 19h).
Marco da literatura italiana
do pós-guerra, o livro faz uma dolorosa aproximação entre repressão
patriarcal e exploração econômica, mas é também uma parábola sobre o
poder reparador da literatura. A edição inclui textos mais recentes e
experimentais, como "Recanto", em que Gavino Ledda faz um cruzamento de
radicais e sufixos do italiano e do sardo para criar um idioma próprio,
repleto de neologismos, que ele chama de "língua pluridimensional".
Leia a seguir a entrevista que
Ledda deu à Folha de sua casa, na aldeia de Siligo, onde vive com
seu "pai patrão", hoje com 97 anos e orgulhoso do filho que se tornou
escritor.
Folha - A sua experiência pessoal, contada em "Pai Patrão", é
comparável à vivência de outros filhos de camponeses italianos dos anos
50?
Gavino Ledda - A primeira parte do livro e da minha vida é
semelhante à de outras crianças. Embora fosse um pouco excepcional que
um menino tão pequeno trabalhasse no campo, pode-se dizer que a
experiência de um pastor sardo é igual à de Gavino.
Já a segunda parte do livro é totalmente diferente, porque Gavino
descreve a experiência dos pastores a partir de dentro, a partir do
vivido. Nesse sentido, o livro tem algo de único, e não apenas para a
Sardenha: eu escrevi uma ilíada jamais escrita, uma ilíada sem sangue:
eu não era Aquiles e meu adversário não era Heitor. Era eu contra mim
mesmo, e a muralha a ser superada não era o escudo ou a espada do outro,
mas a ignorância e a história ignara dos homens.
Folha - Seu livro é uma crítica da relação essencial que existe
entre os poderes do pai e do patrão?
Ledda - Na moral agropastoral do pai patrão, do "pater
familias", o filho faz parte do pecúnio, é como os animais: o pai dispõe
dele como quer, tem plenos direitos sobre o filho. Existe a relação
pai-filho e a relação pai-patrão. Uma outra coisa é a relação
patrão-menino (que jamais deveria existir). A poesia me ajudou a superar
esses três espectros.
Folha - A literatura foi uma forma de o pequeno pastor não
virar patrão?
Ledda - Sim. Tanto o romance quanto o filme (dos irmãos Taviani)
foram vistos em chave "patronal", como história do pai, e não do filho.
O que importa é que Gavino se rebela, se recusa a ser servo dos outros,
mas também se recusa a se tornar um patrão. Gavino é um garoto que quer
dizer a todos os outros meninos da Terra: podemos mudar a nós mesmos e
podemos mudar um pouco nossos pais. Meu segundo livro, "Lingua di Falce"
(Língua de Foice, de 1977), traz justamente este tema: o imperativo de
não se tornar patrão.
Folha - Qual a sua avaliação do filme "Pai Patrão", dirigido
pelos irmãos Taviani?
Ledda - Só os Taviani podiam fazê-lo na Itália daquele momento,
pois tinham uma poética da utopia. Para eles, o romance era um pedaço de
utopia que se tornava realidade. Mas o filme tem um ponto de vista
externo -e não poderia ser diferente.
Já o romance foi escrito de dentro do ovil. Espero um dia filmar o meu
próprio "Pai Patrão", interpretando meu pai.
Folha - Quando pequeno, o sr. já acreditava que seria escritor?
Ledda - Não. Posso ter pensado nisso ocasionalmente, assim como
podia sonhar em ser músico ou campeão de ciclismo. Mas são fantasias de
menino. Foi só depois de me diplomar que tomei a decisão de escrever.
Normalmente se nasce poeta e depois se tem a experiência como pastor,
como mineiro etc. Fiz o percurso contrário. Era preciso ter sido pastor
por 20 anos para escrever "Pai Patrão". Foi graças a essa experiência
que me tornei um escritor "rochoso", que procura esculpir o vento.
Folha - "Pai Patrão" é um romance naturalista. Já "Recanto" é
uma obra "experimental", dentro do que o sr. denomina "língua
pluridimensional". A fome de palavras se transformou em desejo de criar
uma língua pessoal?
Ledda - Sem o vôo dos irmão Wright, a aeronáutica seria outra
coisa. Da mesma maneira, "Recanto" é o primeiro vôo da mente numa língua
pluridimensional. Aristóteles definiu a língua escrita como convenção.
Mas, assim como um enunciado científico só é válido até que chegue a
prova contrária, a língua pluridimensional não se limita a reproduzir a
convenção. Ela é um salto no qual o escritor toma os radicais dos verbos
ou os sufixos das palavras para transformá-las, recriá-las, dando asas à
língua.
PAI PATRÃO/RECANTO. Autor: Gavino Ledda.
Tradução: Lilioana Laganá e Ivan Neves Marques Jr. Editora: Berlendis &
Vertecchia. Quanto: a definir (322 págs.).
(©
Folha de S. Paulo)
TRECHO
"Muitas vezes eu fazia solilóquios. E de tanto ficar sozinho e de
falar com meu íntimo ou com a natureza através do silêncio, a palavra
estava perdendo importância para mim. A língua e a garganta, o fôlego e
as cordas vocais eu os usava somente para emitir gritos e urros contra
as raposas. Assim, se de repente ocorria de eu precisar me exprimir na
"língua social" com meu pai ou, pior ainda, com os outros, sentia
dificuldades."
DE "PAI PATRÃO"
(©
Folha de S. Paulo)
SAIBA MAIS
Escritor foi analfabeto até os 20 anos
COLUNISTA DA FOLHA
A obra de Gavino Ledda
surpreende duplamente. Em primeiro lugar, porque esse escritor nascido
em 1938 na Sardenha (ilha pertencente à Itália) viveu quase 20 anos como
um camponês analfabeto, antes de se diplomar e se tornar escritor de
renome com "Pai Patrão" (1974).
Em segundo porque, após esse
romance de estréia, levado ao cinema pelos irmãos Taviani em 1976, ele
enveredou por uma prosa que desconstrói o italiano e o sardo
convencionais, inventando uma nova língua, altamente pessoal, que
combina traço arcaico e ousadias vanguardistas.
Alguns textos dessa fase
experimental -"Recanto", "Morte da Língua Aristotélica" e "Onomatopéias
Mínimas"- estão publicados ao final da nova edição do "Pai Patrão". Mas
é o romance sobre o pequeno Gavino, condenado pelo pai autoritário à
rotina rude de um pastor de ovelhas, que continua a fascinar os
leitores.
Engana-se, contudo, quem pensa
que "Pai Patrão" se resume a um relato autobiográfico. Pois, na sua
solidão nas montanhas, apartado da família e dos amigos, faminto de
comida e palavras, a criança vai percebendo o discurso da natureza e
construindo uma "língua do silêncio" que já revela uma percepção
lingüística da realidade, antecipando assim a prosa de um dos livros
mais comoventes da literatura italiana do pós-guerra.
(MCP)
(©
Folha de S. Paulo)
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