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A magia de 'Amarcord'

Amacord, de Fellini

A mais cômica obra prima de Fellini faz 30 anos e volta ao circuito em cópias novas

Ely Azeredo
Especial para o JB

   Quando Federico Fellini fez Os boas-vidas (I vitelloni), 1953, o cinema italiano ainda vivia as glórias do neo-realismo, com sua preocupação de refletir rigorosamente a realidade social. Apesar de o roteiro ser inspirado em sua juventude em Rimini, balneário às margens do Adriático, ele voltou as costas à terra natal e filmou os lugares de sua imaginação em cenários muito diversos. Vinte anos depois, com Amarcord - em exibição em cópias novas - retornou às memórias de Rimini, sem se prender ao perfil real, e comandou a construção dos cenários nos estúdios da Cinecittà. A liberdade, conquistada com o sucesso fenomenal de filmes como Na estrada da vida e As noites de Cabíria, permitiu ao cineasta radicalizar a experiência de Os boas-vidas: a narrativa evolui através de uma sucessão de painéis, nos quais os ambientes, as cores e a atmosfera são freqüentemente mais importantes do que as dúzias de personagens.

   Em dialeto da Romagna, ''a m'arcord'' significa Io mi ricordo (Eu me lembro). O roteiro deu origem ao mais cômico dos filmes do mestre, apesar da sua nem sempre subterrânea corrente dramática. É até mais cômico que uma comédia declarada, como Abismo de um sonho (Lo Sceicco Bianco). Nunca foi tão evidente o passado de caricaturista de Fellini.

   É uma evocação dos anos 30, quando Mussolini fazia muitos italianos acreditarem na eclosão de um novo império a partir de jogos de cena como a invasão da Etiópia. ''Considero o fascismo uma espécie de degenerescência (ao nível histórico) de uma estação humana - a adolescência - que se corrompe e se desenvolve numa proliferação monstruosa, sem conseguir evoluir e amadurecer.'' O fenômeno político lhe interessou através do comportamento de pessoas que têm participação secundária na era mussoliniana: ''... a maneira de ser fascista, sua psicologia, sua emotividade''. Para ele, ser fascista ''é ser provinciano, ignorante, presunçoso, exibicionista, infantil''. E frisa: ''infantil, muito precisamente''. E o infantilismo caracteriza grande parte do comportamento da gente que se acotovela na praça, à saída da igreja ou do cinema Fulgor, comentando os heroísmos de Gary Cooper, a sedução das turistas nórdicas pelo machão italiano, a ninfomania de Volpina (mostrada como manifestação do pecado) ou o rebolado da manicure Gradisca - a bela da cidade - cujo traseiro adquire um halo tão mitológico quanto o da escultura local que incendeia a imaginação da garotada. O erotismo é refinado pelo humor e pela poesia.

   Amarcord projeta uma galeria humana sempre cambiante, ora focalizada em compartimentos estanques (uma família, uma turma em aula), ora na confluência dos lugares públicos da pequena cidade. A confluência é quase a regra; o isolamento de um ou de poucos personagens, ocorrência esporádica. A mobilidade é uma das características dessa abordagem da vida provinciana. Outra característica é a busca incessante do evento, da comemoração, da festividade - tão ligada ao clima político, mantido como motivo recorrente, como ao tema da solidão e de seus disfarces que atravessa toda a obra de Fellini.

   O sentimento de desamparo emocional, de energias em disponibilidade, leva os personagens a agarrar e a tentar transformar em tentativas de comunicação coletiva todos os pretextos, desde a passagem de um navio até mutações de meteorologia. Esse desamparo é visto pelo Fellini de Amarcord como um prolongamento anormal da infância e da adolescência. Titta, o filho do mestre de obras, o menino que se afigura, até certo ponto, materialização do Fellini dos verdes anos, lembra um infantilismo constrangedor. Como observou o crítico Robert Benayoun, ele, assim como os colegas de escola, não parece ter uma idade real. De fato o ator Bruno Zanin é um rapaz e se apresenta estranhamente em calças curtas ou de golfe. Ao contrário de Os boas-vidas, cujos vitelloni refletem um temor universal às responsabilidades da idade adulta, Amarcord parte das figuras de meninos cuja idade parece congelada.

   Amarcord deve mais à fantasia do que à memória. A cidade apresenta uma dimensão cósmica, que toca o fantástico. Para os personagens, todas as chuvas são diluvianas, todas as neves, históricas; o nevoeiro infunde terror supersticioso às crianças e sugere aos velhos o além-túmulo.

   Gradisca (admiravelmente plasmada na figura sinuosa da francesa Magali Nöel, de A doce vida) é um dos diversos personagens citados nas memórias de Fellini, que encarna no garoto Titta. A cena em que Titta, no escurinho do cinema Fulgor, ousa escalar com a ''mão boba'' as coxas da manicure (''O que você está fazendo?''), está entre as vividas por Federico. Ele conseguiu entrada franca no Fulgor fazendo caricaturas das estrelas dos filmes programados para exposição em vitrines de lojas. Muitos anos depois, sabendo que a sedutora havia casado com um marinheiro, Fellini descobriu seu paradeiro. E teve a decepção de não reconhecê-la sobre os traços da velhice.

(© JB Online)

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