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Berlusconi gera crise ao assumir a presidência da UE

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   ESTRASBURGO (ANSA), 2 JUL - O premier italiano, Silvio Berlusconi, pronunciou hoje seu primeiro discurso depois de assumir a presidência rotativa da União Européia e destacou o papel da Itália como um dos fundadores da UE, destacou sua fidelidade ao cumprimento dos tratados e prometeu que tratará em todo o momento de "superar as diferenças" no seio da UE.

   Berlusconi assume a presidência da UE em meio a um grande descontentamento por parte de políticos e da imprensa européia.

   Os Eurodeputados Verdes interromperam, após o inicio, o discurso do premier italiano ficando em pé e protestando com cartazes onde estava escrito "a lei é igual para todos", em alusão a recente e polêmica lei de imunidade que lhe outorgou a Justiça italiana em um processo por corrupção.

   O protesto foi reprimido pelo presidente do Parlamento Europeu, Pat Cox, que ordenou aos Eurodeputados Verdes que retirassem os cartazes com a advertência de que novas manifestações provocariam a intervenção dos parlamentares.

   Ao retomar o discurso, Berlusconi prometeu que a Presidência italiana terá como prioridades a Conferência intergovernamental para definir a Constituição Européia em outubro; o impulso econômico, a ampliação da UE e políticas de Segurança e imigração.

   Berlusconi também destacou a importância de restabelecer relações "fortes e dinâmicas" com os EUA preservando ao mesmo tempo os interesses europeus.

   No âmbito desta colaboração, o premier italiano indicou "como pistas concretas" para estabelecer uma relação sólida entre os EUA e a UE, a luta contra o terrorismo a proliferação de armas de destruição massiva, e o respaldo as democracias.

BERLUSCONI CHAMOU DE "NAZI" UM EURODEPUTADO ALEMÃO

   Silvio Berlusconi, chamou hoje de "kapo" (guarda dos campos de concentração nazistas) ao deputado social-democrata alemão Martin Schultz e qualificou de "turistas da democracia" os deputados que o criticavam durante sua primeira intervenção no Parlamento Europeu.

   As repercussões deste fato não são as melhores, muitos Eurodeputados criticaram a atitude do premier italiano.

   O presidente do grupo socialista europeu (PSE), Enrique Baron Crespo, insinuou que o fato gerou uma crise institucional e disse que "o problema não é entre o Partido Socialista espanhol e Berlusconi, mas entre o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu. São necessárias desculpas formais".

   Por sua vez, o embaixador da Itália na Alemanha, Silvio Fagiolo, foi convocado pela Chancelaria, depois das declarações do premier italiano, informaram fontes diplomáticas.

(© Ansa)


Berlusconi gera crise diplomática ao chamar alemão de nazista

   ROMA (Reuters) - O Ministério das Relações Exteriores italiano chamou o embaixador alemão em Roma para conversações urgentes depois de o primeiro-ministro Silvio Berlusconi ter dito a um parlamentar alemão, nesta quarta-feira, que ele deveria fazer o papel de nazista em um filme.

   Mais cedo, o governo alemão chamou o embaixador italiano em Berlim para dizer a ele que os comentários de Berlusconi eram "inaceitáveis".

   O comentário de Berlusconi foi feito durante um acalorado debate no Parlamento europeu, em Estrasburgo, que marcou o início da Presidência italiana na União Européia.

   A agressão verbal foi em resposta às críticas do deputado socialista alemão Martin Schultz, que falou do conflito de interesses entre a figura do político e a do magnata da comunicação e dos comentários recentes a respeito da imigração feitos por Umberto Bossi (direitista), ministro das Reformas do governo italiano. "Senhor Schultz, sei que há na Itália um homem produzindo um filme sobre os campos de concentração nazista. Sugeriria para o senhor o papel de Kapo. O senhor seria perfeito para o papel", exclamou Berlusconi.

   Os Kapos eram geralmente pequenos criminosos, algumas vezes judeus, usados pelos nazistas nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial para garantir a ordem entre os judeus e os demais detentos. Esses homens eram encarados como traidores e considerados, frequentemente, indivíduos propensos ao sadismo.

   O momento de fúria do premiê, no qual também chamou os parlamentares que o vaiavam de "turistas democráticos", fortaleceu os argumentos dos que duvidam que Berlusconi, envolvido com problemas na Justiça e criticado por controlar uma parte expressiva dos meios de comunicação de seu país, seja apto a liderar o bloco de 15 países.

   O parlamentar Nick Clegg, da Grã-Bretanha, disse que a "bufonaria ofensiva" representava o pior início possível para a Presidência italiana.

(© UOL Últimas Notícias)


Berlusconi deve presidir a União Européia?


Silvio Berlusconi assume a presidência de turno da União Européia por trás da imunidade que o protege da Justiça

Lola Galán

   Livre de processos graças à lei de imunidade que o resguarda da Justiça até 2006, Silvio Berlusconi, construtor, magnata da televisão e primeiro-ministro italiano, se dispõe agora a governar a Europa. Mas o líder italiano desperta na capital da Comunidade Européia todo tipo de prevenção, quando não temor. Seu histórico de empresário de fortuna incerta e seu estilo político não combinam com os costumes de Bruxelas.

   Em 1979, Silvio Berlusconi era um empresário da construção que aos 43 anos começava a ter sorte no ramo de televisão, com uma primeira emissora em Milão, e acabava de entrar no mundo editorial comprando uma participação em um jornal dirigido pelo jornalista Indro Montanelli. Mas quando um amigo comum o apresentou à antiga proprietária do "Corriere della Sera", Giulia Maria Crespi, a Czarina, como era conhecida em Milão, limitou-se a dirigir-lhe um olhar furtivo. Uma reação que ilustra o desprezo que o jovem empresário despertava no establishment econômico e social italiano. Vinte e quatro anos depois, o palazzinaro (construtor de apartamentos, em italiano) dirige pela segunda vez o governo do país, e para agradá-lo os atuais proprietários do "Corriere" - a elite econômica italiana - não entenderam como inconveniente sacrificar o diretor do jornal, Ferruccio de Bortoli, detestado por Il Cavaliere, título pelo qual Berlusconi é conhecido.

   Sob a direção de De Bortoli, o "Corriere", conservador e institucional, havia acompanhado atentamente os processos judiciais contra Berlusconi, despertando uma antipatia mortal no protagonista. A Justiça, e os magistrados de Milão em particular, sempre foram a obsessão do Cavaliere - envolvido em uma dúzia de casos na última década -, que dedicou os dois primeiros anos do governo a contra-atacá-los com leis oportunas, aprovadas a golpe de maioria parlamentar.

   A última jogada de mestre foi a lei de imunidade, que o poupará de novos processos até 2006, quando termina seu mandato. Uma lei escandalosa principalmente pela rapidez com que foi aprovada, em 18 de junho, e pela qual entrou em vigor, depois da assinatura do presidente da República, apenas uma semana antes de Berlusconi assumir a presidência européia.

   "Europa" é uma palavra sagrada na Itália, e nem mesmo a oposição foi convincente em suas críticas à lei "salva-Berlusconi", pensada, como se diz, "para evitar humilhações ao país". Desaparece assim seu último pesadelo, o de aparecer como brutta figura (pessoa desaprovável) diante dos 300 milhões de europeus que a partir de agora o analisarão atentamente. Os centros de poder de Bruxelas aparecem agora no horizonte como uma nova dimensão política, um espaço de testes em que o Cavaliere poderá aplicar suas "receitas italianas" que consistem em grandes doses de otimismo, sorrisos de publicidade, palmadas nas costas dos demais líderes, piadas e brincadeiras para superar a tensão dos Conselhos Europeus.

Clientes do primeiro-ministro

   Mas permanece outra pequena anomalia. O novo presidente de turno europeu é, além de um político de sucesso na Itália, o cidadão mais rico do país e um dos mais ricos do mundo. O império familiar, Fininvest, avaliado em quase US$ 12 bilhões, emprega 20 mil pessoas e está presente em um leque tão amplo de setores que na Itália se fazem piadas sobre a impossibilidade de consumir qualquer coisa sem ser cliente do primeiro-ministro. O Cavaliere é dono da principal editora do país, a Mondadori; seu nome está ligado ao grupo de serviços financeiros Mediolanum, dirigido por um velho amigo e sócio, Ennio Doris; possui uma produtora e distribuidora de cinema, a Medusa, e principalmente controla o maior grupo de televisão privado da Itália, Mediaset.

   Em 28 de maio passado, quando Berlusconi tomou lugar na tribuna de personalidades no estádio Old Trafford para presenciar o final da Copa dos Campeões, o fez em sua tríplice condição de primeiro-ministro italiano (os dois times finalistas o eram), presidente do Milan e grande patrono da televisão, porque foi uma das emissoras de sua propriedade, o Canal 5, que transmitiu a partida ao vivo. A Mediaset não é apenas uma máquina de fazer dinheiro: graças à publicidade que recebe (e contrata através de outra empresa da casa, Publitalia), é sobretudo uma vitrine espetacular para mostrar a filosofia de seu dono, que considera a Coca-Cola um símbolo universal de liberdade.

   Por mais que um grupo de intelectuais e políticos de oposição se esforce para despertar periodicamente o fantasma do conflito de interesses, o Cavaliere manipula a discussão com a maestria de um roteirista de novela que reserva uma surpresa a cada episódio. Às vésperas das eleições de 2001, quando a imprensa internacional o atacava de forma virulenta, o Cavaliere chegou a anunciar durante uma visita a Bilbao (Espanha) sua vontade de se desfazer de suas televisões. O magnata australiano Rupert Murdoch desembarcou na Itália e houve intensos rumores sobre a possível venda da Mediaset. Dois anos depois ninguém mais fala nessa venda, e a lei que regulamentará o conflito de interesses, aprovada pelo governo (e à espera da luz verde do Parlamento), se limitará a obrigá-lo a renunciar à presidência do Milan. Mas nada disso parece escandalizar seus compatriotas, enfeitiçados por seu poder.

   O êxito de Berlusconi se deve em parte ao hábil uso das pesquisas. O Cavaliere vive cercado de advogados e especialistas em pesquisas. O psicólogo experimental Alessandro Amadori explicou recentemente ao jornal "La Repubblica" que os institutos de pesquisa sob as ordens do primeiro-ministro criaram uma espécie de "grande orelha" para averiguar os temas que interessam à população. "Todo o programa político da Casa das Liberdades (a coalizão que governa a Itália) foi construído assim", disse Amadori. "Berlusconi aplicou à política a técnica empresarial e vende seus produtos políticos como se fossem bolos ou máquinas."

   Graças a essa "grande orelha" e a seu olfato natural, o Cavaliere conseguiu se conectar com amplas massas de compatriotas. Talvez o Executivo que ele preside não tenha conseguido estimular o crescimento econômico, e o balanço de dois anos de gestão seja em muitos aspectos decepcionante, mas em suas intervenções televisivas ele dividiu habilmente a culpa entre a crise internacional, o 11 de setembro e a oposição "destrutiva", convencendo seus eleitores de que no fundo não o deixam trabalhar. Seu estilo é efusivo, irresistível, sempre otimista, com uma falsa aparência de espontaneidade. Um estilo que procura sempre seduzir, cair bem, embora às vezes consiga o efeito contrário, como quando, pouco depois do 11 de setembro, causou um incidente diplomático ao defender a superioridade do Ocidente diante do islã. Ou como quando, ao final de uma reunião de ministros das Relações Exteriores da União Européia realizada em Cáceres, posou para os fotógrafos colocando "chifres" no representante espanhol, Josep Piqué, escandalizando os parceiros europeus.

"Travessuras"

   Com todas essas travessuras, o Cavaliere pretende unicamente tirar a seriedade da política, desdramatizá-la e torná-la acessível às massas. Por isso realizou um conselho de ministros de piada, no início de seu mandato, com um grupo de escolares que visitava a sede do governo. Outro elemento chave do estilo Berlusconi é a exibição de seu poderio econômico. Desde o início tomou as rédeas do governo sem renunciar a seu perfil de empresário. Por isso às vezes utiliza os aviões da Fininvest em algumas viagens, e seus colaboradores políticos mais íntimos -Marcello dell'Utri, Cesare Previti e Enrico Letta- são antigos empregados.

   Em vez de se instalar na sede oficial, o Palazzo Chigi, governa de seu escritório no Palazzo Grazioli, um imponente edifício no centro de Roma que já era a sede de seu partido Forza Italia. Nos salões decorados com afrescos ele trabalha, segundo pessoas próximas, até altas horas da madrugada. E aproveita as breves escapadas a qualquer de suas residências para reunir os principais líderes da coalizão quando acha necessário ler a cartilha para eles.

   Não lhe faltam mansões. Tem seis "villas" na Costa Esmeralda (Sardenha) -"Tenho cinco filhos. Como todo bom pai, quero evitar brigas", declarou certa vez ao jornalista e amigo Bruno Vespa-, em uma esplêndida mansão (alugada por um longo prazo) em Portofino, uma residência nas Bermudas (vizinha à do multimilionário americano Ross Perot), uma casa de campo perto de Milão, onde mora sua segunda esposa, Verónica Lario, com seus três filhos, e um palácio principesco onde vive só com a criadagem: a fabulosa Villa San Martino de Arcore, nas proximidades da capital lombarda, o Palácio de Buckingham berlusconiano, comprado da herdeira dos marqueses Casati Stampa de Sondrio em 1974 pela modesta cifra de US$ 290 mil.

   A compra foi obscurecida por uma tragédia: o marquês assassinou sua esposa e o amante dela em 1970, e a jovem herdeira se encontrou numa situação tão desorientada que aceitou as condições oferecidas por seu advogado, Cesare Previti, que era ao mesmo tempo assessor jurídico do Cavaliere. A operação foi narrada em seus detalhes mais sórdidos pelo jornalista Giovanni Ruggeri no livro "Berlusconi, os negócios do presidente". Apesar das ameaças iniciais, não foram abertos processos contra o livro.

   Não é o primeiro sapo que Berlusconi teve de engolir. Desde que se lançou na política, em janeiro de 1994, sua vida e obras fizeram correr rios de tinta na Itália. Sua biografia é bem conhecida, mas nela há zonas de sombra impenetráveis. Ninguém ainda conseguiu esclarecer os verdadeiros motivos da presença em sua villa de Arcore, em meados dos anos 70, de um famoso mafioso, Vittorio Mangano. Oficialmente, Mangano estava cuidando dos estábulos, contratado para isso por Dell'Utri, originário de Palermo como ele. (Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves)

(© UOL Mídia Global)


Vida e fortuna de Berlusconi apresentam verdadeiros mistérios

Lola Galán

   A maior incógnita continua sendo a origem da fortuna do Il Cavaliere, título pelo qual Silvio Berlusconi é chamado na Itália> Muitos acreditam que a procedência de tanta riqueza é mafiosa.

   Indro Montanelli, decano dos jornalistas italianos, grande conhecedor do personagem, que salvou seu jornal "Il Giornale" dos credores em 1977, considerava infundada essa "lenda". "Não creio na história de sua colaboração com a máfia", declarou ao jornal "Le Monde" pouco antes de morrer em julho de 2001. "Mas por outro lado me parece provável que tenha reciclado dinheiro sujo. Talvez nem soubesse que era dinheiro da máfia, mas as origens de sua fortuna não se explicam de outro modo." Confalonieri, velho amigo do primeiro-ministro, dá outra explicação: "Berlusconi foi um jovem de incrível talento que começou nos negócios investindo a indenização recebida por seu pai (cerca de US$ 14 mil) na construção de casas. Assim começou tudo".

   Mas a história não é tão simples. É certo que Silvio Berlusconi, nascido em 29 de setembro de 1936 e o mais velho dos três filhos de Rosa Bossi com Luigi Berlusconi, empregado do Banco Rasini de Milão, deu mais tarde mostras de um extraordinário talento comercial. Os tempos que lhe couberam viver foram duros. Depois da fuga do pai para a Suíça em 1943, como outros milhares de italianos, para evitar ser recrutado à força por Mussolini para o exército alemão, Berlusconi estudou parte do secundário em um internato, sob um regime espartano, em um instituto de salesianos.

   Um companheiro de classe declarou anos depois: "Ele fazia os deveres depressa e se dedicava a ajudar outros meninos em troca de caramelos, qualquer objeto ou, principalmente, uma moeda de 20 ou 50 liras". Com inúmeros sacrifícios, e ajudando-se com trabalhos esporádicos, o futuro Cavaliere estudou direito em Milão. É a época "canora", quando Berlusconi, acompanhado ao piano por Confalonieri, anima os cruzeiros Costa que navegam pelo Mediterrâneo, cantando clássicos franceses ou canções de Frank Sinatra. Anos depois acrescentaria episódios inventados a esse período, para amenizar as reuniões dos vendedores da Publitalia, a empresa que também seria a matriz de seu partido, Forza Italia.

   O futuro empresário-político termina a carreira de direito com notas excelentes e se lança aos negócios. São os anos 60, época do boom, que já gerou uma pequena burguesia em busca de status. Não por acaso Berlusconi opta pela construção. Com dinheiro do pai e com fundos emprestados do Banco Rasini, no qual este trabalhava (anos depois envolvido em redes mafiosas), o jovem empresário começará seu percurso, sem grande êxito. A próxima operação importante, a construção de uma cidade-dormitório com serviços, Milão 2, pensando nos profissionais abastados, seria mais rentável.

   Trata-se de um projeto ambicioso. Como financiá-lo? Aqui começam os mistérios, porque o dinheiro chegará ao jovem construtor de uma financeira suíça absolutamente impenetrável. As mil e uma investigações realizadas pela Guarda de Finanças e por jornalistas sérios, ávidos por uma exclusiva, foram inúteis. O sistema bancário suíço é completamente opaco, e o interessado parece pouco disposto a revelar quem lhe emprestou dinheiro.

   Berlusconi constrói Milão 2 depois de uma batalha gigantesca para desviar as rotas dos aviões que decolam do vizinho aeroporto de Linate. Batalha ganha graças a importantes ajudas políticas. A cidade tem serviços de todo tipo. Junto aos blocos de apartamentos há hotel, ambulatório, creches e escolas, centros esportivos, sauna e piscina e até uma televisão do bairro. Desse embrião surgirá primeiro a Telemilano, e em 1980 o Canal 5, a origem do império Mediaset (ao qual se acrescentaram depois Italia 1 e Retequattro, compradas pelo Cavaliere de dois empresários editoriais cansados de enfrentar prejuízos).

Cavaliere del Lavoro

   Os anos anteriores à fundação do Canal 5 são extremamente intensos para Berlusconi, nomeado em 1977 Cavaliere del Lavoro (Cavaleiro do Trabalho), título ostentado por centenas de empresários italianos, mas que por algum motivo ele colonizou até se transformar em Il Cavaliere por excelência. O empresário milanês que surgiu do nada e fez a si mesmo é um sessentão com meio topete atrás do qual se oculta uma calvície incipiente. Vive mergulhado na contratação de publicidade para a nova televisão comercial que prepara, e é capaz de almoçar três vezes por dia com outros tantos clientes hipotéticos para agilizar o processo. Casado desde março de 1965 com Carla Elvira dall'Oglio, filha de um pequeno empresário genovês, o casal tem dois filhos: Maria Elvira (Marina), nascida em 10 de agosto de 1966, e Pier Silvio, nascido em 28 de abril de 1969.

   Onze anos mais tarde conhecerá sua segunda esposa, Verónica Lario, nome artístico da atriz Miriam Bartolini, com a qual manterá uma longa relação semi-secreta, instalando-a na sede oficial da Fininvest, a Villa Borletti, em Milão. Até 1990, o Cavaliere não formaliza a união com aquela que mais de uma vez definiu como a "mulher de sua vida" e "a mais bela do mundo". Ao discreto casamento civil - então o casal já tem três filhos: Bárbara, Eleonora e Luigi - assiste seu grande amigo e defensor, Bettino Craxi, líder socialista.

   Craxi, à frente do partido desde os finais dos anos 70, será decisivo na carreira televisiva de Berlusconi. Quando, em 1983, assume a chefia do governo, Craxi se preocupa em editar leis que permitam ao Cavaliere consolidar uma rede nacional de emissoras, algo até então proibido pela lei. A batalha terminará em 1990, quando o governo do CAF (Craxi, Andreotti e Forlani) aprova uma lei de televisão batizada com o nome de seu artífice, o ministro Oscar Mammí, que consolida a posição de Berlusconi ao permitir que possua três emissoras nacionais, que arrecadam uma cifra fabulosa em publicidade.

   O empresário tem amplas linhas de crédito em duas instituições: o Monte dei Paschi di Siena e o Banca Nazionale del Lavoro. Segundo Giuseppe Fiori, autor de uma biografia de Berlusconi -"O Vendedor"-, por trás de tanta generosidade estão os laços secretos de amizade em torno da loja maçônica Propaganda-2 ou P-2, de Licio Gelli, na qual o magnata da televisão ingressou em 1978. "Nunca pedi qualquer favor à P-2, nem recebi nada dela", ele declararia depois diante da comissão de inquérito parlamentar sobre a loja.

Escândalo Tangentopoli

   O assunto da P-2 não chegará a prejudicá-lo, mas sim o terremoto Tangentopoli. A harmonia político-empresarial entre o governo do CAF e Berlusconi termina abruptamente em 1992, quando os juízes do movimento Mãos Limpas descobrem o gigantesco escândalo de corrupção que envolve políticos e empresários de todo o país. Centenas de parlamentares, na maioria democrata-cristãos e socialistas, recebem citações judiciais. Craxi e Andreotti também acabam diante dos tribunais. O primeiro optou pelo exílio na Tunísia, onde morreu em 2000. O segundo agüenta a tempestade e se submete à Justiça. O grande partido católico será varrido do mapa em poucos meses, assim como o PSI.

   Sem amigos nem protetores, consciente de que a esquerda está destinada a governar e de que seu império (então sobrecarregado por uma dívida de mais de US$ 22 milhões) não sobreviverá à experiência, Berlusconi tenta implementar uma coalizão moderada. É inútil. Finalmente, decide colocar-se à frente de uma complexa trama em que há um partido fascista, outro separatista e restos da democracia-cristã. E encarrega um professor de ciências políticas, Giuliano Urbani, de organizar o programa.

   Os motivos do Cavaliere para entrar na batalha eleitoral eram claros. Segundo o jornalista Bruno Vespa, autor de vários livros políticos, o próprio Urbani lhe explicou certa vez: "No início encontrei em Berlusconi um coquetel de sentimentos em que a inquietação individual era o componente dominante". Endividado, malvisto pela esquerda e com os promotores de Milão em seus calcanhares, o Cavaliere, que sempre desprezou os políticos, se lançou à arena em 1994. Consegue um triunfo inesperado, mas seu governo dura apenas sete meses.

   Em 1996, repete a tentativa e fracassa. Em 2001 conquista novamente o poder e se dispõe a converter-se no primeiro chefe de governo italiano que conclui uma legislatura. Se tudo correr bem, Berlusconi acaricia a idéia de ser eleito presidente da República. Um caminho ascendente, do qual a presidência européia pode ser a fase crucial. (Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves)

(© UOL Mídia Global)

 

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