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Bernardo Betolucci |
O CINEASTA ITALIANO BERNARDO BERTOLUCCI FALA AO MAIS!
DE SEU NOVO FILME, "OS SONHADORES", PREVISTO PARA ESTREAR NO BRASIL EM
NOVEMBRO
Maria Andrea Muncini
Aldo Villani
free-lance para a Folha
O amor pelo cinema é como ser
membro de uma sociedade secreta, clandestina, na qual se comete um crime
que, depois, é o grande amor pelo cinema." É o que confiou ao Mais!,
sorrindo consigo mesmo, Bernardo Bertolucci, em Roma, no seu estúdio na
rua Lungara, na margem direita do Tevere, sob a colina do Gianicolo -a
belíssima e antiga estrada que leva ao coração da Roma "transtiberiana",
o Trastevere, um dos bairros mais famosos e pitorescos da cidade.
"Se a gente não se cura de
todo, que sentido há em acabar?", diz. Mas dessa vez falava, também com
simplicidade e convicção, de suas idas ao analista, porque também as
sessões psicanalíticas estão de alguma maneira dentro de seu cinema: "A
análise é como um objetivo a mais a ser colocado na máquina de filmar,
que olha dentro das pessoas, no inconsciente, no mistério", quando fala
aos atores sobre aquilo que devem fazer e como devem fazer, para
ajudá-los a entrar no papel.
No fim dos anos 50, depois da
infância e a primeira juventude na cidade de Parma, veio para Roma, a
grande velha cidade, a do cinema de Rossellini e De Sica e, logo depois,
a de Pier Paolo Pasolini, o inquieto poeta, literato e roteirista, que
morava em Monteverde Vecchio, o belo bairro sobre a pequena colina, no
primeiro andar da mesma nova casa dos Bertolucci.
São de fato os anos em que o
jovem Bertolucci já pusera um pé no cinema com sua câmera de 16
milímetros: um par de curtas-metragens, esperando a vez de se apresentar
na Mostra de Veneza de 1962 com "La Commare Secca", com roteiro de seu
admirado poeta e co-inquilino, que um ano antes se impusera com
"Accattone" (Desajuste Social): uma espécie de contágio, de osmose de
"Accattone" para "La Commare Secca", como a história do ovo nascido
antes ou depois da galinha.
Mas a estrada que conduziu Bertolucci de "La Commare Secca" a "The
Dreamers" (Os Sonhadores, 2003) é bem diferente, oposta mesmo àquela que
conduziu Pasolini de "Accattone" a "Salò ou os 120 Dias de Sodoma". Os
nós intermediários de Bertolucci vão de "Antes da Revolução" (1964) a "O
Conformista" (1970), de "O Último Tango em Paris" (1972) a "1900"
(1976), de "A Tragédia de um Homem Ridículo" (1981) a "Assédio" (1998),
com um discurso sempre mais tenso, sensível, complicado, deslocando-se
progressivamente do social para o político, o particular, o subjetivo,
com um olhar que parece obstinadamente querer fitar sempre o profundo do
ânimo dos jovens, homens e mulheres, posto no fundo sem nunca ser
esquecido.
Depois de "O Conformista" (1970) e "O Último Tango em Paris" (1972),
o sr. voltou a Paris para filmar "Os Sonhadores". Qual a emoção de rodar
um novo filme em Paris após mais de 30 anos?
Fiz tudo para reprimir a recaída na nostalgia. Se você reparar, no
filme não há nenhum dos lugares vistos em "O Último Tango" ou "O
Conformista".
Nem mesmo nos exteriores, absolutamente nada. Procurei evitar os mesmos
lugares porque não queria que houvesse, como dizer, nostalgia
auto-referencial. Portanto, lugares diferentes. O ponto em comum entre
"O Último Tango" e "Os Sonhadores" é, ao contrário, a importância do
erotismo: mas, enquanto o erotismo daquele era cavernoso, quase
mortuário, o de "Os Sonhadores" é jovial, alegre, de jovens em torno dos
20 anos. Talvez seja Paris que me sugira histórias em que o eros é
importante...
Mais de uma vez o sr. manifestou a intenção de filmar a terceira
parte de "1900", tendo como centro o período a que se refere em "Os
Sonhadores". Como acabou escolhendo um filme só sobre 68?
É verdade. Alguns anos atrás tive a idéia de fazer a continuação de
"1900", porque me parecia que ele não tinha acabado: "1900" vai até 25
de abril de 1945 (dia da insurreição geral dos "partigiani") e me
parecia justo rodar uma continuação que chegasse ao fim do século.
Depois, refletindo, dei-me conta de que "1900" tinha raízes numa grande
mudança política, a de 74 a 78, quando Aldo Moro (presidente do
Conselho) e Enrico Berlinguer (secretário do Partido Comunista Italiano)
lançaram juntos o que se chamou "compromisso histórico" (possibilidade
de o PCI se tornar partido de governo). Dei-me conta, no entanto, de
que, se realizasse a terceira parte de "1900", teria dado um passo em
falso, porque aquela solução política não tinha mais sentido: as
promessas, falidas, hoje ficaram completamente sem significado.
A idéia de sua realização e uma fé política daquele tipo não estavam
mais em mim e tampouco na coletividade. Pensei então em fazer um filme
mais geral sobre os anos 60, sobre a utopia como sonho de um mundo
melhor. Depois de ler o livro de Adair, comecei a pensar em "Os
Sonhadores" observando como ele falava de 68, de Paris, daquela
atmosfera, sentida por alguém que a viveu na primeira pessoa e
compreendeu e colheu os seus significados profundos.
Como se colocam em relação a seu filme "La Meglio Gioventù" (2003),
de Marco Tulio Giordana, e "Buongiorno, Notte" (2003), de Marco
Bellocchio?
Os filmes de Giordana e Bellocchio são muito diferentes
entre si. "La Meglio Gioventù" se relaciona de alguma maneira com "1900"
pelo seu grande respiro histórico: parte de 66, da grande inundação de
Florença, quando estudantes e jovens de todas as partes do mundo
acorreram para ajudar as pessoas tão duramente atingidas e contribuíram
também para salvar o imenso patrimônio cultural em perigo, lançando as
bases daquilo que seria o movimento de voluntariado dos anos 90. Logo,
um filme também épico.
O filme de Bellocchio, ao contrário, é um filme com a visão pessoal de
um acontecimento histórico. A coisa que mais me agradou nele foi o
final, com a idéia da libertação de Moro, de não matá-lo, ou seja, a
idéia muito cinematográfica e ao mesmo tempo surreal de ele sair de casa
sorrindo, carregando alguma coisa de extraordinariamente liberatório
numa alvorada triste e cinzenta. Bellocchio partiu do dado histórico de
Moro trancado num apartamento com seus seqüestradores, a que se mistura
uma interpretação pessoal, de Bellocchio homem: Moro não é mais Moro,
talvez seja o pai de Bellocchio, como ele mesmo recordou, voltando à
infância, quando o pai ia ver dormir os seus numerosos filhos ao voltar
tarde para casa, e ele sentia aquela presença, exatamente como se vê
também no final do filme. Libertar Moro seria como libertar uma geração
inteira, não culpada por sua morte, mas de qualquer maneira se sentindo
um pouco responsável.
No filme, ao contrário, nós o vemos sair, quase como se realizasse uma
magia... Aí está, Moro ressuscitado: isto me agradou muito.
Quanto a "Os Sonhadores", trata-se de um outro caso ainda, muito
diferente. Em substância, são três filmes que fazem três discursos
diferentes. Como você chegou ao romance de Gérard Adair? Uns dez anos
atrás, Clare (Peploe, sua mulher) o leu e me falou dele; depois, há dois
ou três anos, colocou-o diante de meus olhos, li-o e logo tive vontade
de encontrar Gérard Adair, porque me senti atingido pela autenticidade
com que vivenciara a atmosfera de 68.
<<A psicanálise me ajudou
muito em minha relação com os atores, para fazê-los compreender os
personagens>>
Como em "A Estratégia da Aranha", de Borges, também
em "O Conformista", de Moravia, e em outros filmes, aqui também parece
haver alusões autobiográficas que dizem respeito à relação que opõe
criticamente pai e filho. Há de fato esse aspecto em "Os Sonhadores"?
De uma certa maneira, sim. Também no romance original de
Adair. Os rapazes ficam sozinhos em casa e, portanto, no filme, era
necessário que os pais não estivessem ali, que viajassem. Quis que se
sentisse toda a tensão que havia em 68 entre pais e filhos, aquela que
define a contestação -contestação de valores e relações julgadas
superadas, nas crises, não mais adaptadas às mudanças sociais.
Os contestadores eram os jovens e, os velhos, os pais. Quis que o pai
fosse um poeta, um intelectual, para que no momento em que ele e a
mulher retornassem e encontrassem os três rapazes nus numa tenda
tuaregue erguida na sala, houvesse aquela compreensão que só um
intelectual e sua mulher, isto é, pessoas instruídas e cultas, podiam
ter diante de uma situação do gênero. Eram pessoas que não podiam se
comportar de modo convencional, talvez provocando um atrito e
constrangendo-os a fugir.
Essa coerência levara-os a falar com os filhos do romance de Bataille,
de Cocteau etc., todos autores de escrita audaz, de tons fortes, no
limite da obscenidade, pais que não podiam de repente se comportar como
dois conformistas e, por isto, optaram pela única solução possível: sair
na ponta dos pés.
Do longínquo ano de 1957 até o fim dos anos 80, o sr. não deixou de
fazer documentários e curtas-metragens. Que importância tem para o sr.
esse tipo de cinema, hoje?
O curta é importante porque permite, a quem tenha
fantasia e vontade, se exprimir com a filmadora, colocar suas idéias em
forma cinematográfica e, mais ainda, com obrigação da brevidade e,
portanto, da síntese. Desse modo florescem também novos talentos, como
já ocorreu no passado, observando por assim dizer o olho, a mão
presentes em muitos curtas... Pessoalmente faz muito tempo que eu não
dirijo curtas. Fiz um de dez minutos há um par de anos, mas dentro de um
filme intitulado "Ten Minuts Older" (Dez Minutos Mais Velho), de
episódios, todos eles de dez minutos, com o tema comum da passagem do
tempo.
Como anda sua relação com a psicanálise?
Estou indo, nos últimos tempos, a um novo psicanalista,
que é uma mulher. Depois de 30 anos com psicanalistas homens,
experimento o encontro, sério e profundo, com uma psicanalista. Freud
sustentava que a análise pode ajudar alguém a viver melhor, às vezes a
sobreviver, mas disse também que não se pode alimentar ilusões porque
das neuroses ninguém se cura de todo e também porque quem sofre de
neuroses tende a permanecer atado a elas. Se não é possível se curar de
todo, que sentido há em interromper? Por isso, melhor continuar. Pense
que agora faz 34 anos que faço análise...
Quando dirige um filme, o sr. interrompe as sessões?
Certo, porque é materialmente impossível dirigir e ir às
sessões. Após um filme, procuro retomá-las logo.
Seus filmes substituem um pouco as sessões?
Sim, seguramente um pouco. O método psicanalítico me
ajudou muito em minha relação com os atores, por exemplo no modo de
falar com eles, de fazê-los compreender certas coisas, talvez obscuras,
dos personagens que devem interpretar.
A análise é assim um novo instrumento indireto de conhecimento.
Em "O Último Tango em Paris" o sr. se inspirou nos quadros de Francis
Bacon. E em "Os Sonhadores"?
Quando dirigi "O Último Tango" havia uma grande
exposição individual de Bacon no Grand Palais. Fiquei de tal forma
impressionado com a dramaticidade daqueles corpos contraídos que pus o
nome de Bacon nos créditos do filme. Levei Vittorio Storaro, diretor da
fotografia, para ver a exposição e, sucessivamente, também Gitt Magrini,
figurinista, junto com Ferdinando Scarfiotti, cenógrafo. Depois foi a
vez de Marlon Brando, que nunca vira um quadro de Bacon, e expliquei-lhe
que gostaria de ver no seu rosto a mesma dramaticidade selvagem que há
na face das figuras de Bacon: creio que ele conseguiu.
Em "Os Sonhadores", ao contrário, não há nenhum pintor em quem tenha
pensado em especial. Nem sempre é necessária uma referência à pintura:
por exemplo, em "A Estratégia da Aranha" havia Magritte, em "O
Conformista", nada, em "1900", alguma coisa, mas nada de muito preciso.
Que significado tem o cinema em seu filme? A referência é para
sublinhar os problemas de Langlois ou por que os protagonistas são de
alguma maneira influenciados?
Em "Os Sonhadores" a sala de cinema proporciona o
encontro de Théo e Isabelle com Matthew e é o pretexto que os mantém
unidos depois do encontro. O amor pelo cinema é como ser membro de uma
sociedade secreta, clandestina, na qual se comete um crime que depois é
o grande amor pelo cinema. Espero mesmo que os jovens de todo o mundo
que desconhecem os filmes citados no filme sintam curiosidade e se
perguntem quais são eles, quem é aquele gorila com uma moça loura na
pata ("King Kong", de Schoedsack e Cooper, 1933).
A maneira como os três jovens amam o cinema é também, direi,
fisiológica: de fato não se limitam a fazer reciprocamente perguntas
sobre datas, títulos, diretores de um filme, mas com certeza revivem a
seqüência de "Bande à Part" (Jean-Luc Godard, 1964), em que os três
personagens correm durante nove minutos entre os visitantes do Louvre, e
assim eles fazem, como se tivessem pelo cinema um amor não apenas
mental, mas também físico. Aquela corrida é mesmo a repetição física de
algo que amam, exatamente como a corrida de Anna Karina, Sami Frey e
Claude Brasseur.
O sr. acha que os jovens de hoje podem ainda desejar acordar amanhã
num futuro construído por eles mesmos?
Esse é um sentimento que, quando comecei a rodar o
filme, esperava provocar nos jovens. Sei que muitas vezes a geração mais
jovem não tem nem a coragem de ser ambiciosa, de dizer "quero ter um
sonho impossível", enquanto pelo contrário é belo ter sonhos
impossíveis, que empurrem para adiante na vida. O filme pode ser
positivo nessa direção. Se era justo se rebelar em 68, deveria ser justa
a idéia de se rebelar também em 2003.
Sonho e utopia podem ainda estimular os jovens a buscar a
transformação da sociedade, do mundo?
Você falou em sonho e utopia. Meu filme quer despertar
nos jovens exatamente a emoção que em 68 acompanhava essas duas
palavras.
Como foi o trabalho desenvolvido com os atores?
Durante a filmagem, disse-lhes muitas vezes que não
queria que se tornassem três pessoas de 68, mas que se sentissem três
jovens de hoje que se põem em confronto com três de 68. Há pouco um
jornalista de Milão me dizia que, quando viu no filme o ataque da
polícia, enquadrada da janela, lhe veio súbito à mente aquele do G8, em
Gênova, quando a polícia atacou com grande violência. A observação me
deu grande prazer, porque era mesmo a minha intenção.
No último enquadramento do filme, com uma centena de policiais que
correm investindo contra os manifestantes, eu quis, para acentuar o
efeito, duplicá-lo com o sistema digital, depois ainda triplicá-lo e
quadruplicá-lo, até se tornar muito longo, com um impacto de grande
violência, exatamente por recordar a de Gênova e aquilo que sucede todas
as vezes que os rapazes contra a globalização enfrentam a polícia. Uma
espécie de cordão umbilical, em suma, que liga os rapazes do filme aos
de hoje, como se o tempo não existisse.
(©
Folha de São Paulo)
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