Há em A Melhor Juventude essa cena em que, na noite de réveillon,
Matteo visita a família e parte para cumprir seu destino trágico, apesar
dos apelos da mãe, que lhe pede que fique para a ceia. O diretor Marco
Tullio Giordana lembra que existe uma cena igualzinha em Rocco e Seus
Irmãos, a obra-prima de Luchino Visconti, quando Simone volta para casa,
depois de matar Nádia, e encontra a família à mesa, reunida para
celebrar a vitória de Rocco. "O cinema italiano contou muitas sagas
familiares", diz Giordana numa entrevista por e-mail. "Basta lembrar-se
de A Terra Treme e Rocco, de Visconti; de De Punhos Cerrados, de Marco
Bellocchio; e A Família, de Ettore Scola. Mais recentemente, Gianni
Amelio explorou o tema em Assim É Que se Ria e eu mesmo, em Os Cem
Passos, abordei o assunto por meio das relações de amor e ódio que
atormentam os membros de uma família."
Visconti, observa Giordana, dizia que a família "é o lugar dos
amores impossíveis e eu estou totalmente de acordo com ele". Na família,
todas as relações tendem a exasperar-se. "Há sempre algo de íntimo, de
embaraçoso, de vergonhoso mesmo. Pais, filhos, irmãos, parentes
protegem-se porque o amor familiar precisa estabelecer limites para si
mesmo. Deve tornar-se impraticável, porque se liga ao tabu sobre o qual
se fundam, por razões puramente patrimoniais, todas as civilizações
modernas - o incesto", avalia o diretor.
A Melhor Juventude
será um dos grandes momentos do evento, como o foi, há três anos, o
filme anterior do diretor, Os Cem Passos. Grande em todos os sentidos,
até na duração, pois A Melhor Juventude ultrapassa, em muito, os limites
da duração normal de um filme. "A história original e o roteiro são de
Stefano Rulli e Sandro Petraglia", conta Giordana. "Já havia trabalhado
com eles em Pasolini, Um Delito Italiano e sabia que era um projeto
interessante, contando a história de uma família italiana desde os anos
1960 até hoje. Quando comecei a ler o roteiro enviado pelo produtor
Angelo Barbagallo, imediatamente percebi que era o filme que queria
fazer.".
Giordana sempre achou que A Melhor Juventude deveria ser um só
corpus, um só filme. "A divisão em episódios, quando a RAI virou nossa
parceira, me parece puramente acidental, mas foi benéfica. Permitiu uma
duração que seria impensável no cinema. Seis horas constituem um tempo
infinito, de romance.
Permitiu-nos seguir vários personagens e desenvolver histórias
paralelas, dilatando o que teria de ser concentrado e resumido num filme
para cinema."
A história trata desses dois irmãos, Nicola e Matteo, que seguem
caminhos diversos. Um intelectual e outro, policial. "Só começo a
perceber o que o será o filme quando inicio o trabalho com os atores.
Dou-lhes poucas instruções. Prefiro que eles me tragam suas informações
sobre os personagens. Sabia que Luigi Lo Cascio seria perfeito como
Nicola. É um dos raros atores italianos que podem interpretar um
intelectual sem parecer pedante."
Quando jovem, Giordana estudou música clássica. Diz que a música é
sempre uma personagem de seus filmes. Todo tipo de música, até as mais
disparatadas. Jazz, clássica, ópera, pop, rock, étnica ou sacra.
"Misturo tudo, mas faço uma distinção entre música de cena e na cena.
Gosto do uso que (Stanley) Kubrick faz da música. É uma espécie de lente
para aumentar ou deformar, como se a função da música fosse atribuir uma
dimensão mais abstrata à concretude das imagens. Ouço todo tipo de CD em
busca daquilo que funciona. Sabia que queria usar a música de Georges
Delerue para Uma Mulher para Dois (Jules et Jim), de François Truffaut,
um filme decisivo dos anos 1960. E também sabia que a música de
bandoneón de Astor Piazzolla daria força às cenas, como já havia
ocorrido em meu primeiro filme, Maledetti vi Amerò."
Grito de alarme - Uma das grandes cenas de A Melhor Juventude
é o discurso que expressa a amargura do professor de Nicola, durante o
exame a que ele se submete (e termina por abandonar). "É interpretado,
penso que de forma extraordinária, por Mario Schiano, que não é um ator,
mas um músico, um dos maiores jazzistas italianos. Diz uma coisa
terrível: a Itália é um lugar belo e inútil, destinado a desaparecer.
Não acredito, verdadeiramente, mas acho importante lançar esse grito de
alarme contra a decadência, não só da Itália, mas do Ocidente. Temos a
obrigação, como espécie, de reencontrar a energia e inocência perdidas,
de descobrir um destino comum entre os povos e as nações. Não podemos
continuar alimentando tensões para fazer a guerra, porque, desse jeito,
corremos o risco de autodestruir-nos."
Quando começou a fazer filmes, há 20 anos, Giordana selecionava um
personagem e o seu ponto de vista para deixar claro o que queria dizer.
"Hoje, tenho consciência de que devo e quero identificar-me com
todos os personagens, mesmo os mais diferentes de mim. Fascina-me a
diversidade. Por exemplo, Nicola e Matteo, os dois irmãos de A Melhor
Juventude, surgem do mesmo contexto familiar, possuem uma sensibilidade
muito forte, o mesmo amor pela cultura. Mas, em Matteo, essa
sensibilidade tem uma dimensão patológica que o impede de crescer.
Nicola, ao contrário, consegue elaborar e controlar seus fantasmas. Com
qual dos dois você acha que devo identificar-me?
Identifico-me com os dois. Fui um garoto atormentado, quase suicida,
como Matteo, mas também tenho a vontade, a capacidade de sonhar e ser
feliz de Nicola."
Para o diretor, seu filme não é sobre a esquerda italiana. "Trata de
uma coisa maior e mais ampla, que envolve a Itália, o Ocidente, a
sensação de que toda uma civilização está chegando ao fim." Giordana diz
que o mundo atual ficou formatado de um jeito que ficou mais difícil
sonhar projetos coletivos. "Os projetos voltam-se agora para as
consciências individuais, para as escolhas que cada um tem de fazer. Não
acho pessimista liquidar com a ilusão da modernidade; pelo contrário,
acho que pode ser um progresso. Os personagens de A Melhor Juventude me
fascinaram porque são diferentes não daquilo que os italianos são, mas
da forma como costumam ser representados, principalmente na televisão."
Há uma espécie de rito de passagem. "Nicola consegue passar seu
testemunho à geração seguinte, representada pelo filho de Matteo. Alguns
conseguem fazer essa passagem; outros, não, talvez porque não tenham
testemunho para dar ou se sintam esgotados." Daí a beleza do desfecho de
A Melhor Juventude. Muitos daqueles que amavam a revolução perderam suas
ilusões no terrorismo tipo Brigadas Vermelhas. E tudo converge para a
serenidade adquirida de Nicola, para o filho de Matteo que vai adiante
do pai, no rumo do Norte distante. A melhor juventude não foi só a dos
anos 1960, como parece sugerir Denys Arcand no discutível As Invasões
Bárbaras. "Fazer esse filme para TV foi importante porque o tema é um
pouco esse: liberar os jovens dessa tendência que consiste em anestesiar
suas angústias e a levá-los a um consumismo desenfreado (com que
dinheiro, se não existem empregos?). O importante é que não percamos a
capacidade de refletir. E resistir", conclui Giordana, que tem condições
de repetir o prêmio do público da mostra, que ganhou com o poderoso Os
Cem Passos, há três anos.