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Arte brasileira conhece a restauração florentina

Alessandra Seadi trabalha nas telas de São Mateus e São Pedro, pintadas no ano de 1817   Otávio Magalhães/AE

Associação entre universidade do Rio e instituição da Itália forma 15 restauradores

ROBERTA PENNAFORT

   RIO - Um intercâmbio entre a Universidade Gama Filho e o Instituto pela Arte e Restauro Palazzo Spinelli, da Itália, está possibilitando a capacitação de profissionais especializados em restauração de quadros, atividade pouco desenvolvida no Brasil. A entidade mandou professores italianos ao Rio e eles ensinaram a 15 alunos os segredos da tradicional técnica florentina, utilizada há pelo menos 300 anos. Os estudantes já recuperaram 16 obras que fazem parte do patrimônio cultural do Rio.

  Concluído no início do mês, o curso, com seis meses de duração, foi pago pelo Ministério do Trabalho da Itália, que exigiu que os participantes fossem italianos ou descendentes com direito à dupla cidadania. O material usado foi trazido pelos professores. Junto com especialistas brasileiros, eles deram aulas de Química, História da Arte, Documentação para Restauração, entre outras disciplinas.

  Os alunos - alguns com experiência em arte, outros não - aprenderam com os mestres italianos a limpar, nivelar, reentelar, consertar rasgos, remover fungos, recolorir - tudo para que as telas, vindas de igrejas e museus da cidade, ficassem com aspecto semelhante ao original. A algumas delas, eles devolveram cores perdidas com o amarelamento do verniz provocado pelo passar dos anos.

  Goteira e cupins - Entre as obras inteiramente recuperadas está São Mateus, óleo sobre tela de José Leandro de Carvalho, de 1817. O quadro integra a coleção de 12 apóstolos que adornam a nave da Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé. São Pedro e São Felipe, outros dois quadros da série que é tombada, estão em fase adiantada, já que não houve tempo suficiente para a conclusão da restauração da camada pictórica pelos alunos. Ambos estavam bastante deteriorados: o primeiro foi exposto a uma goteira durante pelo menos cinco anos; o segundo sofreu com a ação de cupins.

  Os aprendizes também se debruçaram sobre pinturas de João Timóteo da Costa retratando prefeitos do Rio do início do século 20, feitas em 1922 e integrantes do acervo do Museu da Cidade; a Flagelação de Cristo (1887), de Belmiro de Almeida, propriedade da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência; obras da Marinha e privadas. O que ainda não está pronto será finalizado pela restauradora Alessandra Leadi, autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) a tocar o trabalho.

  Alessandra participou de outro curso dado pelos professores do Palazzo Spinelli, este pago pelos estudantes. Ela explica que a técnica florentina, quase desconhecida no Brasil, é a melhor do mundo, porque usa produtos químicos que agridem pouco as telas. O material é removível, para que possa ser trocado por um mais moderno no futuro.

  Mais vagas - Com o intuito de formar mais profissionais na área, a Gama Filho vai lançar em março de 2004, também em parceria com o Palazzo Spinelli, a Pós-Graduação Latu Sensu em restauração, que vai durar um ano e meio (um ano no Rio e seis meses na Itália), segundo a assessora de assuntos internacionais da universidade, Daisy Ketzer. Serão 18 vagas para pessoas que tenham curso superior em qualquer área.

  Em 2005, deverá ser criado também o curso de graduação. "No Brasil, não há formação específica para o restauro. Queremos ser um centro de referência", diz Daisy. O instituto italiano é responsável pela manutenção da reserva técnica de Florença, que guarda peças do século 14.

  Encantamento - Dorita Dias Couto Ribeiro, de 52 anos, é formada em Geografia, mas não hesitou em fazer o curso, mesmo sem nunca ter tido aulas de artes antes. Filha e neta de italianos, ela passou a infância observando o avô, romano, trabalhando em peças de madeira bruta, que transformava em móveis e outros objetos para a casa. Dorita lembra o encantamento que as cenas lhe provocavam - o mesmo que sentiria anos depois, já adulta, quando passou a observar restauradores em ação, durante visita a museus.

  "Quando o consulado italiano ofereceu o curso, não pensei duas vezes", contou Dorita, que ficou impressionada com a dedicação dos professores.

  "Eles têm um cuidado com preservação da memória e, acima de tudo, um respeito pelas obras, que os brasileiros ainda não têm. Fiquei muito emocionada." Agora, Dorita pretende fazer pós-graduação em restauração e sonha em trabalhar na área.

(© O Estado de S. Paulo)

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