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Cem anos de dedicação à medicina

Sérgio Huoliver

Fioravanti Di Piero entre Pietro Novelino e Gilberto de Nucci: comemoração na Academia relembra a história da medicina no Brasil

 

Academia Nacional de Medicina festeja aniversário do clínico que assistiu às transformações do último século no Brasil

Múcio Bezerra

   O tempo pôs dois zeros à direita na vida do doutor Fioravanti Alonso Di Piero, quinta-feira passada, quando ele, junto com colegas e amigos da Academia Nacional de Medicina, comemorou 100 anos, ou seja, 36.500 dias - fora um mês quase que ganhou na soma das 24 horas a mais dos anos bissextos idos e vividos em um século. Paulista de Itatinga, clínico geral formado na Faculdade Nacional de Medicina, no Rio, em 1929, Fioravanti nasceu exatamente 16 anos depois da Abolição da Escravatura, quando o Brasil tinha 17 milhões de habitantes, a varíola era um flagelo da humanidade e as infecções bacterianas deixavam a expectativa de vida no país em apenas 33,6 anos (hoje fixada em 68,6).

Magro, estatura mediana, hábitos regrados - não bebe, não fuma, faz ginástica, alimenta-se a horas certas, dorme e acorda cedo - Fioravanti é um velhinho bem-humorado, brincalhão e conversador, que mora no mesmo casarão que adquiriu na Professor Gabizo, no Maracanã, em 1939, quando a rua não era calçada e servia de campo para os meninos jogarem bola. O clínico geral que foi secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal de 1946 a 1947, durante o Governo Dutra, manteve intensa atividade intelectual: publicou 15 livros, dos quais 14 sobre medicina, um deles, Semiologia médica e propedêutica clínica, com cinco encorpados volumes escritos durante 18 anos, entre 1980 e 1998. É ele também o autor de Façamos a vida feliz, um apanhado de crônicas que escreveu na década de 40, quando foi articulista, editorialista e diretor da Gazeta de Notícias, além de colaborador das revistas Vida brasileira e Para você.

Viúvo desde 1985, quando morreu sua mulher, Nair Leite Di Piero, Fioravanti tem um filho e uma filha, aos quais chama, brincando, de ''meu menino'', ''minha menina'' - o cardiologista Elio Fioravanti Di Piero, 72 anos, e a professora de música e de línguas neolatinas Ely Di Piero Pereira Lopes, 74. O centenário médico, provavelmente um dos mais velhos do Brasil, tem também cinco netos e oito bisnetos. De seus sete irmãos e irmãs, só está viva Sábia, 92 anos, moradora de Copacabana, a caçula de uma família de imigrantes europeus. A mãe era espanhola e o pai, italiano.

A convivência com os pais, levou Fioravanti a aprender espanhol e italiano desde criança. Mas fala também francês, fluentemente, e lê em inglês. Apaixonado por futebol - gosta de ver os jogos pela TV - antes de vir para o Rio estudar medicina, foi meia-esquerda do Palestra Itália, time que depois mudou de nome para Palmeiras, o seu clube de coração.

Cidadão carioca e da Cidade do México, paraninfo e patrono de um sem-número de turmas de médicos, Fioravanti é o mais velho integrante da Academia Nacional de Medicina. Quando ingressou, em 1956, os mais novos membros da ANM sequer tinham nascido.

O clínico nasceu na República Velha, passou por todas as transformações sociais, políticas, econômicas e científicas que modernizaram o mundo, muitas em um século, e conviveu com as freqüentes oscilações entre a democracia e as ditaduras no país. Entre a época em que escrevia com bico de pena e o computador de hoje, atravessou duas guerras mundiais e, na segunda, quando o Brasil entrou no conflito, apresentou-se como voluntário. Não foi lutar na Itália mas ficou, aqui, à disposição do Exército. E, assim, ganhou o posto de major médico da reserva.

Na tarde de quinta-feira, os amigos da academia ofereceram-lhe um bolo com a inscrição ''100 anos de glória''. A ANM vai também instalar numa de sua salas um busto de Fioravanti, o primeiro membro daquela instituição a chegar a um século de vida. Homenagem semelhante será feita pela UniRio, universidade para a qual ele conseguiu incorporar o Hospital Gaffrée-Guinle.

- O doutor Fioravanti é um exemplo para todos aqueles que têm amor à medicina. Ele é um líder, está sempre atualizado na prática médica e é um ídolo para todos nós - proclamou Pietro Novellino, presidente da academia e reitor da UniRio.

Entre os títulos acumulados ao longo dos ''100 anos de glória'', o ilustre centurião foi livre docente da Faculdade Nacional de Medicina, professor emérito da UniRio, fundador e diretor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Nova Iguaçu e de Vassouras. Em 100 anos, teve tempo também para ser médico do Ministério do Trabalho, presidente da Comissão Americana Médico-Social, membro da Comissão de Reabilitação dos Incapacitados das Forças Armadas, fundador e diretor do Anuário médico brasileiro, além de fundador e professor do Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas, entre outras ocupações que lotaram seus mais de 36.500 dias de indiscutível valor.

(© JB Online)

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