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José Castello
Na era dos transgênicos, das transnacionais e dos
transexuais, não é de estranhar que um escritor decida, para além dos registros fixados
em sua carteira de identidade, repartir-se entre duas nacionalidades. Nascido em Pisa, em
1943, o escritor italiano Antonio Tabucchi ganhou, por conta de sua literatura, uma dupla
nacionalidade. Desde que, aos 22 anos de idade, descobriu a poesia de Fernando Pessoa, ele
se aproximou de uma forma irreversível de Portugal. Além de se tornar o principal
tradutor de Pessoa para o italiano, Tabucchi especializou-se, ainda, em literatura
portuguesa, disciplina de que é hoje professor na Universidade de Siena. E chegou a
escrever algumas narrativas em português.
Livro sai no Brasil 16 anos depois de lançado na Itália
Essa preferência pelos estados fronteiriços toma forma literária em Os
voláteis do beato Angélico, de 1987, que sai agora pela Editora Rocco. São textos
curtos, que o próprio Tabucchi prefere chamar, com modéstia injustificada, de quase-contos.
Relatos inspirados, muitas vezes, em outras obras criativas, sem que isso se torne uma
afetação ou exercício de erudição. Ao dialogar com outros artistas, Tabucchi não
adota a postura do mestre, nem pretende estabelecer a supremacia, ou, ao contrário, a
inferioridade, da literatura diante deles. Não se trata de exibição narcisista, mas de
uma degustação na qual os séculos que o separam de Goya, Paolo Uccello ou de Fra
Angélico são engolidos pela intimidade que a arte, rompendo a rede do tempo, é capaz de
estabelecer.
É um livro trans que se passa entre a literatura e a
realidade, sem optar em definitivo por nenhuma delas. Estado marginal que se manifesta,
por exemplo, em cartas falsas, escritas, porém, por personagens verdadeiros, como a que
D. Sebastião teria enviado a Goya, encomendando uma tela; ou a que a vidente mademoiselle
Lenormand, que foi cartomante de Napoleão, teria escrito à revolucionária espanhola
Dolores Ibarruri. Lenormand, graças à manipulação esotérica das cartas de baralho,
lê e relata na carta uma vida que ainda não aconteceu e
que os muitos anos que a separam deste meu tempo atual me permitem discernir apenas largos
e talvez enganosos traços, a da Passionaria, como Dolores ficou conhecida. Ela
prevê que Dolores falaria, um dia, àqueles que os poderosos consideram estrume.
Tabucchi escreve uma carta de Calipso a Ulisses, na qual a ninfa se faz uma pergunta que
poderia ser formulada pelo próprio Tabucchi a respeito de sua obra: Mas de que
substância é o tempo? E onde ele se forma, se tudo está estabelecido e é imutável,
único?
Escrever, para Tabucchi, é manobrar o tempo, provocando encontros que não
existiram, convocando personagens imaginários a visitar cenários supostamente reais,
manipulando, enfim, a ordem das coisas. Em A frase a seguir é falsa. A frase
anterior é verdadeira, título bipartido e circular, no qual as duas proposições
se anulam e só resta a tensão entre elas, Tabucchi se biparte, criando um certo Janata
Monroy, seu leitor. Eles teriam se conhecido três anos antes. Nele o escritor teria
encontrado um leitor meticuloso do Noturno indiano um de seus livros
mais conhecidos paixão que se explica por um aspecto psicológico: Monroy se
julgaria retratado em um dos personagens. O encontro conduz Tabucchi a uma meditação
sobre o espelho, cuja imagem invertida olha-nos de fora, mas é como se nos
examinasse por dentro; aquilo que os filósofos taoístas chamam de o olhar
devolvido.
É nesse jogo entre fora e dentro que o Tabucchi italiano e o Tabucchi
português como se o escritor fosse dois em um inter-relacionam-se,
tensionam-se e desmentem-se. O que surpreende Tabucchi nos comentários de seu falso
leitor Monroy (afinal, Tabucchi, ele também) é que o senhor confere a meu pequeno
livro, e conseqüentemente à visão de mundo que nele transparece, uma profundidade
religiosa e uma complexidade filosófica, que penso, infelizmente, não possuir. O
espanto de seu interlocutor imaginário diante de Noturno indiano bem caberia,
contudo, ao leitor que se aproximar de Os voláteis do beato Angélico. Ao
contrário das dançarinas de strip-tease, que começam vestidas e terminam nuas, os
escritores começam a escrever nus e terminam vestidos, encobertos, disfarçados, pela
rede de palavras que foram capazes de tecer. Daí, Tabucchi cogita que o sentimento mais
forte do escritor talvez venha a ser o medo já que a essência de sua arte é a
camuflagem.
Por isso mesmo, estes quase-contos se apegam ao quase
não por deficiência, porque algo ainda lhes falte, mas, ao contrário, por excesso. Ao
narrar, Tabucchi utiliza seus personagens e suas históricas como instrumentos para
filosofar. Eles estão ali a serviço, contudo, não de ideologias, ou de idéias prontas
que as narrativas viessem apenas ilustrar, mas da abertura para o campo do pensamento
livre e volátil no qual as idéias se mesclam, deixam-se contaminar pelo
sonho, pela fantasia e pela ilusão, exatamente como se passa na mente humana.
Tabucchi chegou a pensar em batizar estes relatos de Extravagâncias,
já que, sugere, muitos deles parecem vagar num estranho fora que não
possui um dentro, como estilhaços à deriva, sobreviventes de um todo que nunca existiu.
É exatamente isso: Tabucchi, na verdade, escreve como quem pensa, com a liberdade e a
flutuação próprias ao ato de pensar. Em vez de quase-contos, talvez o mais
correto fosse falar em mais-que-contos, mas isso seria ainda uma forma de
menosprezar, e pretender enquadrar, a literatura.
Contos falhados foram publicados dispersamente
Talvez sejam só, ele especula, contos falhados, opinião de um
rigor que, o leitor verá, não se justifica. Por terem sido publicados no passado, e
dispersamente, exibem-se aqui como criaturas conservadas em formol, com aqueles
olhos demasiado grandes dos organismos fetais olhos que interrogam. A quem
interrogam? O que desejam? De tal modo eles parecem incompletos, e improváveis, que
permanecemos em dúvida se chegam a existir. Exatamente como no relato História de
uma história que não existe, em que ele rememora o nascimento de um romance
abortado, Ninguém atrás da porta, livro que teria escrito, num só fôlego,
durante 15 dias de desespero. E que seu editor teria recusado, por achar um pouco
vago, não muito acessível, nem decifrável. É nessa incerteza, contudo, que
reside o poder da literatura. É ali, na vaguidão, que ela se define e se justifica
ainda que de modo indefinido e injustificado. A literatura, de certo modo, não
serve para nada, e é essa disponibilidade, essa inutilidade essencial, que a aproxima dos
estados extremos da liberdade.
(©
O Globo On Line)
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