RIO - Um intercâmbio entre a Universidade Gama Filho e o Instituto
pela Arte e Restauro Palazzo Spinelli, da Itália, está possibilitando a
capacitação de profissionais especializados em restauração de quadros,
atividade pouco desenvolvida no Brasil. A entidade mandou professores
italianos ao Rio e eles ensinaram a 15 alunos os segredos da tradicional
técnica florentina, utilizada há pelo menos 300 anos. Os estudantes já
recuperaram 16 obras que fazem parte do patrimônio cultural do Rio.
Concluído no início do mês, o curso, com seis meses de duração, foi
pago pelo Ministério do Trabalho da Itália, que exigiu que os
participantes fossem italianos ou descendentes com direito à dupla
cidadania. O material usado foi trazido pelos professores. Junto com
especialistas brasileiros, eles deram aulas de Química, História da
Arte, Documentação para Restauração, entre outras disciplinas.
Os alunos - alguns com experiência em arte, outros não - aprenderam
com os mestres italianos a limpar, nivelar, reentelar, consertar rasgos,
remover fungos, recolorir - tudo para que as telas, vindas de igrejas e
museus da cidade, ficassem com aspecto semelhante ao original. A algumas
delas, eles devolveram cores perdidas com o amarelamento do verniz
provocado pelo passar dos anos.
Goteira e cupins - Entre as obras inteiramente recuperadas
está São Mateus, óleo sobre tela de José Leandro de Carvalho, de 1817. O
quadro integra a coleção de 12 apóstolos que adornam a nave da Igreja
Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé. São Pedro e São Felipe, outros dois
quadros da série que é tombada, estão em fase adiantada, já que não
houve tempo suficiente para a conclusão da restauração da camada
pictórica pelos alunos. Ambos estavam bastante deteriorados: o primeiro
foi exposto a uma goteira durante pelo menos cinco anos; o segundo
sofreu com a ação de cupins.
Os aprendizes também se debruçaram sobre pinturas de João Timóteo da
Costa retratando prefeitos do Rio do início do século 20, feitas em 1922
e integrantes do acervo do Museu da Cidade; a Flagelação de Cristo
(1887), de Belmiro de Almeida, propriedade da Ordem Terceira de São
Francisco da Penitência; obras da Marinha e privadas. O que ainda não
está pronto será finalizado pela restauradora Alessandra Leadi,
autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional
(Iphan) a tocar o trabalho.
Alessandra participou de outro curso dado pelos professores do
Palazzo Spinelli, este pago pelos estudantes. Ela explica que a técnica
florentina, quase desconhecida no Brasil, é a melhor do mundo, porque
usa produtos químicos que agridem pouco as telas. O material é
removível, para que possa ser trocado por um mais moderno no futuro.
Mais vagas - Com o intuito de formar mais profissionais na
área, a Gama Filho vai lançar em março de 2004, também em parceria com o
Palazzo Spinelli, a Pós-Graduação Latu Sensu em restauração, que vai
durar um ano e meio (um ano no Rio e seis meses na Itália), segundo a
assessora de assuntos internacionais da universidade, Daisy Ketzer.
Serão 18 vagas para pessoas que tenham curso superior em qualquer área.
Em 2005, deverá ser criado também o curso de graduação. "No Brasil,
não há formação específica para o restauro. Queremos ser um centro de
referência", diz Daisy. O instituto italiano é responsável pela
manutenção da reserva técnica de Florença, que guarda peças do século
14.
Encantamento - Dorita Dias Couto Ribeiro, de 52 anos, é
formada em Geografia, mas não hesitou em fazer o curso, mesmo sem nunca
ter tido aulas de artes antes. Filha e neta de italianos, ela passou a
infância observando o avô, romano, trabalhando em peças de madeira
bruta, que transformava em móveis e outros objetos para a casa. Dorita
lembra o encantamento que as cenas lhe provocavam - o mesmo que sentiria
anos depois, já adulta, quando passou a observar restauradores em ação,
durante visita a museus.
"Quando o consulado italiano ofereceu o curso, não pensei duas
vezes", contou Dorita, que ficou impressionada com a dedicação dos
professores.
"Eles têm um cuidado com preservação da memória e, acima de tudo, um
respeito pelas obras, que os brasileiros ainda não têm. Fiquei muito
emocionada." Agora, Dorita pretende fazer pós-graduação em restauração e
sonha em trabalhar na área.