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Em reuniões fechadas, religiosos
debatem a saúde de João Paulo 2º e o futuro da Igreja Católica após
sua morte
PAULO DANIEL FARAH
ENVIADO ESPECIAL AO VATICANO
Alguns
cardeais que participaram ontem e anteontem de reuniões fechadas já
admitem que há conversas em torno da saúde de João Paulo 2º, 83, do
processo de sucessão e do próximo papa.
O cardeal
belga Godfried Danneels, arcebispo de Bruxelas, chegou mesmo a
afirmar ter sido questionado diversas vezes, nos últimos dias, sobre
uma eventual intenção de ser o próximo líder da Igreja Católica. "Se
disser não, vão dizer que estou mentindo. Se disser sim, vão me
chamar de ambicioso. O ideal é manter o silêncio", afirmou Danneels.
O cardeal
Roger Mahoney, de Los Angeles, disse que "é possível que um ou outro
cardeal" tenha levantado o assunto com outros membros do Colégio
Cardinalício. "Mas isso não faz parte de nossa pauta nas reuniões. É
o Espírito Santo quem vai nos fazer conhecer" o nome do próximo papa
"quando a hora chegar".
Cardeais do
mundo inteiro vieram a Roma para as comemorações do 25º aniversário
do pontificado e para reuniões que também funcionam como uma espécie
de prévia do conclave (reunião a portas fechadas) que vai eleger o
sucessor de João Paulo 2º, 83. O Colégio Cardinalício inteiro,
nomeado em sua maioria pelo papa atual, foi convidado para as
celebrações.
Estão em
Roma 149 cardeais. Participam do conclave apenas cardeais com menos
de 80 anos. "Há 109 pessoas [candidatos e eleitores possíveis no
próximo conclave] no mundo que não podem responder à pergunta" sobre
quem será o próximo papa, afirma o cardeal norte-americano Theodore
McCarrick.
Mesmo
cardeais como Francis Arinze, da Nigéria, ou Wilfrid Fox Napier, da
África do Sul, que costumam ser bastante receptivos a questões
concernentes à igreja vêm preferindo não se manifestar sobre o tema
em público. Arinze é cotado como candidato à sucessão. Caso isso
aconteça, ele será o primeiro papa africano em mais de 1.500 anos.
"Não
devemos falar sobre isso. Ainda temos um papa", argumenta o cardeal
Juan Sandoval Iniguez, do México.
É
compreensível que muitos cardeais neguem que haja discussões nesse
sentido e optem pelo silêncio. A igreja proíbe que cardeais discutam
a sucessão até a morte do papa.
"Não é
possível fazer nenhuma previsão [sobre o próximo papa]", defende o
cardeal argentino Jorge Bergoglio, 67.
A regra do
silêncio no que concerne a futura liderança católica também vem
sendo adotada pelos cardeais brasileiros, mas, segundo
especialistas, depois que o papa atual promoveu uma
internacionalização da igreja e rompeu, ele próprio, mais de quatro
séculos de tradição de papas italianos, o Brasil ou outro país
latino-americano pode vir a ter seu próprio papa.
"Talvez
tenha chegado a hora da América Latina, cada vez mais presente no
Colégio Cardinalício e com representantes bastante expressivos. É
uma possibilidade muito concreta", diz Jean Chelini, professor
francês de história medieval e contemporânea das religiões e autor
de "Histoire de l'Eglise: nos Racines pour Comprendre le Présent"
(história da igreja: nossas raízes para compreender o presente).
Questionado
sobre qual cardeal latino-americano teria mais chance, Chelini
afirma, em entrevista concedida em Roma: "o cardeal Cláudio Hummes
[arcebispo de São Paulo] é um candidato muito forte".
O próximo
papa terá de lidar com temas como a desigualdade social na América
Latina e o crescimento do islamismo na África e na Europa. Por isso,
um cardeal vindo de um país latino-americano ou majoritariamente
islâmico pode ter prioridade no conclave.
"Os
cristãos devem marcar sua presença no mundo globalizado. Precisamos
reintegrar todos os excluídos economicamente e socialmente. O
importante é saber quem pode ajudar mais a igreja hoje e no futuro",
disse d. Cláudio Hummes, 69.
Os cardeais
reunidos no conclave de 1978 escolheram um homem que vinha de um
país do Leste europeu sob um regime comunista, Karol Wojtyla. Da
próxima vez, o eleito pode ter como uma de suas missões ajudar a
melhorar a situação dos pobres na América Latina.
A Igreja
Católica enfrenta o avanço dos evangélicos na região e o crescimento
do islamismo na África. Um papa também poderia dificultar a
conversão de católicos e atrair novos fiéis. Joseph Ratzinger,
prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou acreditar que
o próximo líder católico pode ser africano.
Os
italianos têm grande peso. O papa também é bispo de Roma. "Para mim,
parece óbvio que primeiro é preciso ver se algum romano ou italiano
em geral é candidato", diz o cardeal norte-americano Francis George,
66. O cardeal Dionigi Tettamanzi, arcebispo de Milão, é um nome
forte entre os italianos.
George
também disse que seria mais difícil para um país como os Estados
Unidos, acusado de unilateralismo, eleger um papa.
É
recomendável que o próximo cardeal seja poliglota para se dirigir a
fiéis que se acostumaram com a facilidade de João Paulo 2º para
falar idiomas estrangeiros (sua língua nativa é o polonês).
Segundo especialistas, um dos principais desafios do próximo papa
será lidar com a questão do celibato clerical. A igreja enfrenta uma
crise de vocações em muitos países, e crescem os movimentos para que
a Igreja Católica aceite padres casados. Recentemente, mais de 160
padres católicos norte-americanos firmaram um documento que defende
a ordenação de homens casados.
Outros
desafios, além da crescente desigualdade social, envolvem a
secularização e o esvaziamento das igrejas, sobretudo na Europa.
Saúde do papa
Sabe-se
ainda que os cardeais vêm debatendo como lidar com a piora do estado
de saúde do papa, que sofre de mal de Parkinson há cerca de dez
anos. Anteontem, ele celebrou uma missa a céu aberto na praça de são
Pedro, e a fadiga provocada pelo esforço era evidente. Ontem,
durante a apresentação de um concerto (que durou uma hora e meia), o
cansaço era ainda mais visível.
O cardeal
argentino Jorge Mejía, 80, que dirige a Biblioteca Vaticana e
estudou com João Paulo 2º, disse ter certeza de que o papa
renunciaria se não pudesse mais falar. Segundo Mejía, o líder
católico já teria deixado instruções nesse sentido em dois
documentos endereçados ao secretário de Estado (Angelo Sodano) e a
seu secretário particular.
O cardeal
italiano Mario Francesco, 74, desmentiu a informação. "Os que falam
em renúncia por causa das dificuldades do papa estão mal
informados."
"Não tenho
dúvidas sobre a capacidade do papa para continuar seu ministério",
disse o cardeal belga Jan Peter Schott, 75. "Os papas não se
aposentam", alegou o cardeal de Benin, Bernard Gantin.
De qualquer
forma, quando se fazem previsões, vale lembrar um ditado tradicional
no Vaticano: "Aquele que entra em um conclave como papa sai como
cardeal". Ou seja, às vezes favorito é só aquele que não é.
(© Folha de S. Paulo,
18.10.2003)
Vaticano rediscute caráter vitalício do papado
DO ENVIADO ESPECIAL
A saúde
frágil de João Paulo 2º, 83, e a expectativa de vida cada vez maior
das pessoas -especialmente nos países desenvolvidos- fizeram com que
o Vaticano começasse a rediscutir o caráter vitalício do
pontificado. Esse seria um dos temas sobre os quais os cardeais têm
conversado em reuniões fechadas.
O cardeal
belga Godfried Danneels disse que no futuro próximo será comum que
os papas renunciem e que eles "devem ser livres para decidir o
momento de se aposentarem". "Cada vez vivemos mais tempo, e não é
possível continuar com essa responsabilidade quando se tem 90 ou 100
anos, mesmo que se recebam os melhores cuidados", disse, no último
dia 9, Danneels, visto como um dos possíveis sucessores de João
Paulo 2º.
As leis
eclesiásticas permitem explicitamente a renúncia de um papa, mas
exigem que a decisão seja tomada livremente e que seja "devidamente
manifesta". A decisão, extremamente rara na história da igreja, não
precisa da aceitação de nenhuma autoridade.
O cânone
332 do Código de Direito Canônico (principal documento legislativo
da Igreja Católica) afirma que, "se acontecer que o romano pontífice
renuncie a seu múnus (cargo), para a validade se requer que a
renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não
que seja aceita por alguém".
O Código de
Direito Canônico não prevê, no entanto, nenhuma medida concreta no
caso de perda das faculdades mentais do líder católico. Também não
está claro quem seria o encarregado de tomar uma decisão se a
situação chegasse a esse ponto.
O último
papa a renunciar por vontade própria foi Celestino 5º, em 1294. Já o
papa Gregório 12 foi forçado a abdicar por causa de disputas
internas em 1415.
Saúde frágil
Em agosto
de 2002, o papa admitiu, pela primeira vez, que vinha sofrendo
pressões para que renunciasse e abrisse caminho para a eleição de um
novo líder católico. Sua saúde frágil, agravada pelo mal de
Parkinson (desordem do sistema nervoso) e pela artrose no joelho,
despertaram rumores de que ele renunciaria durante a viagem que
fazia à cidade de Cracóvia, que o consagrou como arcebispo e
cardeal, antes de ser eleito papa, em 1978.
Ele negou
qualquer intenção de abandonar a liderança católica, e o cardeal
chileno Jorge Medina Estevez afirmou ter ouvido o papa dizer, em
particular, que não renunciaria "porque Jesus não desceu da cruz".
A maior
parte dos cardeais, ao menos publicamente, declara ser contra uma
eventual renúncia.
No início deste mês, um cardeal disse que o papa está próximo da
morte. O cardeal austríaco Christoph Schönborn, 58, arcebispo de
Viena e um dos principais líderes católicos europeus, afirmou que
João Paulo 2º "está se aproximando dos últimos dias e meses de sua
vida". Foi o primeiro clérigo da alta hierarquia católica a
reconhecer que o estado de saúde do papa é muito frágil. "O mundo
inteiro está testemunhando um papa doente, incapacitado e que está
morrendo", declarou.
O papa mais
uma vez surpreendeu. Depois das declarações, realizou uma cerimônia
de canonização na praça de São Pedro e viajou a Pompéia. Anteontem,
apesar das dificuldades, celebrou uma missa na praça de são Pedro,
onde permaneceu durante mais de duas horas.
De acordo com o cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado do
Vaticano, o papa tem problemas de saúde, mas está plenamente à
frente da Igreja Católica.
Sodano
disse que, "sem dúvida alguma", João Paulo 2º é quem toma decisões
relativas ao cotidiano da igreja e questões relacionadas ao cerca de
1 bilhão de católicos no mundo.
"Não estou fingindo que o papa está bem, não. É óbvio que o tempo
para todo mundo... é uma lei da vida que alguém com 83 anos não
tenha a força de alguém com 33 anos", disse.
(PDF)
(© Folha de S. Paulo,
18.10.2003)
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