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Michael Kimmelman
Do New York Times
Eu geralmente pulo a visita guiada preview
da Bienal de Veneza, quando o mundinho das artes lota os Giardini, onde estão os
pavilhões nacionais. Nesta última abertura, 14 mil pessoas abarrotaram esta
pré-estréia. Sem os profissionais do ramo te empurrando, é sem dúvida muito mais
fácil ver arte. Mas este ano, como confundi as datas de abertura para credenciados com a
do público, vi-me no meio da tal visita guiada, tentando driblar a multidão, o calor e
obras de arte eventualmente terríveis. Mas todos nós mantínhamos a pose e fingíamos
uma estadia muito boa, que não permitia suar ou queixar-se.
Se algo como o que se vê ali estivesse acontecendo em qualquer outro lugar,
os mafiosos já tinham mandado parar com isso há muito tempo. Mas estamos em Veneza, um
lugar onde há mais de cem anos vemos o que acontece de melhor na arte do mundo.
Uma Bienal cansativa, enervante e pouco inspirada
Sempre há jóias para serem encontradas, embora a colheita seja
especialmente difícil nesta 50 edição. Esta é a mais cansativa, pouco inspirada e
enervante Bienal de que me recordo. O curador, Francesco Bonami, deu a ela o tradicional
título nebuloso: Sonhos e conflitos: a ditadura do espectador. E nada do que
é visto o esclarece.
No Arsenale, oito mostras competem entre si, com obras entulhadas. Os
trabalhos de bons artistas são mal mostrados. Pode-se chamar isso de ditadura do curador.
Talvez em outro contexto a mostra sobre cultura árabe, organizada por Catherine David, e
que tem curadoria do artista Gabriel Orozco, pudesse ser instrutiva. Em Veneza, foi
engolida. No fim do Arsenale, a exposição Estação Utopia mostra uma cidade
de cubículos de madeira compensada, com mapas anotados, livros, terminais de computador,
vídeos... É impossível distinguir o trabalho de uma artista do de outro.
Um dos vídeos de Estação Utopia ganhou o prêmio para artistas
com menos de 35 anos. Foi feito pelos ingleses Oliver Payne e Nick Relph. Tive que voltar
lá para encontrá-lo (ou o que achei que era ele): um clipe de música upbeat com meninos
de skate, gente dançando nas ruas, ou se beijando nos trens, que é interrompido pelo
barulho de caçadores atirando em veados. Não era de todo mau.
O prêmio de melhor pavilhão foi dado a Luxemburgo, graças a um trabalho de
Su-Mei Tse formado por vários quartos. Um é à prova de som; outro contém uma grande
esfera roxa e duas cadeiras de vime; outro, um vídeo sobre o deserto; o outro, com uma
violoncelista tocando em plenos Alpes. É meditativo, musical e vagamente poético.
Com centenas de artistas, é quase impossível fazer uma lista de melhores
artistas, mas sempre dá para ver que há bons nomes negligenciados pelos holofotes e pelo
texto do curador. Minha contribuição neste último time é Tino Sehgal, inglês de 27
anos que vive em Berlim. É um absurdo que seu trabalho não tenha qualquer tipo de
identificação: uma gravação fantasma, onde uma mulher canta This is propaganda,
you know, you know; a gravação é provocada sempre que alguém passa por um
determinado ponto da sala. Sehgal é um provocador inteligente. Merecia ser recompensado.
Tenho uma idéia utópica: uma Bienal pequena, amplamente discutida por um
curador corajoso que escolha uma dúzia ou mesmo algumas dúzias de favoritos, que
funcionassem como âncoras dos outros trabalhos, instalados coerentemente nos pavilhões,
de modo a dar uma visão didática e agradável ao público. Imagino uma exposição de
arte digestiva, antiestética, que dê prazer ao público em visitá-la depois da saída
dos profissionais de arte.
Mas eu estou sonhando. Deve ser o calor.
(© O Globo
On Line)
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