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Ivo Barroso
Entre as obras de James Joyce seria lícito
acrescentar a sua descoberta de Italo Svevo e a generosidade com que o promoveu. Foi por
sua indicação e iniciativa que A consciência de Zeno (1923) chegou às
mãos de Valery Larbaud, que estava revendo a tradução do intraduzível Ulisses
para o francês. Larbaud comunicou o achado ao crítico literário Benjamin Crémieux e
ambos, reconhecendo logo a grandiosidade da indicação de Joyce, trataram de mandar
traduzir o romance, encarregando-se eles próprios de publicar alguns capítulos e uma
apreciação crítica na revista literária Navire d argent, de que eram
mentores.
Outro crítico, Roberto Bazlen, que considerava Senilidade (o
outro grande livro de Svevo) uma verdadeira obra-prima, e o único romance moderno
que a Itália possui, foi quem chamou, em setembro de 1925, a atenção de Eugenio
Montale para as obras de Svevo, daí decorrendo os dois artigos consagratórios publicados
em dezembro de 25/janeiro de 26, que abriram na Itália as portas do reconhecimento para o
escritor triestino que havia sido ironicamente descoberto pela França.
A gratidão de Svevo não se fez esperar: ao publicar, por insistência de
Joyce, a segunda edição de Senilidade, em 1927 29 anos depois do
fracasso da primeira escreve no prefácio que Joyce renovou para ele o
milagre de Lázaro. Que um escritor, sobre quem impende imperiosa a própria obra, haja
podido desperdiçar em mais de uma oportunidade seu tempo precioso para favorecer os
colegas menos afortunados, é gesto de tal generosidade que, segundo penso, explica o
inaudito sucesso que teve, de vez que todas as suas palavras, todas as de que se compõe a
sua vasta obra, brotaram desse mesmo e magnânimo espírito.
Pelo que se sabe hoje sobre o caráter algo inconsistente de Joyce, a julgar
pelas biografias e o depoimento de seu irmão Stanislaus, fica sempre a dúvida se ele
teria agido exclusivamente em função do reconhecimento literário pela obra do confrade.
Chegando a Trieste em 1907 como jovem professor da Escola Berlitz local, Joyce teve a
sorte de encontrar no industrial Ettore Schmitz, 46, não só o aluno particular ideal,
mas ainda o amigo rico que lhe emprestava consideráveis somas a título de adiantamento
das lições. Joyce sabe agradar: conhecendo a atividade literária amadorística de
Ettore, que já publicara dois livros com o pseudônimo de Italo Svevo, interessa-se por
conhecê-la e lhe pede seus livros. Lívia Veneziani, a bela esposa e prima de Ettore, 14
anos mais nova, contou mais tarde que, já na segunda vez que os visitou, Joyce sabia
trechos do livro Senilidade de cor! Segundo um retrato do pintor Rietti, amigo
e também devedor do casal, Lívia era muito bonita, de olhos claros, um pouco
rechonchudinha, de peito de pomba, mas fazendo o estilo estético da época. Ettore era
muito ciumento, mas, mesmo assim, Lívia, que já dominava outros idiomas, também teve
lições com Joyce, que se inspirou de tal forma no casal a ponto de retratar Ettore no
judeu Leopold Bloom, de Ulisses, e dar o nome de Anna Lívia Plurabelle à
heroína de Finnegans Wake. Já ausente de Trieste, Joyce teve certa
dificuldade em explicar por carta a Svevo aquela fixação por Lívia: Com
relação à personagem Anna Lívia, diga à sua mulher que dela tomei apenas os cabelos,
meramente como um empréstimo, para adornar o pequeno rio de minha cidade, o qual seria o
maior do mundo se não fossem os canais que vêm de longe para se reunir ao grande divino,
Antônio Taumaturgo, e, após, tendo mudado de idéia, retomam como vieram...
Curioso é que, depois da morte de Svevo, falecido num estúpido acidente de automóvel
aos 67 anos, Joyce escreveu à viúva sete cartas, todas é, certo, muito respeitosas.
Com estes ou sem estes agravantes na história, o certo é que se deveu à
sensibilidade do leitor Joyce a descoberta da revolucionária prosa de Svevo.
Revolucionária não só por ter sido ele a introduzir o enfoque psicanalítico nas
motivações dos personagens, mas principalmente por ter rompido a barreira do
discursivismo na técnica do romance.
A consciência de Zeno tem sido considerado, às vezes com certa
precipitação, como uma apologia do fumo e sabe-se que Svevo era fumante irretratável;
em seu leito de morte, no hospital, ele próprio pediu um último cigarro. Mas
o fumo, ou melhor, a(s) tentativa(s) de deixar de fumar, no livro, funcionam na verdade
como via condutora para a catarse psicanalítica. Não que houvesse aí, como no caso do
tabagismo, um vínculo autobiográfico. Svevo nunca recorreu diretamente à psicanálise
embora se interessasse desde os primórdios por ela, a ponto de traduzir uma edição
abreviada de A interpretação dos sonhos, de Freud. Seu contato com a nova
ciência se deu por via indireta: seu cunhado Bruno, considerado esquizofrênico pela
família, foi levado aos 18 anos para Viena e entregue aos cuidados de Freud, que o
despachou como incurável. Posso curar quem deseja a cura, mas não quem a rejeita,
teria dito Herr Doktor. Daí decorre a prevenção de Svevo para com a nova ciência.
O POETA IVO BARROSO traduziu A consciência de
Zeno
(© O Globo
On Line)
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