É o terceiro filme que Jean-Marie Straub e
Danièle Huillet adaptam do escritor siciliano Elio Vittorini. Gente da
Sicília foi o primeiro, em 1999, seguindo-se Operai, Contadini, em 2001.
Agora chega a vez de A Volta do Filho Pródigo, que se baseia em As
Mulheres de Messina. Prepare-se para um novo choque. Straub e Danièle
não podem ser classificados como diretores franceses nem alemães, embora
os primeiros filmes dele, especialmente o excepcional A Crônica de Ana
Madalena Bach - o mais belo filme já feito sobre a relação entre cinema
e música -, tenha sido produzido na Alemanha, sob a égide do novo cinema
alemão que surgiu após o Manifesto de Oberhausen, nos anos 1960.
Radicados na Itália, Straub e Danièle encontraram na memória, tal como é
referida na escrita de Vittorini, material para filmes que colocam em
discussão o próprio conceito do que é cinema.
Para Hollywood, é a arte de contar histórias, o que os americanos
fazem em escala industrial, ocupando as telas de todo o mundo com as
histórias deles.
Straub e Danièle fazem outra coisa. Carlos Adriano, o vanguardista
diretor de Remanescências, gosta de contar como seu produtor, Bernardo
Vorobow, e ele descobriram o endereço de Straub na periferia de Roma e
foram bater naquela casa onde encontraram o diretor e sua companheira às
voltas com numerosos cães. Uma dupla até certo ponto prosaica, não
fossem os filmes deles os mais radicais que você costuma ver na mostra.
Apesar das diferenças entre ambos, se existem dois filmes que
apresentam algum parentesco, mesmo distante, são o de Marcelo Masagão,
1,99, e A Volta do Filho Pródigo. Ambos provam que é um erro cobrar
dramaturgia de filmes conceituais. Explicando seu método, Straub disse,
certa vez, que seu objetivo é chegar a um estado absolutamente puro de
cinema, esvaziando os planos de qualquer intenção ou vontade de
expressão. O mistério do filme só se opera no espectador, como no filme
de Masagão, se ele celebrar um compromisso e preencher esse vazio, que
obviamente não é tão vazio assim, construindo a sua idéia, a sua
história.
Esse tipo de abstracionismo pega carona na força da imaginação de
Elio Vittorini e na forma como o escritor recupera a memória como
reencontro do homem consigo mesmo e afirmação (metafórica) da própria
identidade. Cahiers diz que Straub e Danièle não fazem cinema, no cinema
tradicional, mas propõem a leitura/escritura cinematográfica da obra de
Vittorini. Como em Operai, Contadini, homens falam entre si e para a
câmera numa floresta.
Aparece uma mulher, como a mãe de Gente da Sicília. O segredo está
na colocação da câmera, na luz e na forma como a palavra vira música. A
partir daí, A Volta do Filho Pródigo vira metáfora da reconstrução - do
indivíduo, da Itália e do mundo, que bem precisa começar de novo.