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Vidas de santos
inspiraram obras como a medieval Legenda Áurea, só agora publicada em português
LUÍS ANTÔNIO GIRON
Vidas
de mártires são denominadas hagiografias. Quatro delas chegam às livrarias nesta
semana. A mais importante é a Legenda Áurea, do monge dominicano Jacopo de
Varazze, clássico católico do século XIII, publicado só agora em português, em
magnífica edição feita pelo historiador Hilário Franco Júnior. Título igualmente
básico é O Livro dos Mártires, do teólogo protestante John Foxe, de 1559. Os
demais são recentes: Francisco de Assis O Santo Relutante, do
teólogo americano Donald Spoto, e Sub Specie Aeternitatis, do ex-oblato
pernambucano Edson Nery da Fonseca, um ensaio sobre a experiência monástica no Brasil.
À exceção de Spoto, que busca o indivíduo sob o mito, os livros querem convencer o
leitor de que vale a pena ser mártir. Missão impossível.
Santos andam tão fora de moda quanto no tempo
de Nero. Os romanos davam-nos de comer às feras. Agora são oferecidos como pasto ao
esquecimento. Mártires viraram tabu. Na Antiguidade, eram caçados e sacrificados. O
desapego à vida e a tenacidade dos nazarenos revelaram-se propaganda eficaz. Novos fiéis
desfilaram sua euforia diante das onças no Coliseu. Finalmente, após três séculos de
sevícias, ensina Varazze, São Silvestre converteu o imperador Constantino, até então
um perseguidor de cristãos. Em outra façanha, batizou 12 sábios judeus numa só noite
de contenda sobre a Trindade. Mas isso era no século IV. No XXI, os santos podem chamar a
atenção ao reverso, pois suas investidas suicidas soam ultrajantes. Aos olhos
pós-modernos, fanáticos fundamentalistas já não servem como modelo. A Igreja Católica
expurgou alguns deles na reforma de 1969 e enviou ao limbo beatas como Taís, tão
celebrada por Varazze. A moça era meretriz e foi lacrada por seis anos numa masmorra por
um falso cliente, frei Pafúncio. Saiu de lá imaculada e morreu. Só perdeu a aura 1.000
anos depois. Apesar da repulsão que causam hoje, santos seguem a movimentar o mercado.
Haja hagiografia.
Spoto julga que a sacralização foi
expediente do Vaticano para domesticar as auréolas mais salientes. O estudioso quer
corrigir o perfil de São Francisco, morto em 1226 aos 44 anos. Sem ansiar pelo título, o
monge rompeu os muros de Roma e foi canonizado como ídolo ecumênico. Embora 'canonizar'
seja um verbo católico, todas as religiões o utilizam. Foxe (1516-1587) erige altares a
ídolos que não integram o time do papa, mas têm seus fãs. É o caso de Martinho
Lutero. O milagre do fundador do protestantismo, afirma seu biógrafo, foi o de ter sido o
primeiro a enfrentar o papa. Os católicos cinzelaram santos com insuperável destreza. A Legenda
Áurea, em latim, tornou-se best-seller no século XV, quando mereceu mais cópias que
a Bíblia: 156 contra 128. Trata-se do mais completo volume do gênero. O autor
reuniu 153 santos. Destes, 91 receberam a 'consagração do martírio'. Em estilo
fabuloso, mescla história, mito e boas piadas. Varazze acreditava que os mártires
exalavam perfume ao ser mutilados e seus despojos levitavam até o céu. Entre os santos,
figuram cortesãs, proxenetas e assassinos - todos arrependidos. Para Hilário, o
pré-requisito da santidade católica era menos a remissão que a submissão ao clero.
Muito antes, Jeremias havia profetizado:
'Chegará o dia em que veremos todas as nossas iniqüidades como que pintadas num quadro'.
Referia-se ao Juízo Final, mas a frase se aplica ao modo distanciado pelo qual o
consumidor de hoje absorve os exemplos dos mártires. Hagiografias valem como obras de
referência. Lendo-as, dificilmente alguém vai se arrepender ou se imolar - pelo menos em
nome do Cristo.
(© Revista
Época)
| Teor alegórico reveste
narrativas sobre santos |
| "LEGENDA
ÁUREA - VIDAS DE SANTOS" Publicada
entre 1253 e 1270, obra de Jacopo de Varazze apresenta 175 biografias
RODRIGO PETRONIO
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Um aspecto curioso da
"Commedia" de Dante Alighieri (1265-1321) é a caracterização dos santos. Em
especial, a de são Bernardo, que, com sua ductilidade de feição e temperamento, guia o
poeta pelos diversos céus do Paraíso até a amada Beatriz, que o levará ao empíreo e,
deste, àquela luz que cega de tão potente: Deus.
Boa parte dessa
caracterização deveria se basear em convenções da época, conhecidas de todos,
independentemente de classes sociais e ofícios. Mas há também aqui um ingrediente
literário fortíssimo, com certeza extraído de obras hagiográficas (aquelas que tratam
da vida dos santos). Talvez não por acaso, um dos maiores autores desse gênero foi
contemporâneo do poeta florentino, e sua obra, certamente uma das fontes para seu poema
teológico.
Jacopo nasceu na cidade de
Varazze, em 1226. Começou sua vida religiosa em confrarias mendicantes, então muito
comuns. Logo ingressa na Ordem Dominicana, na qual se destacaria, a ponto de chegar a ser
sagrado arcebispo de Gênova pelo papa Nicolau 4º. Deixou-nos uma série de obras de
valor, entre elas a "Crônica de Gênova". Mas sua obra de maior destaque é sem
dúvida a "Legenda Áurea", publicada em data incerta, entre os anos 1253 e
1270.
As vidas contidas nessa obra
são todas desenvolvidas como exemplos a serem seguidos e revestidas de um forte teor
alegórico. É compreensivo que, estando a serviço de fins religiosos, muitas atenuem os
traços pagãos ou mesmo pecaminosos dos santos que viveram no cristianismo primitivo. É
o que acontece com santo Agostinho. Mas isso não compromete a prosa simples, clara e
elegante de Jacopo, uma das grandes virtudes do livro e aquilo que o faz tão próximo de
nós.
Outro ponto
interessantíssimo: as etimologias. Mais da metade das biografias começa por uma
explanação linguística, que relaciona o nome do santo às suas virtudes. Mas há um
detalhe: a maior parte delas ou é deliberadamente falsa, ou é uma interpretação
forçada. Ao contrário do que se crê, esses foram procedimentos bastante usuais, se
diria quase a regra durante muitos séculos, e tinham por finalidade mais ressaltar a
unidade divina presente na Babel das línguas do que aspirar a uma pretensa verdade
científica.
Quanto às vidas dos santos,
há que se destacar a saborosa narrativa de são João Batista, o tom pagão e fantástico
de santo Antônio e as vidas daqueles que depois se tornaram grandes doutores da Igreja:
são Jerônimo, santo Eusébio e são João Crisóstomo etc.
A obra de Jacopo não é
apenas um rico repositório que sintetiza as obras pregressas e uma fonte indispensável
para o estudo da história das religiões, da iconografia e das letras. Ela serviu de base
para a figuração posterior, alimentando o imaginário ocidental e vindo desaguar em
algumas obras-primas da literatura. Exemplos: a "Tentação de Santo Antônio" e
a novela "São Juliano, o Hospedeiro", ambas de Gustave Flaubert (1821-1880),
são praticamente decalcadas das vidas dos santos Antônio e Juliano constantes nesta
"Legenda Áurea".
A presente edição traz a
totalidade das 175 vidas, traduzidas do latim, prefaciadas e organizadas por Hilário
Franco Júnior, um dos mais conceituados medievalistas brasileiros. Creio que não seja
exagero dizer que a "Legenda Áurea" está para a literatura hagiográfica como
a "Commedia", de Dante, e a "Summa Teologica", de Tomás de Aquino
(1224-1274), estão para a poesia e a teologia, respectivamente. Uma curiosidade: no
"Purgatório" Dante se refere a Jacopo meramente como um cidadão de Gênova.
Mal sabia que estariam juntos, no mesmo círculo da eternidade.
Legenda Áurea - Vidas de Santos
Autor: Jacopo de Varazze Organização e tradução: Hilário Franco Júnior Editora:
Companhia das Letras Quanto: R$ 85 (1.056 págs.)
(© Folha
de S. Paulo) |
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