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Simona Bertini interpreta Amélia em 'Um baile de máscaras' |
Montagem do Municipal para ópera de
Verdi decepciona
Clóvis Marques
Crítica/Música clássica
Com a nova
produção de Um baile de máscaras, que subiu ao palco anteontem
(novas récitas hoje, domingo e segunda-feira, com alterações no elenco),
o Teatro Municipal do Rio de Janeiro parece chegar ao fundo do poço da
mediocridade e do estranhamento com as obras-primas do canto lírico. Nos
últimos anos, mais de uma vez eu me senti compelido a ressalvar aqui a
imperdível grandeza de maravilhas como o Don Carlo, de Verdi (em
1998), ou Così fan tutte, de Mozart, (1999), estimulando o
público a comparecer, mesmo diante de prestações musicais e vocais aquém
do esperável numa arte tão sofisticada.
Desta vez, não
escapam nem as duas garantias que há lustros constituem as migalhas
salvadoras em nossa casa de ópera: a mensagem estética e emocional da
própria obra, laboriosamente rebuscada pelos espectadores com mais
memória, cultura ou imaginação, e a encenação, com os prestígios mais
fáceis de cultivar dos cenários e figurinos que cativam os olhos e da
função teatral.
A coisa chegou
a um ponto tão desolador que cabe perguntar a quem se pensa estar
enganando. Ao público, a julgar pelos aplausos muitos chochos da outra
noite, é que não. Como envolver e transportar com uma Amélia que mal dá
conta da ária Morrò, ma prima in grazia, no último ato, porque é
a única que fica quase toda no registro vocal que ela consegue gerir em
padrão aceitável?
Como despertar
o interesse e prender a atenção com um Riccardo hesitante, pálido e dado
a destimbrar e desentoar, um Renato tão distante da grandeza em sua
vociferação?
Os três
principais solistas eram estrangeiros. Cúmulo da ironia, o quarto e o
quinto papéis em ordem de importância e os dois comprimários de destaque
eram defendidos na estréia com dignidade artística e encanto musical por
cantores que podemos presumir brasileiros, mas sobre os quais não se
encontra, além do nome, uma linha sequer no programa incipiente vendido
ao público da produção da Secretaria de Estado de Cultura.
Rita Cammarano
tem toda a leveza vocal, o colorido saltitante e os agudos certeiros de
Oscar. Silvia Pasini percorreu com envolvente segurança, em seu timbre
quente, os saltos desafiadores e o dramatismo visceral de Ulrica.
Douglas Hahn e José Jeller foram sonoros e musicais como Samuel e Tom.
Mas desde quando os coadjuvantes fazem uma ópera?
Se a direção
musical passou a muitos quilômetros da emocionante riqueza da partitura
de Verdi - para não dizer da pura e simples mise en place-, a
encenação é de uma inanidade desconcertante, em sua opção pela abstração
- ou antes, a inexistência - do cenário, na confusão dos figurinos e da
movimentação cênica, na monotonia chapada da iluminação...
Para o
jornalista, é triste cair assim na pura e simples valoração, e tão
negativa. Mas o espetáculo oferecido no Municipal desta vez passa longe
demais do que pode ser uma ópera de Verdi apresentada com um nível
artístico que possa ser considerado mínimo.
(©
JB Online)
Uma grande ópera
romântica perdida num cenário futurista
Luiz
Paulo Horta
Um Verdi dos
melhores — o “Baile de máscaras” — estreou quarta-feira no Teatro
Municipal; e, como todo bom Verdi, merece ser visto. Esta é uma ópera
posterior à trilogia que catapultou Verdi para o Olimpo da música
(“Rigoletto”, “Traviata”, “Trovador”). O compositor estava à procura de
novas linguagens. O adensamento do tecido musical é evidente desde a
abertura, onde um belíssimo fugato já anuncia o que ele ia fazer mais
tarde na “Aída”. A caracterização dos personagens é mais fina, por
exemplo, do que no “Trovador”.
E, com tudo isso, o “Ballo in
maschera” continua a ser uma ópera romântica, com uma daquelas histórias
que exigem uma certa adaptação interior do espectador moderno. Riccardo,
governador de Boston no século XVII, apaixona-se por Amelia, mulher do
seu amigo íntimo e secretário (Renato). Seu amor é correspondido, mas a
consciência de Amelia a perturba, e faz com que ela consulte Ulrica, uma
feiticeira. Por conta disso, há um encontro fortuito entre Riccardo e
Amelia num lugar soturno, e eles acabam sendo surpreendidos por Renato,
que vinha avisar o amigo e governador da existência de uma conspiração
contra a sua vida. Renato, obviamente, muda de lado, e, apesar das juras
da mulher de que não o traíra, junta-se à conspiração. Riccardo será
apunhalado por Renato num baile de máscaras.
Personagens em busca de clima num palco interminável
Material mais que suficiente para
um grande drama romântico. Mas, nesse “Ballo”, o jogo de sentimentos e
personagens é muito mais complexo que nas óperas anteriores. Face à
violência intrínseca da história principal, há até um lado burlesco
(Verdi chega a fazer o coro rir-se da tragédia de Amelia); há um
personagem “light” como o pajem Oscar (muito bem defendido, nesta
montagem, por Rita Cammarano).
A atual versão do Municipal tem
coisas musicais, e até interessantes, como a concepção cênica de Aderbal
Freire-Filho — visão moderna onde, num palco imenso, figurantes envergam
máscaras, ou correm de um lado para o outro, transmitindo um sentimento
de angústia. Sergei Kunaiev e Simona Bertini defendem razoavelmente seus
papéis (o que é menos verdade para o Renato de Arturo Barrera). A
orquestra, em alguns momentos, fornece um som consistente.
Mas também há problemas,
começando pela regência não muito firme de Fabiano Monica. E, apesar da
correria dos figurantes, há um certo imobilismo cênico, caracterizado
por painéis de cores vibrantes que estão sempre lá, numa atmosfera à
la Manabu Mabe. E há o palco vastíssimo, quase desabitado.
Cenários de ópera não servem só
para sugerir atmosferas: também dão um apoio aos cantores, tanto vocal
como psicologicamente. No “Ballo” de agora, os personagens estão soltos
no espaço; e a feiticeira (Silvia Pasini, de atuação bastante razoável)
não encontra clima para as suas artes mágicas.
Esse clima abstrato acaba
impedindo que a ópera “engrene”; parece sempre estar faltando alguma
coisa. E há, mais uma vez, uma predominância do elemento teatral sobre o
musical/operístico. Montagens modernas sempre são possíveis. Mas,
fazendo ópera, é preciso pensar sobretudo em ópera — que começa na
garganta.
(©
O Globo)
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