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18/05/04
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Acima, Lívio Abramo. À direita, obra de sua autoria |

Campos do Jordão - Xilogravura - 1948 |
Quando
morreu, em 1992, o gravador Lívio Abramo já estava há mais de trinta anos
morando fora do Brasil. Somada à sua natural severidade, ao fato de que ele
nunca foi de se auto-promover, essa ausência prolongada fez com que em vida
não tivesse virado uma estrela. No ano passado, seu centenário de
nascimento foi eclipsado pelo centenário de Portinari –
esse, sim, uma verdadeira glória nacional.
No entanto, Lívio não é menos bom artista que Portinari. Outro fator a
prejudicar sua visibilidade é que se tenha dedicado à gravura e não à
pintura. Embora não haja nenhum fundamento artístico para isso, a pintura é
considerada a mais nobre das linguagens; talvez tenha a ver com a
exclusividade da obra, com o valor de mercado que a tela adquire por
ser de um só dono. À técnica da gravura, pelo contrário, é inerente
a faculdadep fde multiplicar uma imagem para um público mais amplo.
Por isso, a gravura tem uma natural vocação política, quase sempre ligada a
artistas engajados. É o caso de Lívio, um histórico ativista de esquerda,
líder sindical, metido em piquetes e lutas de rua nas décadas de 1930 e 40.
Nascido em 1903 no interior do estado de São Paulo, filho de italianos,
neto de um anarquista que inaugurou a tradição de prisões na família, Lívio
pertenceu a uma geração de Abramos famosa por sua integridade moral e seu
desencanto. Foram seus irmãos a atriz Lélia, recentemente falecida, um dos
fundadores do PT, e o jornalista Cláudio, que
morreu precocemente na década de 1980.
Autodidata, Lívio começou a gravar no final da década de 1920, como
ilustrador de jornaizinhos de italianos e anarquistas de São Paulo. Junto
com Oswaldo Goeldi (este, no Rio), tornou-se um dos pioneiros da gravura
moderna no Brasil. Por um curto período pertenceu ao PCB, do qual foi
expulso em 1932; grandes artistas nunca foram boa massa de manobra para o
stalinismo triunfante. Quase toda sua produção até começos da década de 40
é marcada pela temática política, pelas p fsituações de protesto, de
reivindicação social, pela introdução, na arte brasileira, de uma classe
até então ignorada pelos modernistas: a
proletária. Antes, ninguém se preocupara em registrar, por exemplo, as
“meninas de fábrica” – a mão de obra feminina na vertiginosa
industrialização paulista.
Nem toda a obra de Lívio, entretanto, é de natureza política.
Terminada a segunda guerra mundial e a ditadura getulista no Brasil
(pela qual ele foi colocado várias vezes na cadeia), uma certa euforia
– ainda que transitória – contaminou o país. A maturidade do artista
se caracteriza por um extremo brilho formal, por um domínio técnico
absurdo que lhe permite criar verdadeiras filigranas sobre a madeira
gravada. Com essa linguagem esfuziante, ao longo dos anos 50 trata de
temas sempre ligados à brasilidade, alguns dos quais
retomará
mais tarde. Mas ao ver uma de suas “macumbas”, ninguém pense que o
antigo militante esquerdista começou a acreditar em mães-de-santo.
Lívio morreu convictamente ateu. Nas macumbas, o que o fascinava
eram os ritmos visuais intensos da dança.
Dos anos 1960 até a morte, nosso grande pioneiro da gravura viveu em
Assunção. Por pura necessidade financeira, aceitou um emprego de
professor num centro de estudos mantido no Paraguai pela diplomacia
brasileira. Encantou-se com o país e seu povo – embora nem de longe
tenha transigido com o regime ditatorial que os governava. E a
paixão pela nova pátria resultou em sua última – de certo modo, a
mais
avançada, a mais radical – fase. Transformou a imagem dos pueblos
paraguaios – os pequenos vilarejos perdidos na planície – em
construções geométricas severas, conferindo-lhes uma identidade
visual. Algo parecido com o que Guignard fez pela paisagem
mineira. A partir de Lívio Abramo, os pueblos paraguaios serão
sempre assim, e não mais poderão ser lembrados de outro modo.
(©
Revista Ícaro Brasil)
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