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Como faxinar ‘David’?

Restauração de Davi (Reuters)

Alan Riding
Do New York Times

   Cinco séculos depois de o “David” de Michelangelo ser visto pela primeira vez na Piazza della Signoria, em Florença, discute-se como conservar este ícone das rugas do tempo. Deve o colosso de mármore ser restaurado à sua perfeição original ou simplesmente ser libertado da sujeira? Ou deve aprender a viver com as rachaduras e falhas inevitáveis em sua velhice venerável?

   Sempre que uma peça-chave do berço do Renascimento precisa de reparos a Itália mergulha num debate intenso. Por isso, quando o governo de Florença decidiu que o “David” precisava de uma atenção especial, agiu com muita cautela. A única coisa certa e já anunciada é que a escultura, com cerca de quatro metros e meio de altura — e que desde 1873 é o grande destaque das galerias Accademia da cidade — vai sofrer uma limpeza delicada.

   Mesmo assim, como era inevitável, uma batalha para lá de quente começou logo depois do anúncio da limpeza. Agnese Parronchi, restauradora experiente que foi a primeira a ser convidada a realizar o trabalho, renunciou ao posto em abril, alegando que o método oficialmente aprovado para a limpeza era áspero demais e podia causar danos à obra-prima. Agora, uma petição assinada por 39 especialistas internacionais propõe a suspensão do restauro até que o “David” seja minuciosamente analisado por uma comissão independente de peritos.

   Antonio Paolucci, superintendente da arte florentina que tem a última palavra nas discussões sobre o acervo da cidade, disse recentemente que a limpeza de “David” começaria finalmente em setembro, com um novo restaurador já nomeado para substituir Agnese. Paolucci é conhecido por não gostar de escândalos e, há 15 meses, cancelou a concorrência para restaurar “Adoração dos magos”, peça-chave de Leonardo Da Vinci, cedendo aos protestos de críticos de arte internacionais.

Limpeza pode ser “seca” ou “molhada”

   Com o “David”, Paolucci está no meio da disputa entre dois métodos de restauro. O “molhado”, proposto pela diretora da Accademia, Franca Falletti, e o “seco”, bandeira levantada por Parronchi.

   — Os dois são suaves, muito leves mesmo — explicou Paolucci. — Não temos nenhum grande problema de conservação, apenas uma necessidade de limpeza superficial. Nada é tão dramático.

   O certo é que não falta paixão nos argumentos bradados por Agnese Parronchi e Franca Faletti e seus respectivos times de apoiadores. Argumentos em que a ciência e a experiência marcham juntas. Quando Agnese Parronchi foi nomeada no ano passado, parecia realmente a pessoa perfeita para o trabalho, porque tinha ganho notoriedade depois de limpar os túmulos dos Médicis feitos por Michelangelo na Capela dos Médicis, atrás da Basílica de San Lorenzo. Também restaurou dois relevos do artista — “Madonna das escadas” e “Batalha dos centauros” — ambos da Casa Buonarroti, também em Florença. Passou três vezes aboletada numa escada móvel, trabalhando numa Accademia cheia de visitantes para concluir 360 gráficos digitais de “David”. Sua conclusão: a estátua precisava ser limpa através de um método “seco” minimamente invasivo, envolvendo escovas macias, cotonetes, borrachas especiais e pedaços de chamois .

   — Como o “David” esteve ao ar livre por muitos anos, seus poros foram abertos e muita poeira acumulou-se ali — disse Agnese. — Mas isso pode ser removido facilmente. Nossa tarefa não tem nada a ver com recuperar a forma da escultura, porque nem um milímetro de sua estrutura original foi perdido.

   Ela tem apoio nos Estados Unidos. James H. Beck, historiador de arte da Universidade de Columbia e presidente da ArtWatch International, organizou a petição que incita Paolucci a parar com a limpeza.

   — Não há nenhuma razão para limpar o “David” — disse Beck, que faz campanha contra o que considera uma onda de restaurações desnecessárias. — Mas, se a limpeza tinha que ser feita, deveria ser da maneira mais delicada. A idéia de Agnese era esta. Ela ia tirar apenas a sujeira pesada.

   Do outro lado, a teoria de Falletti sobre a faxina “molhada” é baseada num relatório preparado por um comitê de cientistas do Officio delle Pietre Dure, uma entidade governamental ligada ao departamento de restauro artístico. Depois de meses de teste, eles concluíram que a grande ameaça ao “David”é o gypsum , um sulfato de cálcio que acumularia umidade. Eles propunham a remoção do material usando porções de água destilada, que também serviria para retirar a poeira dos poros.

   — O método de Agnese Parronchi não reduziria a quantidade de gypsum — disse Mauro Matteini, que encabeçou o time de cientistas. — Poderia funcionar esteticamente, mas não acabaria com a ameaça do gypsum . Além disso, mesmo que seja feito de maneira delicada, o uso de escovas é um processo mecânico. Por que usar um método mecânico se podemos usar um mais natural?

   Franca Falletti é ainda mais enfática.

   — O método de Agnese Parronchi é absolutamente inaceitável — disse, irritada. — Queremos remover a poeira, não escová-la para a área em torno da estátua. O problema voltaria. E, por definição, quem escova o faz com força. Toda esta confusão está acontecendo porque este historiador da arte, Jim Beck, resolveu insuflar sua categoria. Mas nenhum deles nunca realizou uma restauração na vida.

(© O Globo Online)


Escultura sofreu reparos criminosos


   Agnese Parronchi continua defendendo a sua maneira de lidar com o problema. Segundo ela, o grande problema do método defendido pela diretora da Accademia é que a água destilada chegaria à escultura através da criação de uma espécie de película protetora. Isso geraria uma uniformidade que adulteraria a visão da peça de Michelangelo.

   — O método “molhado” criaria uma visão uniforme — disse ela, argumentando que o mármore perderia seus tons e veios naturalmente variados. — A questão não é ser “seco” ou “molhado”. Minha visão respeita todas as características do mármore.

   A escultura de Michelangelo nunca foi considerada uma peça perfeita em termos da qualidade do mármore. Escavado em Fantiscritti, perto de Carrara, o bloco de pedra com cerca de seis metros de altura ficou exposto ao sol e à chuva no pátio da Opera del Duomo de Florença, quase 40 anos antes de Michelangelo começar a moldá-lo. E, mesmo depois que ele decidiu que tinha terminado sua escultura, gastou mais quatro meses lustrando o mármore antes da inauguração oficial da peça, em 1504.

Duas restaurações equivocadas no século XIX

   Depois disso, nem sempre o “David” foi tratado com respeito. Em 1527, seu braço esquerdo foi arrancado durante um motim: a mistura de cal e areia usada para reatá-lo criou uma cicatriz visível até hoje. Depois de absorver fuligem por três séculos, a estátua passou por dois restauros criminosos no século XIX. Em 1810, foi coberta de cera. E, em 1843, a cera e a pátina originais de Michelangelo foram removidas com ácido.

(© O Globo Online)


Uma obra da adoração pop

   O jornal inglês “The Daily Telegraph” publicou reportagem anunciando que o cantor Sting e que o ator Mel Gibson eram duas das celebridades dispostas a mexer no próprio bolso para ajudar na restauração do “David” de Michelangelo. Uma das obras de arte mais reproduzidas e citadas do mundo, a peça, de 1504, não é famosa por acaso. É certo que o Renascimento tem na “Mona Lisa” a campeã das campeãs em termos de popularidade e de reproduções, como prova a quantidade de japoneses que clicam a pequena tela de Da Vinci no Louvre. Mas a adoração ao “David” é mais pop, já que a escultura foi até transformada em símbolo do movimento gay.

   Há motivos estéticos e ligados que justificam a importância da peça. Mais do que a pintura, a    escultura foi uma espécie de comissão-de-frente do Renascimento: destacar a figura humana das fachadas das igrejas, dando autonomia a elas em pedestais, era uma forma de reforçar o Humanismo. O “David” também é quase uma cartilha sobre a proporção clássica e a perfeição de formas — quem já viu ao vivo a mão direita da criatura de Michelangelo tem a impressão de que há sangue correndo naquelas veias.

   Mas o “David” foi além da arte, virando um símbolo da adoração do homem pelo próprio homem, no que isso tem de genérico — o homem e as coisas da Terra mais importantes que os deuses e o céu — e específico. Michelangelo era conhecido por seus amores platônicos por mulheres e paixões nada platônicas por rapazes. Tudo indica que foi um destes affairs, aliás, quem serviu de modelo para o “David”. (Daniela Name)

(© O Globo Online)

Banho completo em Davi ou respeito ao tempo?

Agnese Parronchi limpa com cuidado a estátua de Davi: primeira restauração desde 1843  Paolo Cocco/Reuters

Escultura de Michelangelo é alvo de disputa entre profissionais italianos sobre se deve ser limpa com solvente de última geração ou com meios mais tradicionais, respeitando as marcas do passado

ROSS KING
The New York Times

  WOODSTOCK, Inglaterra - Não é fácil ser a estátua mais famosa do mundo. O Davi de Michelangelo consegue despertar paixões e provocar controvérsia desde 1504, quando os florentinos o receberam a pedradas. Desde então, foi alvo de desordeiros, que jogaram um banco nele em 1527, quebrando-lhe o braço esquerdo em três pedaços, e de um artista invejoso, Piero Cannata, que lhe deu um golpe de martelo em 1991, pulverizando um de seus dedões. Poucas obras de arte ocidentais foram alvos de tantos projéteis.

   O gigante nu de Michelangelo também foi vítima dos guardiães da moral pública que, em meados do século 16, insistiram em acrescentar uma tanga de metal feita de 28 folhas de figo - um exagero repetido em 1995, quando as autoridades religiosas de Jerusalém recusaram uma réplica em tamanho natural do Davi, presenteado pela cidade de Florença, a menos que suas partes pudendas fossem cobertas da mesma maneira.

   Em função dessa polêmica história e da notoriedade de vários projetos de conservação artística recentes na Itália, a mais nova disputa com relação ao Davi - deveria ser limpo com solvente de última geração ou com meios mais tradicionais? - não é exatamente uma surpresa. A polêmica invadiu os jornais europeus neste verão, dando aos editores um alívio das reportagens sobre a União Européia e sua nova constituição.

   Tanta atenção é compreensível quando se sabe que a última limpeza da estátua foi feita em 1843, quando um restaurador chamado Aristodemo Costoli a banhou em ácido hidroclórico.

   Felizmente, a arte da restauração progrediu substancialmente desde os dias de Costoli. É, hoje em dia, uma operação altamente técnica, apoiada em importantes avanços na química, biologia e até na ciência espacial. O DNA dos elementos contaminadores das pinturas pode ser isolado em laboratório e depois são aplicados lasers infravermelhos ou, em alguns casos, enzimas especiais para removê-los.

   Estátuas e monumentos são tratadas com sonda e analisadas por microcâmeras inseridas em pequenos furos; deficiências estruturais no trabalho são corrigidas com uma espécie de cimento biológico criado a partir de uma bactéria gerada no carbono.

   Uma técnica desenvolvida pela Nasa para testar equipamentos em ônibus espaciais também encontrou seu lugar no arsenal dos restauradores. Pinturas avariadas ou sujas são tratadas com oxigênio atômico, que então reage com o hidrocarbono de seus poluentes, separando-os habilmente da tela. Essa técnica se mostrou eficiente ao remover o batom com o qual um admirador enfeitou uma pintura no Andy Warhol Museum, em Pittsburgh.

   Ao contrário, a técnica para limpar o Davi, quando foi anunciada no último outono europeu, pareceu surpreendentemente rústica: Agnese Parronchi, a restauradora-chefe, surgia nos corredores da Galleria dell'Accademia no horário de fechamento do museu e começava a escovar o mármore com uma variedade de escovas de pêlo, buchas de algodão e borrachas antes de limpá-la com um pedaço de camurça.

   Embora os jornais europeus relatassem que o Davi estava para tomar um banho, Parronchi, na verdade, planejava usar pouquíssima água, acreditando que poderia remover não apenas a sujeira, mas também a capa protetora de óleo aplicada pelo próprio Michelangelo.

   Mas assim que estava prestes a começar o trabalho, a polêmica mostrou sua cara feia. Parronchi se demitiu em abril depois de uma disputa amarga com sua superior, Franca Falletti, diretora operacional da Accademia.

   Alguns jornais ingleses retrataram a briga, saborosamente, como pouco mais do que duas mulheres ambiciosas brigando por um homem.Como em todas as restaurações, no entanto, sérias questões estavam em jogo.

   Parronchi disse a um jornal britânico que Falletti, uma historiadora da arte, prefere métodos mais tecnológicos porque parecem mais impressionantes.

   Falletti contra-atacou acusando Parronchi de ter horror a tudo que é moderno - nesse caso, dos produtos químicos com os quais Falletti e outros na Accademia querem limpar a estátua.

   O relativo fracasso de projetos de alta tecnologia como a campanha de 20 anos para restaurar A Última Ceia, de Leonardo, deve nos alertar a respeito das sedutoras promessas da ciência e das zelosas intervenções da indústria da restauração.

   Numa época em que soluções mais arriscadas para problemas de conservação roubam regularmente as manchetes, os métodos antiquados de Parronchi podem parecer um retrocesso aos tempos em que o vinho e o pão seco dos gregos eram os apetrechos da hora para limpar afrescos sujos. Mas sua escova de pêlos também parece ser altamente eficiente e perfeitamente segura.

   Embora Falletti tenha dito que as humildes ferramentas de Parronchi podem danificar a estátua, seus trabalhos anteriores - principalmente, o das catacumbas dos Medici, entalhadas por Michelangelo na Nova Sacristia, em São Lorenzo, em Florença - ressaltam a validade de seus métodos.

   Parronchi também parece ter boas razões para relutar em submeter o Davi a novas técnicas de restauração. Ela argumentou que as compressas favorecidas por Falletti vão deixar intactas as bolsas de pó distribuídas por vários orifícios e reentrâncias da estátua, diminuindo sensivelmente sua beleza.

   Essas preocupações são compartilhadas por James Beck, historiador de arte da Universidade de Columbia e especialista em Michelangelo, que respondeu a ações de injúria nos tribunais italianos depois de criticar o que encarou como a limpeza insensível de uma tumba do século 15 em Lucca.

   Com a saída de Parronchi, a Accademia contratou um novo restaurador. O trabalho vai começar durante o outono europeu, os banhos químicos estão a espera. Ainda que estivesse bem servido pelas escovas e buchas de Parronchi, o Davi sem dúvida sobreviverá a este último rompante. Além do mais, qualquer estátua que tenha sobrevivido ao banho de ácido de Costoli e ao golpe de martelo de Cannata pode certamente sobreviver a qualquer coisa.

   Mas nesse ínterim somos obrigados a contemplar uma situação constrangedora em que uma grande obra de arte está se tornando vítima da política do mundo das artes. Pode-se chamar a isso de tragédia da restauração. (Tradução de Alessandro Giannini)

Ross King é autor de 'Brunelleschi's Dome: How a Renaissance Genius Reinvented Architecture'


(© O Estado de S. Paulo)

Acompanhe, ao vivo, a restauração do Moisés, de Michelangelo (Progetto Mosè)

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