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Giordana e sua vasta saga familiar de seis horas

Jasmine Trinca como Georgia: a jovem perturbada determina o destino dos dois irmãos

'A Melhor Juventude' será um dos grandes filmes do evento e não apenas por sua duração

LUIZ CARLOS MERTEN

   Há em A Melhor Juventude essa cena em que, na noite de réveillon, Matteo visita a família e parte para cumprir seu destino trágico, apesar dos apelos da mãe, que lhe pede que fique para a ceia. O diretor Marco Tullio Giordana lembra que existe uma cena igualzinha em Rocco e Seus Irmãos, a obra-prima de Luchino Visconti, quando Simone volta para casa, depois de matar Nádia, e encontra a família à mesa, reunida para celebrar a vitória de Rocco. "O cinema italiano contou muitas sagas familiares", diz Giordana numa entrevista por e-mail. "Basta lembrar-se de A Terra Treme e Rocco, de Visconti; de De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio; e A Família, de Ettore Scola. Mais recentemente, Gianni Amelio explorou o tema em Assim É Que se Ria e eu mesmo, em Os Cem Passos, abordei o assunto por meio das relações de amor e ódio que atormentam os membros de uma família."

   Visconti, observa Giordana, dizia que a família "é o lugar dos amores impossíveis e eu estou totalmente de acordo com ele". Na família, todas as relações tendem a exasperar-se. "Há sempre algo de íntimo, de embaraçoso, de vergonhoso mesmo. Pais, filhos, irmãos, parentes protegem-se porque o amor familiar precisa estabelecer limites para si mesmo. Deve tornar-se impraticável, porque se liga ao tabu sobre o qual se fundam, por razões puramente patrimoniais, todas as civilizações modernas - o incesto", avalia o diretor.

   A Melhor Juventude será um dos grandes momentos do evento, como o foi, há três anos, o filme anterior do diretor, Os Cem Passos. Grande em todos os sentidos, até na duração, pois A Melhor Juventude ultrapassa, em muito, os limites da duração normal de um filme. "A história original e o roteiro são de Stefano Rulli e Sandro Petraglia", conta Giordana. "Já havia trabalhado com eles em Pasolini, Um Delito Italiano e sabia que era um projeto interessante, contando a história de uma família italiana desde os anos 1960 até hoje. Quando comecei a ler o roteiro enviado pelo produtor Angelo Barbagallo, imediatamente percebi que era o filme que queria fazer.".

   Giordana sempre achou que A Melhor Juventude deveria ser um só corpus, um só filme. "A divisão em episódios, quando a RAI virou nossa parceira, me parece puramente acidental, mas foi benéfica. Permitiu uma duração que seria impensável no cinema. Seis horas constituem um tempo infinito, de romance.

   Permitiu-nos seguir vários personagens e desenvolver histórias paralelas, dilatando o que teria de ser concentrado e resumido num filme para cinema."

   A história trata desses dois irmãos, Nicola e Matteo, que seguem caminhos diversos. Um intelectual e outro, policial. "Só começo a perceber o que o será o filme quando inicio o trabalho com os atores. Dou-lhes poucas instruções. Prefiro que eles me tragam suas informações sobre os personagens. Sabia que Luigi Lo Cascio seria perfeito como Nicola. É um dos raros atores italianos que podem interpretar um intelectual sem parecer pedante."

   Quando jovem, Giordana estudou música clássica. Diz que a música é sempre uma personagem de seus filmes. Todo tipo de música, até as mais disparatadas. Jazz, clássica, ópera, pop, rock, étnica ou sacra. "Misturo tudo, mas faço uma distinção entre música de cena e na cena. Gosto do uso que (Stanley) Kubrick faz da música. É uma espécie de lente para aumentar ou deformar, como se a função da música fosse atribuir uma dimensão mais abstrata à concretude das imagens. Ouço todo tipo de CD em busca daquilo que funciona. Sabia que queria usar a música de Georges Delerue para Uma Mulher para Dois (Jules et Jim), de François Truffaut, um filme decisivo dos anos 1960. E também sabia que a música de bandoneón de Astor Piazzolla daria força às cenas, como já havia ocorrido em meu primeiro filme, Maledetti vi Amerò."

   Grito de alarme - Uma das grandes cenas de A Melhor Juventude é o discurso que expressa a amargura do professor de Nicola, durante o exame a que ele se submete (e termina por abandonar). "É interpretado, penso que de forma extraordinária, por Mario Schiano, que não é um ator, mas um músico, um dos maiores jazzistas italianos. Diz uma coisa terrível: a Itália é um lugar belo e inútil, destinado a desaparecer. Não acredito, verdadeiramente, mas acho importante lançar esse grito de alarme contra a decadência, não só da Itália, mas do Ocidente. Temos a obrigação, como espécie, de reencontrar a energia e inocência perdidas, de descobrir um destino comum entre os povos e as nações. Não podemos continuar alimentando tensões para fazer a guerra, porque, desse jeito, corremos o risco de autodestruir-nos."

   Quando começou a fazer filmes, há 20 anos, Giordana selecionava um personagem e o seu ponto de vista para deixar claro o que queria dizer.

   "Hoje, tenho consciência de que devo e quero identificar-me com todos os personagens, mesmo os mais diferentes de mim. Fascina-me a diversidade. Por exemplo, Nicola e Matteo, os dois irmãos de A Melhor Juventude, surgem do mesmo contexto familiar, possuem uma sensibilidade muito forte, o mesmo amor pela cultura. Mas, em Matteo, essa sensibilidade tem uma dimensão patológica que o impede de crescer. Nicola, ao contrário, consegue elaborar e controlar seus fantasmas. Com qual dos dois você acha que devo identificar-me?

   Identifico-me com os dois. Fui um garoto atormentado, quase suicida, como Matteo, mas também tenho a vontade, a capacidade de sonhar e ser feliz de Nicola."

   Para o diretor, seu filme não é sobre a esquerda italiana. "Trata de uma coisa maior e mais ampla, que envolve a Itália, o Ocidente, a sensação de que toda uma civilização está chegando ao fim." Giordana diz que o mundo atual ficou formatado de um jeito que ficou mais difícil sonhar projetos coletivos. "Os projetos voltam-se agora para as consciências individuais, para as escolhas que cada um tem de fazer. Não acho pessimista liquidar com a ilusão da modernidade; pelo contrário, acho que pode ser um progresso. Os personagens de A Melhor Juventude me fascinaram porque são diferentes não daquilo que os italianos são, mas da forma como costumam ser representados, principalmente na televisão."

   Há uma espécie de rito de passagem. "Nicola consegue passar seu testemunho à geração seguinte, representada pelo filho de Matteo. Alguns conseguem fazer essa passagem; outros, não, talvez porque não tenham testemunho para dar ou se sintam esgotados." Daí a beleza do desfecho de A Melhor Juventude. Muitos daqueles que amavam a revolução perderam suas ilusões no terrorismo tipo Brigadas Vermelhas. E tudo converge para a serenidade adquirida de Nicola, para o filho de Matteo que vai adiante do pai, no rumo do Norte distante. A melhor juventude não foi só a dos anos 1960, como parece sugerir Denys Arcand no discutível As Invasões Bárbaras. "Fazer esse filme para TV foi importante porque o tema é um pouco esse: liberar os jovens dessa tendência que consiste em anestesiar suas angústias e a levá-los a um consumismo desenfreado (com que dinheiro, se não existem empregos?). O importante é que não percamos a capacidade de refletir. E resistir", conclui Giordana, que tem condições de repetir o prêmio do público da mostra, que ganhou com o poderoso Os Cem Passos, há três anos.

(© O Estado de S. Paulo)

 

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