ItaliaOggi

                     Publicidade

 

Nem fiel nem infiel a Verdi

Vânia Laranjeira

Cena do ensaio de 'Um baile de máscaras'

Aderbal encena ópera e diz que sua função é dar ar contemporâneo à história

Helena Aragão

   Desde fevereiro, quando recebeu o convite de integrar o time de diretores teatrais brasileiros que dirigiriam uma temporada de ópera no Teatro Municipal, Aderbal Freire-Filho está mergulhado no mundo do italiano Giuseppe Verdi (1813-1901). Leu tudo que pôde sobre a obra escolhida, Um baile de máscaras. Viu várias versões em DVD, ouviu a música com afinco. E mesmo respirando ares operísticos dia e noite há quatro meses, faz questão de frisar que hoje, dia da estréia (as récitas se repetem quinta, sexta, domingo e segunda), continua na condição de aprendiz. A ponto de achar que o regente italiano Fabiano Monica, titular do Teatro de Parma e convidado para a empreitada, devia dar entrevistas em seu lugar.

   - Sei que estou falando sobre um universo do qual não sou o melhor representante.

   Aderbal conta que as lições vêm de todos os lados do furacão que envolve 200 pessoas da orquestra e coro do Teatro Municipal, além do elenco de convidados (leia ao lado). Para ele, a experiência representa muito: a oportunidade de trabalhar com um gênero que sempre o instigou; a chance de lidar com uma produção grandiosa, orçada em R$ 870 mil (dos quais R$ 620 mil vêm do governo do Estado e o restante da Embratel); e, principalmente, o desafio de fazer o que acredita ser sua missão como dramaturgo: dar ar contemporâneo à história de conspiração e assassinato que envolve um triângulo amoroso formado pelo rei da Suécia, um súdito e sua esposa.

   Na hora de falar das opções da montagem, a modéstia do iniciante sai de cena e é substituída pelo discurso seguro do diretor veterano, que foi um dos maiores destaques do ano passado, com peças como O que diz Molero. Para ele, o ponto final que o autor colocou na obra em 1858 pode ser considerado como reticências.

   - Nova leitura não é traição. Às vezes me perguntam se fui fiel ou criativo. Não é oposição. Discuto a equação que diz que o tradicional é fiel e o novo é infiel ao espírito da obra. A montagem tradicional faz com que se ouça a música com bons ouvidos, mas não se veja o espetáculo com bons olhos.

   Ele justifica a teoria com a idéia de que a obra deve servir à época em que é encenada.

   - Quando Verdi concebeu a história, aquela cena combinava com as roupas e a arquitetura daquele momento. Dar cena contemporânea a uma música fascinante é o que posso oferecer.

   Por isso, nada de rococós e móveis que façam referência ao passado. Usando a filosofia ''menos é mais'', Aderbal optou por pouco ou nenhum objeto em cena, cenário abstrato, assinado por seu colaborador habitual José Manoel Castanheira, e figurinos grandiosos riscados por Marcelo Pies. As máscaras, que pelo libreto original apareceriam só no baile que encerra o espetáculo, estão em todas as cenas, representando as mentiras e hipocrisias que faezm parte do comportamento humano. Tudo sem excessos ou apelações.

   - É claro que quando se fala em montagens contemporâneas podem surgir ousadias caprichosas. Ouvi falar que há uma versão de Um baile de máscaras em que o elenco fica sentado em privadas. Mas esse não é o padrão - conta.

   Quando não é calcada em invencionices injustificadas, Aderbal acredita que a releitura contemporânea sempre tem a acrescentar. Ainda mais numa cidade como o Rio, que vê tão poucas óperas.

   - O público brasileiro está mais preparado para a mudança que o europeu - acredita.

   Para contar com a suposta receptividade da platéia carioca, ele não poupou esforço. E teve que adaptar seu estilo de trabalhar, que faz do encontro com o elenco os principais momentos de criação, à realidade de poucos ensaios.

   - Concebi os eixos da montagem, mas jamais conseguiria chegar com a concepção 100% pronta. Tentei um meio-termo.

   O equilíbrio no palco é conquistado a duras penas. Nas últimas semanas, Aderbal está sem pouso fixo além do Municipal. Mudou provisoriamente de endereço e quando o bicho pega dorme pelo Centro mesmo.

   - É o outro lado bom de tudo isso. Redescobri a Cinelândia e o Amarelinho - resume, feliz.

(© JB Online)


Detalhes do baile

Custo

R$ 870 mil

Personagens

A montagem conta com seis nacionalidades: o trio principal será representado pelo mexicano Arturo Barrera e pelo brasileiro Sebastião Teixeira (Renato), pelo ucraniano Sergel Kunaev e o georgeano George Onian (o rei Riccardo) e pela italiana Simone Bertini e a japonesa Eiko Senda (Amélia)

Temporada

As próximas óperas encenadas no projeto estarão a cargo de Sérgio Britto (Elisir d'amore, de Donizetti) e Bia Lessa (A cena de origem, de Egberto Gismonti e Haroldo de Campos, a confirmar)

(© JB Online)


O baile de Aderbal

Adriana Pavlova

   Aderbal Freire-Filho até esqueceu o caminho de casa. Deixou o apartamento em Copacabana, no início do mês, e começou a se esconder num apart-hotel em Ipanema em busca de isolamento criativo. Há alguns dias, como até Ipanema não deu conta, arrumou um quartinho num hotel na Cinelândia. De lá, são apenas alguns passos até seu novo endereço: o Teatro Municipal.É ali que Freire-Filho tem passado dias inteiros, ora ensaiando atores, ora comandando solistas internacionais, mexendo no coro da casa, discutindo cenário e figurino, conversando com o maestro sobre música ou até simplesmente burilando sua encenação. Tudo para erguer “Um baile de máscara”, de Verdi, nova produção de ópera da casa, que estréia na quarta-feira, para cinco récitas, dando continuidade ao projeto da presidência do Municipal de fazer de sua temporada lírica de 2004 uma temporada de diretores brasileiros de teatro. Para Freire-Filho, trata-se de uma quase novidade. Até então, o diretor, que está em cena desde os anos 70, só tinha posto as mãos numa ópera em 1988, e no Uruguai. Também foi um Verdi (“Simon Boccanegra”), mas nada que se compare à grandiosidade que envolve este “Um baile de máscara”.

   A ópera da fase madura da carreira de Verdi volta ao Teatro Municipal 44 anos depois de uma última produção completa — até teve uma versão-concerto em 1989 dirigida por Fernando Bicudo, mas não passou disso — e com um investimento à altura. São R$ 900 mil (desses, R$ 250 mil vêm da Embratel) por trás de um espetáculo que tem a presença de 48 atores, cem cantores do coro da casa, a orquestra do teatro regida por Fabiano Monica, orquestra de câmara convidada para a cena final do baile, 16 bailarinos da companhia do Municipal e 12 solistas, entre brasileiros e estrangeiros. Cerca de 200 pessoas sob a orquestração de um Freire-Filho bem menos assustado do que se poderia imaginar:

   — De um lado, sinto-me como um intruso, invadindo um mundo que não é meu, mas, do outro, estou em casa, porque estou no palco. É como eu estivesse fazendo em casa uma arte de cujos segredos ainda sou um aprendiz. A junção do mundo da música com o mundo do teatro é cheia de minúcias que me fascinam.

   Apesar da conversa de aprendiz, o diretor não abriu mão de seu costumeiro processo de trabalho, que acontece no palco. Mas, antes de chegar lá, fez o dever de casa. Como não é nenhum melômano, comprou um novo CD-player e passou a ir para tudo quanto é lado escutando uma versão de “Um baile de máscara” interpretada pela Filarmônica de Berlim e regida por Herbert von Karajan. Também viu e reviu inúmeras vezes duas montagens diferentes da ópera estreladas por Pavarotti, ambas no Metropolitan de Nova York.

   Com o libreto na cabeça, Freire-Filho partiu para um trabalho originalmente mais corrido do que qualquer montagem teatral. Os solistas, ele só começou a ensaiar há exatamente duas semanas. Com o coro foi pior: só dois ensaios, por causa de questões internas do teatro.

   — A ópera é uma arte globalizada, de elenco globalizado, porque depende de vozes que vêm de diferentes partes do mundo. Por isso temos que ser rápidos — reflete o diretor, sem, contudo, concordar exatamente.

Montagem foge de qualquer tradicionalismo

   Usando todos os segundos disponíveis — daí a opção do hotelzinho vizinho ao Municipal — ele costurou um espetáculo em que as máscaras do título e do baile final ganham um sentido maior. Não há fidelidade histórica nos cenários abstratos assinados por José Manuel Castanheira e os figurinos de Marcelo Pies sugerem a nobreza que envolve a história. Freire-Filho também não optou ferrenhamente por uma das duas versões escritas por Verdi (numa a história se passa na Suécia, e na outra, nos Estados Unidos). Para o diretor, o que importa mesmo é entender que história é essa.

   — O baile de máscara não é referência somente à festa final onde se dá o desfecho da história. É uma referência a toda a situação, na qual todos estão mascarados. Ali Verdi mostra-se um extraordinário dramaturgo. É incrível como ele é capaz de com música referir-se à tradição das máscaras. A mim, como encenador, não interessa o figurativo de cada cena, mas sim o significado — diz ele, que usa 14 mascarados todo o tempo no palco.

   Diante disso, o novo “Um baile de máscaras” do Municipal anuncia-se nada tradicional:

   — As montagens tradicionais tendem a não ter vida, porque recuperam valores velhos.

   O baile na casa nova de Freire-Filho promete ser animado.

(© O Globo)


De olho na ópera

DIRETORES BRASILEIROS: São quatro óperas produzidas no Teatro Municipal este ano e quatro títulos dirigidos por diretores brasileiros de teatro. A “Um baile de máscara” comandada por Freire-Filho é a segunda de uma temporada que foi aberta por “A flauta mágica”, de Mozart, dirigida pelo estreante — pelo menos na cena lírica — Moacyr Góes. Sérgio Britto aceitou o desafio de encenar “Elisir d’amore”, de Donizetti, e Bia Lessa vai levantar “A cena de origem”, criação inédita com música de Egberto Gismonti, texto de Humberto de Campos.

ELENCO: Os papéis principais são divididos sempre por dois cantores. O ucraniano Sergei Kunaev e George Onian (da Geórgia) fazem Riccardo. A italiana Simona Bertini e a japonesa radicada em São Paulo Eiko Senda são Amélia. Renato será vivido pelo mexicano radicado no Rio Arturo Barrera e pelo brasileiro Sebastião Teixeira.

RÉCITAS: Serão cinco récitas. Depois da estréia, na quarta-feira, haverá espetáculos quinta e sexta-feira, domingo e segunda-feira.

HISTÓRICO: “Um baile de máscaras” subiu ao palco do Municipal pela última vez em 1989, mas em formato de concerto. A última montagem mesmo, com cenário e figurino, foi em 1960. Antes disso, entre 1918 e 60, foram oito versões. A estréia brasileira dessa obra de Verdi que data de 1858 aconteceu em 1862, no antigo Theatro Lírico Fluminense.

(© O Globo)


Um triângulo amoroso na rota da conspiração

   Resumindo bem, “Um baile de máscaras” acontece em três atos e gira em torno do governador Riccardo (na versão passada na Suécia, ele é Gustavo), que, vítima de uma conspiração, corre o risco de ser assassinado. Paralelamente a isso, Riccardo se apaixona por Amélia, mulher de seu mais fiel secretário, Renato. Ela também ama o governador.

   Incentivada pela bruxa Ulrica, Amélia vaga pela noite em busca de uma erva que cure seu amor proibido. Os dois se encontram por um acaso, dando a chance para que Riccardo confesse sua paixão. É nesse momento que Renato surge para avisar a seu chefe que a vida dele está em perigo. Na hora, Amélia consegue se disfarçar, mas pouco depois seu marido descobre a traição, decidindo se vingar do amigo. Sem saber disso, Riccardo prefere desistir do amor, nomeando Renato para um cargo fora do país.

   Na cena final, todos se reúnem num grande baile, inclusive os conspiradores. Entre danças e música, Renato apunhala Riccardo, que antes de morrer diz que sempre respeitou Amélia, fazendo com que seu assassino sinta-se completamente culpado.

(© O Globo)
 

Para saber mais sobre este assunto (arquivo ItaliaOggi):

ital_rosasuper.gif (105 bytes)
Escolha o Canal (Cambia Canali):
 
 

Rádio ItaliaOggi

 

 

© ItaliaOggi.com.br 1999-2004

O copyright pertence aos órgãos de imprensa citados ao final da notícia