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Eles estão condenados a se
atrair, mas sem compreensão mútua
ROBERTO PAZZI
The New York Times
FERRARA, Itália - A
tensão entre a Alemanha e a Itália, desencadeada há poucos dias pelas palavras
descuidadas de Stefano Stefani, nosso ex-vice-ministro do Turismo, existe desde tempos
remotos.
Muito antes de Stefani - que
renunciou na sexta-feira da semana passada - acusar os turistas alemães de invadirem as
praias italianas e promoverem concursos de arroto, tem existido uma relação ambivalente
de atração e repulsa entre nossos países. Embora essa dinâmica tenha estimulado a
cultura, ela também provocou desfechos políticos inquietantes, até mesmo desastrosos.
Tudo começou com a Roma do
imperador Augusto, quando as legiões romanas de Varo foram exterminadas pelas forças
germânicas de Armínio, em 9 d.C., na floresta de Teutoburgo. Diferentemente da Gália, a
Alemanha nunca foi colonizada. Ela continuou sendo uma perigosa divisória dentro do
Império Romano, uma outra civilização. Por isso, a Germânia tornou-se objeto de
idealização e mito na obra do grande historiador Tácito. Com amargura, ele reconheceu
nos costumes dos bárbaros germânicos uma pureza de força que seus romanos já haviam
perdido. Tácito previu que o fim de Roma viria da Alemanha - e foi isso que de fato
aconteceu, com as invasões bárbaras.
Primeiro o império, depois a
religião. A Alemanha e a Itália mantiveram-se separadas pelas tremendas batalhas sobre a
investidura religiosa dos líderes feudais. Essa tensão atingiu o pico com a humilhação
da Alemanha nas mãos do papa Gregório 7.º, um italiano, quando o pontífice forçou
Henrique 4.º, o imperador germânico, a fazer penitência por três dias na neve de
Canossa, para onde ele teve de ir a fim de implorar pela anulação de sua excomunhão em
janeiro de 1077. Mais tarde a tensão avançou com Lutero e a subseqüente divisão da
Europa entre dois modos de observação religiosa, o protestante no norte e o católico no
sul.
O imperador meio hispânico,
meio germânico Carlos 5.º passou os 40 anos de seu reinado (1516-1556) tentando em vão
empurrar a História de volta ao abrigo do cristianismo unificado. O saque de Roma foi o
clímax monstruoso desse encontro quando, em 1527, os soldados luteranos de Carlos 5.º
invadiram a Cidade Eterna, estuprando e matando freiras e padres. A desejada união nunca
seria recriada.
Mais tarde, com o Romantismo
alemão, a questão se dissipa na construção de mitos literários e poéticos. A Itália
torna-se o caloroso centro maternal da Europa, o lugar onde o ovo da civilização grega
seria chocado. As ruínas de Roma e Atenas falam àqueles que as interrogam. Goethe
idealiza a força de atração do Mediterrâneo - a terra aonde crescem os limões - com
sua Viagem Italiana. É claro que também aqui existe o outro lado. Nacionalistas como o
dramaturgo Heinrich von Kleist idealizam uma Alemanha bárbara, bebendo das guerras
romanas para escrever uma tragédia baseada nos derrotados Varo e Augusto.
Como bem sabemos, esse drama
de ambivalência sentimental culmina na amizade duvidosa, insincera e finalmente fatal
entre dois colossos políticos (pena que não dois poetas inofensivos). As ruínas da
Alemanha e da Itália deixadas pela 2.ª Guerra Mundial ainda estão diante dos olhos dos
italianos, para nos lembrar do destino trágico daquela aliança artificial. Por que
artificial?
Porque os alemães e os
italianos foram feitos para amar uns aos outros, mas nunca para apreciar uns aos outros.
Eles estão condenados a se atrair sem compreensão mútua. Uns preenchem os espaços
vazios nas mentes dos outros.
Uma aliança militar entre
povos tão diferentes, à parte a representação dos dois ditadores loucos no filme de
Chaplin, é impensável. Os alemães são o povo de Lutero, Leibniz, Bach, Goethe, Hegel,
Marx, Schopenhauer, Wagner e Nietzsche. A psique da Alemanha é tentada, como Thomas Mann
nos advertiu em Doutor Fausto, por um sonho luciferiano do Absoluto, um sonho embriagante
no qual o Eu dissolve-se no Todo.
Mas a Itália, berço da
civilização grega e latina mediterrânea, ainda está infundida pela hipótese
euripediana: o caráter é o destino do homem. Os italianos sempre foram incuráveis e
maravilhosos individualistas, resistentes a qualquer sonho do absoluto, incluindo o
cristão. Sua fé católica não passa de um véu cobrindo o culto pagão da beleza,
imaginação, juventude, glória, etc. Chamamos isso de sucesso, mas na verdade trata-se
da necessidade de um Eu excepcional - um herói grego como Ulisses ou santo como Agostinho
- para nos distinguir na multidão.
Vejam só nosso
primeiro-ministro, Silvio Berlusconi. Ele é um homem rico que ridiculariza políticos
profissionais e fez milhões de italianos sonharem em imitar sua sorte votando nele.
Haverá melhor expressão da alma individualista da Itália?
Certamente o narcisismo, essa
terrível enfermidade pós-moderna, é o risco indisfarçado desse hábito da mente. De
fato, a resposta de Berlusconi a Martin Schulz, membro alemão do Parlamento Europeu,
equiparando-o a um comandante de campo de concentração, mostra o lado sombrio de nossa
sensibilidade.
Então essas duas nações
estão destinadas a nunca entender uma à outra? Onde a Alemanha e a Itália podem se
reunir e encontrar um ponto de equilíbrio?
Talvez apenas no curso da
construção de uma Europa unida, que dependerá do respeito à diversidade de caráter e
atitudes. Até lá, tomara que consigamos atravessar as férias de verão - nas praias da
Itália e nas montanhas da Alemanha - em paz.
Roberto Pazzi é autor de 'Conclave',
entre outros romances
(©
O Estado de S. Paulo)
Uma ardente troca de agressões. A
Europa voltou ao normal
Berlusconi dá empurrão
nesse retorno ao chamar um deputado alemão de nazista
FRANK BRUNI
The New York Times
ROMA - Parece que
aconteceu há uma eternidade, mas foi em meados de junho que os sábios das redondezas
proclamaram os valores compartilhados e objetivos comuns dos países da União Européia,
que pisava no acelerador de sua primeira Constituição.
Não mais. Rapidamente, aquela
doce música foi substituída pelo barulho de insultos verbais, difamações, orgulhos
nacionais feridos e rancores nacionais reavivados. Os historiadores agora podem suspirar
aliviados e todo mundo pode ficar tranqüilo: a Europa voltou ao normal.
O primeiro-ministro da
Itália, Silvio Berlusconi, deu um empurrão nesse retorno ao dizer a um deputado alemão
do Parlamento Europeu que ele parecia um guarda de campo de concentração. Um
funcionário de menor escalão do governo italiano fez sua parte na semana passada,
dizendo estar farto dos alemães supernutridos que dominam todas as melhores praias do
Mediterrâneo.
Compreensivelmente irritado, o
chanceler alemão, Gerhard Schroeder, cancelou uma viagem de férias de verão à Itália,
enquanto seus compatriotas falavam com veneno daquela gente grossa ao sul dos Alpes.
Foi uma ardente troca de
agressões. E foi um vislumbre novo e revigorante das emoções horrendas e verdades
confusas obscurecidas por todas as regulamentações ambientais, subsídios agrícolas,
logotipos elegantes e páginas incrementadas da internet que mantêm a União Européia
unida.
"Há velhas guerras,
batalhas perdidas, batalhas ganhas, glória ofuscada", disse Keith Spicer, diretor do
Instituto de Mídia, Paz e Segurança, em Paris. "Simplesmente não tem fim."
Spicer referia-se aos últimos
seis séculos, durante os quais os antepassados da Espanha, Portugal, Itália, França,
Alemanha e Inglaterra brigaram pelo domínio global. A invasão militar facilmente superou
o futebol como o esporte preferido da Europa, criando aquele tipo de mágoa absurdamente
difícil de curar.
Esses ressentimentos são
infinitamente maiores e mais variados que a última desavença entre italianos e alemães,
que, na verdade, gostam muito mais uns dos outros do que os ingleses e franceses - ou
ingleses e alemães.
Mesmo antes da enorme
discussão na Europa sobre quem apoiava e quem não apoiava os Estados Unidos no Iraque,
publicações britânicas relativamente respeitáveis incluíram artigos que rejeitavam os
franceses como "rãs" e os alemães como "repolhos", presumivelmente
baseando-se no princípio de que você é o que você come.
Esses termos depreciativos
podem explicar um comentário feito nos anos 90 por Edith Cresson, então
primeira-ministra da França. Num exemplo não tão atípico do insulto intracontinental,
ela afirmou que 25% dos homens britânicos eram "gays" - e com isso não quis
dizer "alegres".
Métodos de manter relações
sexuais, estilos de cozinha, até maneiras de falar: estes são os grãos para o moinho
dos ciúmes e zombarias europeus, nem inofensivos, nem elegantes, mas persistentes.
Como um princípio geral e
reconhecidamente amplo, os britânicos acham os franceses condescendentes, com o que
concordam os italianos, os alemães, os espanhóis, os holandeses e talvez os próprios
franceses.
Os franceses acham que os
britânicos não têm bom gosto para comida nem limite para o álcool. Os franceses pensam
isso também dos alemães.
Os alemães e os italianos
acham que os britânicos, ou pelo menos aqueles britânicos que se consideram a elite,
são arrogantes e meticulosos - e exageram no uso de palavras pomposas.
"Eles têm um complexo de
superioridade quando se trata da vida pública, mas sofrem de um complexo de inferioridade
na vida privada", disse Beppe Severgnini, ex-correspondente na Itália da revista
britânica The Economist e autor de um livro sobre a Grã-Bretanha vista por um italiano.
Ele afirmou, por exemplo, que
os britânicos se preocupam com o sexo.
Nigel Farage, um representante
britânico no Parlamento Europeu, disse que os italianos não se preocupam com outros
assuntos importantes.
"É como quando falamos
sobre fraude no orçamento da União Européia", afirmou Farage. "Todo ano somem
bilhões. Os britânicos se preocupam com isso apaixonadamente. Os italianos não poderiam
se importar menos."
De fato, as impressões
européias dos italianos como vigorosos mas foras-da-lei, carismáticos mas corruptos,
foram lenha na recente fogueira.
Mesmo antes de Berlusconi
perder a cabeça no Parlamento Europeu e dizer arrivederci à etiqueta, os noticiários e
publicações dos outros países tratavam de sua posse na presidência rotativa da UE como
um evento apocalíptico.
Algumas dessas apreciações
apresentavam traços óbvios de inveja e desconfiança étnica, o tipo de vento ruim que
poderá soprar mais forte à medida que a união se expandir e aproximar adversários de
outrora. A UE, hoje com 15 membros, deverá receber mais dez no ano que vem.
Os novos membros do leste e do
centro da Europa quase nunca nutriram muita admiração por seus colegas ocidentais, para
os quais a verdadeira civilização agrupa-se muito mais perto do Atlântico.
Houve uma pungente
manifestação desse preconceito quando Jacques Chirac, o presidente francês, disse
friamente a alguns desses países que eles deveriam calar a boca em vez de expressar apoio
à campanha militar liderada pelos EUA contra o Iraque. Foi uma amostra comovente do
festival de agrados que estava por vir.
Seções da Europa que, vistas
de fora, parecem receitas homogêneas de harmonia irrefreada são na verdade algo
totalmente diferente. "Até os escandinavos têm sentimentos bem específicos uns em
relação aos outros", disse Spicer. "Os dinamarqueses dizem que os suecos são
chatos. Os suecos dizem que, se eles são chatos, os noruegueses são ainda mais. Os
noruegueses dizem o mesmo dos finlandeses."
Os noruegueses na verdade não
pertencem à União Européia, tendo rejeitado o projeto. Farage compreende. Ele é contra
a extensa integração política européia e foi eleito para o Parlamento Europeu
prometendo não deixá-la ir longe demais. "Sou o inimigo interno", explicou.
"As rivalidades aqui são
muito profundas. Não acho que ninguém ajude fingindo que elas não são", disse
ele, referindo-se ao futuro, presente e passado da Europa.
De sua perspectiva pessimista,
a explosão de Berlusconi no Parlamento Europeu foi um momento de estímulo e de verdade
necessária.
"Foram os melhores
ingressos de teatro que já comprei", afirmou Farage. "Eu estava lá, morrendo
de rir e gritando: "Ah! A alegre família da Europa!"
(©
O Estado de S. Paulo)
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