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Melhor saga doméstica de Eduardo de Filippo, 'Sábado, domingo e
segunda' extrai humor do cotidiano
Macksen Luiz
No teatro de Eduardo de Filippo, a vida é pouco mais do que a
preparação do almoço de domingo ou as lágrimas que caem depois de anos
de olhos secos. São trivialidades, pequenos detalhes entrevistos nos
becos ou nas casas da Nápoles em que De Filippo nasceu e desenvolveu a
sua sensibilidade para retratar fatos domésticos aparentemente
desprovidos de importância que possa ir além dos sobrados com roupas
penduradas nos varais. Os sentimentos são simples, as atitudes
simplórias e a sinceridade, invariavelmente, se manifesta com vozes
alteradas e gestos fartos.
A dramaturgia de Eduardo de Filippo, fincada em
Nápoles e com raízes populares, vai buscar flagrantes de existências
nada especiais que se nivelam na sensaboria do cotidiano. Sábado,
domingo e segunda, em cartaz no Teatro Maison de France, marca
pelos dias do título a rotina de vida de um casal que, durante esses
três dias - entre a preparação do almoço dominical e da ressaca do dia
seguinte - repassa as diferenças acumuladas em anos de casamento.
A família, com filhos, parentes, agregados,
vizinhos e empregados, participa das discussões, alimentadas por
incompreensões acumuladas que explodem no almoço dominical. A mesa,
objeto símbolo da reunião familiar, domina a cena como o elemento que
agrega e dispersa todos aqueles que, diariamente, praticam em torno
dela o difícil exercício da convivência.
O texto de Eduardo de Filippo, com sua ''família
típica do teatro napolitano'', trata dos afazeres afetivos de uma casa
em que os problemas da empregada se misturam com os namoros
contrariados dos filhos e com as dificuldades do sobrinho protegido
pela mãe viúva. O casal, que ao longo do duradouro casamento acumula
palavras não-ditas, se confronta em pleno almoço dominicial, ao
eclodir cena de despropositado ciúme. Essas minudências, com seus
detalhes corriqueiros, amores acomodados e briguinhas inconseqüentes,
acabam por constituir o estofo da peça, que é, talvez, a melhor das
sagas domésticas do autor.
O que oxigena esse núcleo de dramaturgia é a origem
popular do teatro de Eduardo de Filippo, com os seus tipos bem
característicos e a heroização do cotidiano e idealização dos bons
sentimentos. É uma dramaturgia de caráter popular, extremamente
comunicativa, que demonstra a ingênua piedade e sincero carinho de
Filippo por seus personagens.
Na vizinhança do novelão, as comédias dramáticas do
autor, como Sábado, domingo e segunda, se situam no limiar do
melodrama e, se o diretor não encontrar o meio-termo entre o humor
popular e o anonimato das personagens, corre o risco de banalizar esse
universo. A direção, assinada por Marcelo Marchioro e Bárbara Bruno,
se mantém na linha mediana entre esses dois pontos, tentando
acondicionar a montagem num invólucro artesanal, além de dar realidade
palpável à cena.
Até mesmo o cheiro do molho, preparado no palco, é
incorporado ao espetáculo, aguçando esses contornos domésticos para
permitir a sensação de ''verdade'' a um entrecho que resvala o
melodrama. A montagem conserva, apesar de alguns desvios, o espírito
do teatro popular napolitano, com os seus tipos ganhando destaque em
cada um dos pequenos monólogos que lhes são reservados.
A cenografia de Gianni Ratto distribui elementos
cênicos para sugerir uma casa napolitana, mais do que reproduzi-la. A
iluminação, também de Gianni Ratto, é bastante adequada. O extenso
elenco tem nas participações mais características os melhores
resultados.
Vic Militello agarra-se ao papel da empregada de
maneira bonachona. Renato Consorte faz do avô resmungão um simpático
tipo. Benvindo Siqueira está mais controlado, nos improvisos e na sua
natural exuberância cômica. Tadeu Di Pyetro e Marino Rocha compõem com
humor mais explícito os seus personagens.
André Frateschi e Vanessa Goulart formam o casal em
permanente atrito. Suia Legaspe e Norma Gabriel vestem de maneira bem
discreta os figurinos de mulheres apagadas. Ernando Tiago, Renato
Scarpin e Gonzaga Pedroso têm desempenhos regulares. Roberto Arduin
fica aquém das possibilidades do ator amador, e Alfredy Estrella, como
o alfaiate, tem participação quase episódica. Bárbara Bruno dá um
certo frescor à cunhada.
Paulo Goulart joga para a platéia, recorrendo
demais à sua máscara expressiva. Nicette Bruno, apesar de mostrar de
início, com sotaque italianado que abandona em seguida, a
incandescente mãe italiana, ao longo da encenação prefere suavizar
demais a figura da mãe.
Sábado, domingo e segunda. Texto: Eduardo de
Filippo. Direção: Marcelo Marchioro e Bárbara Bruno. Com Nicette
Bruno, Paulo Goulart, Bárbara Bruno. Teatro Maison de France. Quinta e
sexta, 19h30. Sábado, 20h. Domingo, 18h. R$ 35 (qui., sex. e dom.). R$
40 (sáb.). Até 1º de agosto.
(©
JB Online)
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