Magro, estatura mediana, hábitos regrados - não bebe,
não fuma, faz ginástica, alimenta-se a horas certas, dorme e acorda cedo
- Fioravanti é um velhinho bem-humorado, brincalhão e conversador, que
mora no mesmo casarão que adquiriu na Professor Gabizo, no Maracanã, em
1939, quando a rua não era calçada e servia de campo para os meninos
jogarem bola. O clínico geral que foi secretário de Educação e Cultura
do Distrito Federal de 1946 a 1947, durante o Governo Dutra, manteve
intensa atividade intelectual: publicou 15 livros, dos quais 14 sobre
medicina, um deles, Semiologia médica e propedêutica clínica, com
cinco encorpados volumes escritos durante 18 anos, entre 1980 e 1998. É
ele também o autor de Façamos a vida feliz, um apanhado de
crônicas que escreveu na década de 40, quando foi articulista,
editorialista e diretor da Gazeta de Notícias, além de
colaborador das revistas Vida brasileira e Para você.
Viúvo desde 1985, quando morreu sua mulher, Nair
Leite Di Piero, Fioravanti tem um filho e uma filha, aos quais chama,
brincando, de ''meu menino'', ''minha menina'' - o cardiologista Elio
Fioravanti Di Piero, 72 anos, e a professora de música e de línguas
neolatinas Ely Di Piero Pereira Lopes, 74. O centenário médico,
provavelmente um dos mais velhos do Brasil, tem também cinco netos e
oito bisnetos. De seus sete irmãos e irmãs, só está viva Sábia, 92 anos,
moradora de Copacabana, a caçula de uma família de imigrantes europeus.
A mãe era espanhola e o pai, italiano.
A convivência com os pais, levou Fioravanti a
aprender espanhol e italiano desde criança. Mas fala também francês,
fluentemente, e lê em inglês. Apaixonado por futebol - gosta de ver os
jogos pela TV - antes de vir para o Rio estudar medicina, foi
meia-esquerda do Palestra Itália, time que depois mudou de nome para
Palmeiras, o seu clube de coração.
Cidadão carioca e da Cidade do México, paraninfo e
patrono de um sem-número de turmas de médicos, Fioravanti é o mais velho
integrante da Academia Nacional de Medicina. Quando ingressou, em 1956,
os mais novos membros da ANM sequer tinham nascido.
O clínico nasceu na República Velha, passou por todas
as transformações sociais, políticas, econômicas e científicas que
modernizaram o mundo, muitas em um século, e conviveu com as freqüentes
oscilações entre a democracia e as ditaduras no país. Entre a época em
que escrevia com bico de pena e o computador de hoje, atravessou duas
guerras mundiais e, na segunda, quando o Brasil entrou no conflito,
apresentou-se como voluntário. Não foi lutar na Itália mas ficou, aqui,
à disposição do Exército. E, assim, ganhou o posto de major médico da
reserva.
Na tarde de quinta-feira, os amigos da academia
ofereceram-lhe um bolo com a inscrição ''100 anos de glória''. A ANM vai
também instalar numa de sua salas um busto de Fioravanti, o primeiro
membro daquela instituição a chegar a um século de vida. Homenagem
semelhante será feita pela UniRio, universidade para a qual ele
conseguiu incorporar o Hospital Gaffrée-Guinle.
- O doutor Fioravanti é um exemplo para todos aqueles
que têm amor à medicina. Ele é um líder, está sempre atualizado na
prática médica e é um ídolo para todos nós - proclamou Pietro Novellino,
presidente da academia e reitor da UniRio.
Entre os títulos acumulados ao longo dos ''100 anos
de glória'', o ilustre centurião foi livre docente da Faculdade Nacional
de Medicina, professor emérito da UniRio, fundador e diretor da
Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Nova Iguaçu e de
Vassouras. Em 100 anos, teve tempo também para ser médico do Ministério
do Trabalho, presidente da Comissão Americana Médico-Social, membro da
Comissão de Reabilitação dos Incapacitados das Forças Armadas, fundador
e diretor do Anuário médico brasileiro, além de fundador e
professor do Instituto de Pós-Graduação Médica Carlos Chagas, entre
outras ocupações que lotaram seus mais de 36.500 dias de indiscutível
valor.