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Ócio criativo reflete Mundo pós-industrial

 

Domenico de Masi defende a idéia de que o ócio aumenta criatividade das pessoas

Pensador italiano fala sobre tema no Teatro Beberibe

Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO

   O sociólogo italiano Domenico de Masi, que ficou famoso pela criação do conceito de "ócio criativo", faz uma palestra no Recife, sobre qualidade de vida, no primeiro evento em comemoração dos 70 anos do Crea-PE (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Pernambuco). A conferência, no Teatro Beberibe (Centro de Convenções), é apenas para convidados.

   "O 'ócio criativo' não é não fazer nada. Detesto os que não fazem nada. Nem sei se existem essas pessoas. Os seres humanos estão sempre fazendo algo. É um modo de agir do homem pós-industrial que desenvolve um trabalho flexível e criativo. Ele não deve separar estudo, trabalho e lazer. Deve haver uma integração entre os três", explicou o pensador, ontem, em entrevista coletiva.

   Para ele, nesse contexto, não existe o chamado "tempo livre". "Isso fazia parte da sociedade industrial - da segunda metade do século 18 até a primeira metade do século 20 - que era baseada na separação do tempo livre e do tempo de trabalho. O trabalhador saía da fábrica e deixava lá seu instrumento de produção", diz.

   Hoje, ele afirma que mais de 70% dos trabalhadores no mundo utilizam o cérebro e não há uma separação estanque entre lazer e labor. "Você pode sair daqui e ir ao cinema, fazer amor, passear, dormir, mas ainda assim vai estar pensando no artigo que tem que escrever", exemplifica. "Uma vendedora de loja trabalha com o cérebro, assim como um porteiro de hotel, um cientista e até quem assiste a TV."

   Para ele, o salário não deveria depender da quantidade de horas trabalhadas mas da quantidade de riqueza produzida. "Um critério baseado na carga horária é meramente industrial. Um dos problemas da nossa sociedade é aplicar o critério de carga horária inventado para o trabalho de execução no trabalho criativo."

   Fantasia - Apesar de criticar o modelo norte-americano (leia mais na entrevista abaixo), De Masi coloca que os EUA podem ser definidos como um país criativo, pois têm as duas qualidades necessárias para tal: a fantasia e a concretização. "A criatividadeé algo muito preciso", diz. Ele acha que os brasileiros e os italianos são muito fantasiosos, mas como são pouco concretos, não podem ser considerados criativos.

   "Entretanto os brasileiros são criativos no campo da música. Caetano Veloso vai fazer um grande concerto no Carneggie Hall em Nova York. Mas para fazer isso não é suficiente ter fantasia. É necessário falar inglês, ter um bom agente de marketing, muita organização, dinheiro e relação internacional. Talvez, nesse caso, o concreto valha mais que a fantasia", diz.

   Em 2002, o sociólogo prestou consultoria ao Sebrae para definir a "cara brasileira" com o objetivo de difundir o artesanato nacional no mundo. "Eu parti da idéia de que o produto de um país como o Brasil tem mais valor internacional quando reflete a identidade local", diz. O estudo, que consultou personalidades brasileiras de diversas áreas - de religiosos a artistas -, elenca o que seria próprio do Brasil.

   Domenico vem pela segunda vez ao Recife. Na primeira visita à cidade, há cercade seis anos, ele se encontrou com Dom Hélder Câmara. Na época entrou em contato com o trabalho de Gilberto Freyre, apresentado a ele pelo arquiteto Oscar Niemeyer. "Comprei Casa Grande e Senzala, com prefácio de Darcy Ribeiro", conta. Esta é a última etapa da sua viagem ao Brasil, que incluiu ainda palestras em Porto Alegre (RS) e Salvador (BA). Amanhã, além da conferência, ele visita a Oficina Brennand, na Várzea, e, na quinta-feira, fará um tour pelos ateliês de Olinda.

(© Pernambuco.com, 07.04.2004)


Entrevista l Domenico de Masi

PERGUNTA - O que o senhor vai abordar na sua palestra sobre qualidade de vida?

Domenico de Masi - Hoje nós vivemos duas vezes mais que nossos bisavós, mas isso não significa que a nossa vida seja duas vezes melhor. O importante é entender por que a qualidade de vida nem sempre é positiva. Nós temos muitos medos, que deixam a vida com uma baixa qualidade. Um dos medos é justamente que o tempo seja pouco, pois queremos fazer coisas em demasia. A cultura da sociedade industrializada exige que façamos uma série de coisas em um mínimo espaço de tempo, e isso leva a uma utilização errada do tempo.

PERGUNTA - Quais são os outros medos?

Domenico - Além do medo de ter pouco tempo, temos medo de ter poucas coisas a nosso dispor e também de ter poucos relacionamentos. Temos uma seqüência de medos em cascata, um provém do outro. Esses medos nos acompanham. A qualidade de vida significa apenas tomarmos consciência de que existem outros aspectos da vida além de apenas ter medo. Com isso, não quero dizer que eu saiba comomelhorar a vida. Acho que os brasileiros têm muito mais a noção de como melhorar a vida do que os próprios italianos. Mas me parece que atualmente temos no mundo dois modelos negativos, que estão em oposição: o fundamentalismo americano, baseado no consumismo extremo, e o fundamentalismo islâmico, baseado no extremismo religioso. Portanto acho que o modelo latino, brasileiro, italiano é uma segunda via bem superior às outras duas. As duas primeiras nem são um caminho, são uma catástrofe.

PERGUNTA - Como é esse modelo?

Domenico - É baseado em alguns elementos de grande alcance muito importantes. Por exemplo, a alegria do povo brasileiro, a sensualidade, o acolhimento.

PERGUNTA - Como o senhor

acha que isso pode ser usado

na aplicação do seu conceito

de "ócio criativo"?

Domenico - O conceito do ócio criativo é colateral. É uma atividade do homem pós-industrial. A civilização industrial durou da metade do século 18 até a metade do século 20. E era baseada na separação do tempo livre do tempo de trabalho, doestudo e do trabalho e do lazer. E o trabalho pós-industrial, se for positivo, une o lazer, estudo e trabalho em um só contexto. O que estamos fazendo agora? Estamos estudando, trabalhando e eu também estou me divertindo.

PERGUNTA - Com os altos índices de desemprego no Brasil, o ócio criativo não está distante da realidade local?

Domenico - O ócio criativo é um estado mental daquele que trabalha, não é ligado ao desemprego. O desemprego é um problema que se resolve com emprego. O ócio criativo é para melhorar a qualidade de vida que trabalha.

PERGUNTA - Muitas vezes as condições de quem trabalha no Brasil também é muito difícil...

Domenico - O ócio serve exatamente para melhorar a qualidade de trabalho de quem trabalha. Não significa que quem trabalha seja feliz. É uma condição indispensável, mas não suficiente para conquistar o bem-estar.

(© Pernambuco.com, 07.04.2004)


Sociólogo defende que tempo livre melhora desempenho no trabalho

Autor de `Ócio criativo`, Domenico de Masi volta a divulgar suas idéias

Luciana Barreto

   Diante de um auditório repleto de pessoas no Hotel Pestana (Rio Vermelho), o sociólogo Domenico de Masi começa sua palestra com uma piadinha, que, sob assinatura de Oscar Wilde, não deixa de se relacionar com o tema tratado: "Para que fazer em pé o que você pode fazer sentado, e para que fazer sentado o que você pode fazer deitado?", questiona o simpático italiano, diante de cerca de 750 pessoas que, com seus fonezinhos de ouvido, escutam a sua voz misturada à voz feminina que faz a tradução simultânea.

   "Tem gente que é masoquista. Numa cidade linda como essa, com praias, passa a tarde assistindo palestras", brinca. Mas, em se tratando de De Masi, a brincadeira tem um fundo de verdade. Afinal, ele foi o intelectual que inovou conceitos de administração, ao escrever obras como O ócio criativo, defendendo a idéia de que, na sociedade pós-industrial, haverá mais tempo livre, e esse tempo - o "ócio criativo" - traz resultados administrativos, já que a leitura de livros, apreciação de filmes e peças e outras atividades de lazer aumentam a bagagem cultural e estimulam a criatividade.

   O tempo livre se fundamenta na idéia de que, no trabalho criativo, a mente humana trabalha 24 horas por dia, sem precisar estar no ambiente da empresa. Desta forma, o acúmulo cultural e de vivências é indispensável para a realização do trabalho criativo, que apóia a sociedade pós-industrial. Além disso, o sociólogo argumenta que o advento das máquinas, aliado a uma expectativa de vida maior, também tendem a conferir mais tempo às pessoas. Utópico para uns, revolucionário para outros, foi esse ponto de vista que o sociólogo defendeu ontem à tarde no Hotel Pestana. Patrocinada pela Mútua, Caixa de Assistência dos Profissionais do sistema Confa-Crea e também pela Gerdau Aço Minas S/A, a palestra marcou a abertura das comemorações dos 70 anos do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea-BA).

   Segundo o sociólogo, a atividade humana deve fazer coincidir o trabalho, o estudo e a diversão. Ou seja, para um melhor aproveitamento, o trabalho deve se misturar com o prazer. Para apresentar essa argumentação, o professor de sociologia do trabalho na Universidade La Sapienza, em Roma, e presidente da Sociedade Italiana de Teletrabalho (SIT) realizou um percurso histórico, destacando o papel de Jung em sua apresentação sobre os instintos humanos.

   "O homem apresenta o instinto da criatividade. Ele tem a necessidade de modificar o mundo, de torná-lo diferente de como ele encontrou", destacou. Ele também ressaltou que o homem é o único animal capaz de transformar pontos de fraqueza em pontos de força. "Se retornarmos a nossa visão aos homens primitivos, veremos que eles apresentavam uma desvantagem de olfato em relação aos outros animais, o que dificultava a caça. Ele saiu ganhando, porque acabou desenvolvendo um modo de caminhar totalmente diferente", disse o sociólogo, que já publicou sete obras no Brasil.

(© Correio da Bahia, 06.04.2004)

Para saber mais sobre este assunto (arquivo ItaliaOggi):

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