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Sob críticas, Berlusconi "assume" União Européia

O premiê Silvio Berlusconi durante discurso no Senado no dia 26 de junho  Vincenzo Pinto - 26.jun.2003/France Presse

Com a Itália na presidência rotativa do bloco, por seis meses, jornais e diplomatas expressam seu temor sobre estilo de premiê

DA ASSOCIATED PRESS

   Ele já é o homem mais rico da Itália, magnata bilionário da mídia, todo-poderoso do futebol -e premiê da Itália. Agora, Silvio Berlusconi passará também a representar a União Européia (UE).

   A perspectiva está provocando temores diplomáticos e gritos de indignação da imprensa em todo o continente, com a Itália -e Berlusconi em seu leme- assumindo a presidência rotativa da UE por seis meses.

   "Europa unida em desgosto com Berlusconi tomando o trono da UE", disse ontem o jornal londrino "The Independent".

   "O Poderoso Chefão", agora em cartaz em toda a Europa", estampou o semanário alemão "Der Spiegel" em sua capa, sob uma imagem de Berlusconi sentado em um trono dourado. "Em casa ele está desmantelando o Judiciário, subjugando a TV, tirando leis do Parlamento conforme necessita delas", disse a "Spiegel". "Agora o premiê italiano, Silvio Berlusconi, vai representar a Europa."

   A presidência italiana começa um dia após uma corte de Milão suspender o julgamento de Berlusconi por subornar juízes, após a aprovação recente de uma lei que garante imunidade aos cinco principais membros do governo italiano -incluindo o premiê.

   Mas os juízes que cuidam do caso pediram ontem à Suprema Corte que declare a inconstitucionalidade da nova lei.

   Diplomatas europeus também se dizem preocupados com algumas de suas recentes iniciativas de política externa. Berlusconi se desviou da ortodoxia da UE sugerindo que Rússia e Israel poderiam entrar em breve para o bloco, seguindo uma linha muito mais americana que européia ao recusar um encontro com o líder palestino Iasser Arafat em uma visita recente ao Oriente Médio e pressionando pelo fim de um embargo de armas à Líbia.

   Questionado ontem sobre os planos expansionistas de Berlusconi para a UE, o porta-voz do bloco Diego Ojeda disse que o presidente russo, Vladimir Putin, descartou a entrada de seu país no bloco. Israel, localizado na Ásia, "não cumpre com o critério geográfico", segundo Ojeda.

   Berlusconi se defendeu ontem em uma rara entrevista para a rádio francesa Europe-1, de sua casa na ilha da Sardenha. Ele disse que a presidência da UE deve focalizar a normalização das relações entre a Europa e os EUA, arranhadas na discussão anterior à Guerra do Iraque. "O Ocidente deve estar unido", disse. "Uma pessoa pode ser muito européia e também ser amiga da maior democracia do mundo, os EUA."

   Outra prioridade deve ser o controle da imigração.

   Durante a entrevista, Berlusconi creditou as críticas da imprensa européia contra ele a uma suposta influência dos jornalistas de esquerda da Itália. "A imprensa esquerdista na Itália vem fazendo uma guerra desde que eu entrei em cena e desde que ela perdeu as eleições", disse. "Há uma divisão entre as pessoas moderadas e os extremistas, entre o amor e o ódio, o bem e o mal, a verdade e as mentiras. Isso é o que está acontecendo com os jornais da Itália."

   Funcionários da UE também estão ansiosos para ver como serão as relações entre Berlusconi e o presidente da Comissão Européia (órgão executivo da UE), o ex-premiê italiano Romano Prodi, seu rival na política local.

   Prodi, que numa entrevista em 1996, ao comentar o uso da mídia na campanha eleitoral, comparou Berlusconi ao ministro nazista da Propaganda, Joseph Goebbels, pode ser o principal adversário eleitoral de Berlusconi após o término de seu mandato em 2004.

(© Folha de S. Paulo)


ANÁLISE

Por que Berlusconi é ruim para a UE e para a Itália

QUENTIN PEEL
DO "FINANCIAL TIMES"

   Enquanto a Itália assume a presidência da União Européia (UE), hoje, sinais de alarme tocam em todo o continente. A preocupação é com a perspectiva de ter Silvio Berlusconi, o premiê italiano, no comando do bloco. Os críticos de Berlusconi dizem que, na melhor das hipóteses, ele será um líder imprevisível num momento crítico para a UE. Na pior das hipóteses, poderia precipitar novos conflitos. Eles temem o pior.

   Observadores experimentados questionam a coerência de seu governo e de suas políticas sobre várias das mais importantes questões na pauta européia. Eles temem que o magnata da mídia seja guiado por prioridades pessoais, quando deveria estar focado em questões internacionais, ou que use o cargo como plataforma de marketing pessoal.

   Por que isso é importante? Outros países exerceram a presidência da UE quando seus governos estavam em crises muito piores. Mas a Itália é diferente, e Berlusconi tornou as coisas ainda mais diferentes. Seu estilo pessoal sugere que ele tem poucas preocupações com as regras da boa governança que o bloco exige de todos os seus membros.

   Berlusconi assume o cargo quando as divisões sobre a Guerra do Iraque deixaram as relações entre vários líderes europeus arranhadas e a relação entre a UE e os EUA em farrapos. Ele assumiu uma linha tão pró-americana que é improvável que consiga reconciliar quem quer que seja.

   Uma mão firme é certamente necessária para administrar a UE. A experiência sugere que isso não virá de Berlusconi. Sua reputação pessoal não ajuda. Como premiê, ele nunca conseguiu separar sua atuação no governo de seus negócios. Na verdade, ele promoveu leis para proteger seus interesses contra a legislação antitruste e investigações judiciais. Ele nem sequer tentou esconder seu comportamento. E não parece reconhecer isso como um problema.

   Boa administração é uma exigência feita a todos os membros do bloco e um dogma da nova doutrina de segurança da UE, a ser refinada durante a presidência italiana. Há poucas dúvidas de que se a Itália estivesse tentando entrar hoje na UE, o pedido seria rejeitado se Berlusconi se negasse a desmanchar seu império de mídia. O fato é que a UE tem sido sempre uma força poderosa para a disciplina política na Itália, mas é uma força que Berlusconi parece rejeitar.
Se o premiê buscar uma pauta excessivamente pessoal ou nacional na presidência, será ruim para a UE. Certamente não ajudará a curar as feridas abertas no Iraque. Mas, no longo prazo, não será a UE quem mais sofrerá, mas a Itália e a sua reputação na Europa.

(© Folha de S. Paulo)

Presidência de Berlusconi na UE sob críticas
 

Gina de Azevedo Marques
Correspondente

   ROMA. Não será a Itália a assumir hoje a presidência de turno da União Européia (UE), mas Silvio Berlusconi. Durante o próximo semestre, o primeiro-ministro italiano, com suas virtudes de comunicador e defeitos da vaidade demagógica, será o protagonista.

   Criticado pela imprensa européia, que o considera campeão da impunidade, o homem mais rico da Itália promete grandes realizações.

“Die Zeit”: Berlusconi se põe acima do direito

   De olho na presidência da UE, Berlusconi, de 67 anos, conseguiu congelar os seus problemas com a Justiça. Temendo que o processo por corrupção determinasse a culpa do premier e uma péssima imagem para a Itália no mundo, o Parlamento aprovou rapidamente a lei que estabelece a imunidade para as cinco maiores autoridades do Estado. No entanto, ontem o Tribunal de Milão pediu que a Corte Constitucional da Itália se pronuncie sobre a lei, pois a promotoria alega que ela é inconstitucional.

   Berlusconi se livrou por enquanto da Justiça, mas não das críticas da imprensa européia, que destacou também o conflito de interesses do magnata da televisão italiana. O jornal inglês “Financial Times” publicou um editorial afirmando que esta lei da imunidade representa “um abuso de poder, que prejudica a Itália e a Europa, colocando dúvidas sobre a qualidade da democracia que os cidadãos podem esperar”. O jornal “The Independent” comparou Berlusconi a um “paxá oriental”.

   A revista semanal francesa “Le Nouvel Observateur”, num artigo da semana passada com o título “O problema Berlusconi”, indicou o premier italiano como “um potentado que há dois anos no governo costura as leis sob medida para fugir dos seus numerosos processos”.

   As revistas semanais alemãs também puseram na berlinda os problemas do primeiro-ministro italiano. O editorial da “Die Zeit” acusou a Europa de “ficar calada diante de Berlusconi, que se põe acima do direito” e “faz aprovar com tanta pressa as leis com uma só finalidade: reforçar o próprio poder e enfraquecer a Justiça”. Já a “Der Spiegel” pergunta como é possível que a Europa fique indiferente diante da “violação dos princípios essenciais que fazem uma comunidade de valores: divisão dos poderes, independência da magistratura, igualdade dos cidadãos diante das leis”.

   Para o especialista político Lucio Carraciolo, da revista italiana “Limes”, que não pertence ao grupo editorial de Berlusconi, a imprensa européia está exagerando nas críticas.

   — É uma caricatura ridícula. A Europa não está em perigo porque não é só a Itália que decide, e sim toda a União Européia — comentou.

   Segundo Carraciolo, existe uma campanha de demonização do premier por parte da França e da Alemanha.

Capacidade de comunicação reconhecida por adversários

   Entre as qualidades de Berlusconi está a sua capacidade de comunicação, reconhecida até pelos oposicionistas. O editorialista Valentino Parlato, do jornal comunista “Il Manifesto”, disse ao GLOBO:

   — Berlusconi é um ótimo vendedor e vai conseguir vender bem suas propostas. O problema é que ele representa o pior estereótipo do italiano.


Os desafios da União Européia

CONSTITUIÇÃO: Em outubro começam as negociações sobre a redação final da Constituição européia, que criará um presidente com mandato mais longo para a UE.

ECONOMIA: A Itália quer fomentar um plano para reaquecer a economia continental com investimentos de bilhões de euros em infra-estrutura.

POLÍTICA EXTERNA: Berlusconi terá a tarefa de remendar as relações entre a UE e os Estados Unidos, abaladas com a oposição de alguns países do bloco — notadamente a França e a Alemanha — à invasão do Iraque. Outra tarefa importante será tentar dar voz única à UE, que conta com 15 países e se prepara para incorporar mais 10.

IMIGRAÇÃO: Emergiu como um tema importante nas últimas semanas com um aumento repentino do fluxo de imigrantes ilegais na Itália, causando divisões profundas no próprio governo italiano.

PENSÕES: A crescente pressão sobre o sistema previdenciário é um dos itens mais delicados na agenda da UE.

(© O Globo On Line)

 

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